Na semana em que Futebol Forte União (FFU) e Liga do Futebol Brasileiro (Libra) resolveram acenar para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que, por sua vez, convocou uma reunião para debater a proposta de uma liga unificada, uma dúvida séria ainda paira sobre essa ideia.
Ainda que a entidade máxima do futebol brasileiro e os clubes que compõem os dois blocos cheguem a um acordo relativo à liga, hoje ela só teria condições de sair do papel com o aval da Sport Media Participações, investidora do FFU.
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Controlada pela Life Capital Partners (LCP), a empresa realizou um aporte estimado de R$ 2,6 bilhões nos clubes do FFU, a partir de 2023. Com isso, abocanhou parte dos direitos comerciais e de mídia dessas equipes pelo prazo de 50 anos.
Os percentuais variam de acordo com o time. A Máquina do Esporte apurou que o Goiás, por exemplo, cedeu 20%, enquanto o Ceará vendeu 15%, e o Internacional comercializou 10%.
A Sport Media Participações pagou a todos os clubes que aceitaram o negócio os valores relativos ao adiantamento pela compra dessas parcelas de direitos.
Considerando-se que, mais do que organizar campeonatos, o papel de uma liga é realizar a negociação coletiva de direitos, teríamos no Brasil o cenário em que uma quantidade expressiva de clubes ganharia menos do que os concorrentes, já que estariam obrigados a repassar um percentual à Sport Media, por conta do adiantamento recebido em 2023.
Mas a situação se torna mais complexa quando lembramos que, além de comprar parte dos direitos de dezenas de clubes do FFU, a Sport Media também firmou negócios parecidos com times que ainda estão atrelados à Libra, casos de Atlético-MG e Vitória.
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Recentemente, a empresa esteve em vias de fechar acordo com o Grêmio, situação que ainda não se concretizou porque a entrada do clube gaúcho enfrenta resistência de uma parte dos membros do bloco, que temem diluição de receitas e possível favorecimento ao potencial novo integrante.
A Máquina do Esporte obteve a informação de que a Sport Media teria abordado outros clubes da Libra que estão mal das pernas em termos financeiros, como São Paulo e Santos.
Diferentemente de Atlético-MG, Grêmio e Vitória, os dois times paulistas não fizeram qualquer movimentação pública no sentido de mudarem de bloco. O Tricolor, inclusive, ocupava um cargo no Comitê Gestor da Libra e agora passou para a suplência.
Exclusividade para negociar direitos
O contrato da Sport Media com os clubes da Libra não seria um empecilho tão difícil de ser superado para a criação de uma liga unificada, caso contemplasse apenas a cessão de parte dos direitos comerciais e de mídia.
O grande complicador é que, ao fecharem com a investidora, os times repassaram a ela a exclusividade para negociar essas propriedades pelo período de cinco décadas.
Como a empresa possui vínculo com a maioria dos clubes (considerando-se as Séries A e B do Brasileirão), qualquer negociação coletiva de direitos só avançaria, em tese, se tivesse o aval dela.
Regras do Condomínio
Para formalizar o bloco comercial funcionando a partir de determinadas regras de governança, os clubes da antiga Liga Forte União (LFU), antecessora do FFU, decidiram criar o Condomínio Forte União, que teve adesão inicial de 25 clubes.
Esse pode representar outro sério impasse para a criação de uma liga unificada com a participação de clubes da Libra.
Isso porque a cláusula 4.10.2 da Convenção do Condomínio Forte União estabelece quórum de aprovação de 90% dos votos para que mudanças consideradas estruturais possam entrar em vigor.
Foi por conta dessa regra que a migração do Grêmio para o FFU passou a sofrer entraves e, hoje, caminha para subir no telhado, já que o time gaúcho formou uma coalização com Flamengo e Remo, dentro da Libra, passando a ocupar um assento na suplência do Comitê Gestor do bloco.
Hoje, a Sport Media detém 20% das cotas do Condomínio Forte União. Pela norma dos 90% de aprovação, isso dá a ela o poder de autorizar ou barrar qualquer mudança que afete os rumos do FFU. Ou seja: a empresa possui condições materiais de definir se a liga será ou não criada.
Clubes começam a questionar investidora
Nas últimas semanas, clubes do FFU têm questionado a atuação da investidora na definição dos rumos do bloco.
Desde que o Grêmio passou a se movimentar para migrar para ingressar no Condomínio Forte União e vender 10% de seus direitos comerciais e de mídia à Sport Media, o Goiás tem encaminhado uma série de notificações extrajudiciais endereçadas à investidora e ao comando do FFU, questionando os procedimentos adotados para a entrada do time gaúcho.
Em uma das mais recentes, apresentada nesta semana, o Goiás solicitou informações de quando a diretoria administrativa do FFU foi informada sobre a conclusão das negociações envolvendo a Sport Media e o Grêmio.
Em uma resposta a outro requerimento de informação feito pela equipe do Centro-Oeste, a diretoria do bloco afirmou não ter ciência de que a negociação estaria concluída.
Na notificação encaminhada à Sport Media, o time esmeraldino afirmou que “tomou conhecimento de que existe ao menos um documento assinado” entre a empresa e o Grêmio, “relacionado à negociação da fração ideal dos direitos do clube no âmbito do Condomínio Forte União”.
Nos bastidores, a informação que circula é de que o Tricolor Gaúcho receberia R$ 110 milhões para fechar esse negócio.
No documento, o Goiás alega ter recebido informação de “fonte fidedigna” de que a investidora estaria conduzindo negociações com outros clubes de futebol para a compra de parte dos direitos comerciais e de transmissão.
Conforme já noticiou a Máquina do Esporte, um desses times é justamente o Atlético-MG, que ainda não ingressou no Condomínio e segue na Libra.
Ao mesmo tempo, o CRB também notificou o FFU, pedindo informações detalhadas sobre os valores repassados pelo bloco ao clube, as receitas consolidadas sob controle do grupo, as premissas que nortearam a elaboração do contrato e os resultados obtidos nesses negócios.
Amazonas
Mas a grande dor de cabeça para a investidora pode vir do Amazonas, clube que, a exemplo do CSA, acionou a justiça a fim de obter uma liminar que garantisse a ele direito a voto na Assembleia Geral do FFU, mesmo disputando a Série C do Brasileirão.
O Estatuto Social do bloco prevê que apenas sócios das categorias A e B (da primeira e segunda divisões) podem votar nas Assembleias.
O Amazonas conseguiu o direito de participar desse debate sobre o Grêmio na condição de votante, já que a Justiça do estado entendeu que essa norma do Estatuto contraria o Código Civil.
Porém, o clube resolveu ir além e passou a questionar a própria validade do acordo com o FFU e a Sport Media.
O Amazonas ingressou no bloco em 2024, quando ainda disputava a Série B. À época, vendeu 10% de seus direitos de arena à investidora.
Rebaixado no ano passado, o time da Região Norte perdeu o direito a voto no FFU. Mas o clube não contesta apenas esse fato na ação.
Na petição, o Amazonas cita um Memorando de Entendimentos que teria sido “firmado em meados de 2025, pelo qual o FFU traçou um plano para assumir o controle sobre todos os direitos de arena dos clubes do Campeonato Brasileiro por 50 anos”.
O argumento do clube é de que ele desconhecia tais negociações, que estariam sendo feitas pela investidora à revelia dos membros do bloco.
A tendência é de que a relação com a investidora possa descambar para a judicialização e que outros clubes utilizem essa linha de raciocínio para tentar contestar o vínculo com a Sport Media.
Vale lembrar que, no próximo dia 6 de abril, a CBF promoverá uma reunião no Rio de Janeiro (RJ), para a qual foram convidados os presidentes ou CEOs dos 40 times das Séries A e B do Brasileirão, com o objetivo de debater a liga unificada.
O FFU e a Sport Media foram procurados nesta sexta-feira (20), às 16h50 (horário de Brasília). Até o fechamento desta reportagem, ambos não haviam se pronunciado. O espaço segue aberto, caso queiram se manifestar.
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Enquanto a CBF chama os blocos comerciais para debater a ideia, alguns clubes do Forte União passam a questionar a atuação da Sport Media
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