As polêmicas envolvendo uma parte dos clubes que integram o Futebol Forte União (FFU) têm relação com um mercado bilionário, que há décadas tem provocado rachas e disputas no interior do esporte mais popular do país.
Desde a década de 1980, quase todas as grandes brigas que agitam os bastidores do futebol brasileiro têm a ver com direitos de transmissão.
Se hoje em dia você precisa aturar algum colega mala que passa horas monopolizando as conversas do happy hour com uma discussão infinita sobre quem foi o verdadeiro campeão brasileiro de 1987, lembre-se que isso tem a ver, na origem, com a criação do Clube dos 13, entidade que durante décadas comandou as negociações de mídia no Brasil.
Se no ano passado o Flamengo de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, bloqueou na Justiça recursos que o Grupo Globo pagaria aos demais clubes da Liga do Futebol Brasileiro (Libra), isso tem a ver com direitos de mídia.
O próprio surgimento de blocos comerciais que passaram a promover negociações com emissoras e também atrair investidores externos para o negócio (algo que o FFU fez, mas a Libra não) tem a ver com direitos de mídia.
E se hoje há uma rebelião deflagrada no FFU envolvendo clubes das Séries B e C do Brasileirão, a causa está também nos direitos de mídia.
No Brasil, quando há muito dinheiro envolvido em determinadas situações, o conflito se torna inevitável. As disputas por heranças de famosos estão aí para provar. O que dizer então dos direitos de transmissão do futebol brasileiro, que movimentaram uma receita bruta de R$ 3,264 bilhões no ano retrasado, segundo o Relatório Convocados/Outfield 2025?
O mercado de direitos de transmissão no futebol brasileiro tem sido marcado, nos últimos anos, pelo avanço consistente da LiveMode. A revolta de parte dos clubes do FFU e algumas decisões judiciais, porém, ameaçam barrar a ascensão da agência.
Rebelião na Série B
Quando os primeiros sinais de insatisfação começaram a ser externados por clubes do FFU na Série B, a disputa parecia estar centrada apenas nas diferenças entre o valor que o Fortaleza deve receber pela publicidade estática nos jogos em casa (R$ 25 milhões) e o que será pago a outros clubes do bloco da mesma divisão (R$ 6 milhões).
Isso conta parte do drama, mas não ele todo. A revolta tem a ver também com os contratos de mídia negociados pelo FFU, via LiveMode.
Um presidente que conversou com a coluna sob condição de anonimato confidenciou que muitos clubes desejavam fechar com o Grupo Globo, seguindo o caminho que foi escolhido pelos estreantes São Bernardo e Náutico.
Contudo, o contrato firmado por essas equipes com a Sport Media Participações garante à investidora a exclusividade na negociações dessas propriedades. E assim o direito de exibir os jogos em casa dos clubes do FFU na Série B acabou sendo vendido para o Grupo Disney.
Quem ganha mais?
Quando a negociação envolvendo São Bernardo e Naútico veio a público, a Máquina do Esporte apurou que cada clube ganharia R$ 14,9 milhões pela cessão dos direitos de arena à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
O FFU viu-se forçado a equiparar essa quantia, prometendo uma verba fixa R$ 15,5 milhões a cada um de seus representantes na Série B, dos quais são descontados R$ 600 mil por equipe para o pagamento das despesas com a produção dos jogos.
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Isso daria os mesmos R$ 14,9 milhões que serão pagos a São Bernardo e Náutico. Só que essa conta é mais complexa.
Recentemente, o site Infomoney informou que os contratos de TV e de placas publicitárias firmados pelo FFU estariam rendendo uma média de R$ 14,5 milhões aos clubes do bloco na Série B.
A Máquina do Esporte apurou junto a dirigentes que o valor de fato bate com o que está sendo distribuído aos times. Porém, essa não é exatamente a quantia que fica no caixa das equipes.
Parcela da investidora
Os clubes do FFU precisam repassar à Sport Media um percentual firmado em contrato, referente a valores que receberam como adiantamento pela venda dos direitos comerciais e de mídia pelo prazo de 50 anos.
O Goiás, que negociou 20% de seus direitos, precisaria repassar R$ 2,9 milhões à investidora, recebendo de fato R$ 11,6 milhões. O Ceará, que cedeu 15%, teria de destinar R$ 2,175 milhões, ficando (em tese) com R$ 12,325 milhões.
Esses números, vale lembrar, são estimativas. O FFU e a Sport Media foram questionados sobre os valores distribuídos e os eventuais descontos, mas optaram por não se pronunciar.
Judicialização
Toda a polêmica que envolveu a possível entrada do Grêmio no FFU parecia ter como foco o clube e o eventual risco de diluição das receitas do bloco.
Na prática, os membros do Forte União pareciam mirar no Tricolor Gaúcho, mas o verdadeiro alvo consistia na Sport Media e na LiveMode, que não apenas realiza a negociação dos direitos do bloco, como também os adquire, por meio da CazéTV, plataforma da qual é proprietária.
Essa situação, aliás, deve ser debatida na Comissão de Esportes da Câmara Federal, em uma audiência proposta pelo deputado Beto Pereira (PSDB/MS).
Na justificativa do requerimento apresentado na semana passada, o parlamentar cita indícios de que haveria um conflito de interesses no interior do FFU, por conta de uma suposta relação societária entre a investidora e a LiveMode, sem contar o próprio fato de a emissora pertencente à agência comprar direitos que ela própria negocia.
LEIA MAIS: Comissão da Câmara tenta ouvir FFU, LiveMode e investidores sobre contratos com clubes
Nas últimas semanas, o FFU tem recebido uma série de notificações extrajudiciais, de clubes como Goiás e CSA, que questionam as negociações promovidas pela investidora Sport Media com clubes de fora do bloco (casos de Vitória e Atlético-MG).
Mas o Amazonas foi além e passou a questionar na Justiça os termos do contrato. Na ação, o clube cita uma reportagem do portal Jota, segundo a qual “a assembleia de 16 de março foi realizada na sede da LiveMode, empresa responsável pela parte comercial do CFU [Condomínio Forte União], o que reforça, simbolicamente, a sobreposição entre os dois polos que deveriam ser independentes”.
A judicialização tende a ser o caminho adotado pelos clubes que se rebelaram dentro do FFU. E, dependendo do desenrolar da história, isso coloca em risco o futuro dos acordos negociados pela LiveMode.
FPF
A Federação Paulista de Futebol (FPF), sob o comando de Reinaldo Carneiro Bastos, foi peça fundamental na ascensão da LiveMode no futebol brasileiro.
A empresa é responsável por gerar o sinal do Paulistão e também por negociar os direitos com as emissoras.
No ano passado, a agência esteve em vias de estender seus domínios, com a tentativa de Reinaldo de se candidatar à presidência da CBF, com apoio majoritário dos clubes das Séries A e B.
No fim das contas, as federações se uniram e fecharam com Samir Xaud, deixando o cartola paulista sem condições de registrar sua candidatura, já que não conseguiu reunir apoios de pelo menos cinco entidades estaduais.
Mesmo sendo catapultado da disputa nacional, Reinaldo manteve o poder no estado mais rico do país. Porém, a judicialização também alcançou um dos principais aliados da LiveMode.
No começo deste ano, o dirigente paulista tornou-se alvo de um inquérito conduzido pela Polícia Civil, a pedido do Ministério Público, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro.
Por pouco Reinaldo não ficou impedido de se candidatar à reeleição na FPF, disputa na qual seria candidato único, por conta de uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que suspendeu a eleição na entidade.
O pleito acabou ocorrendo nesta quarta-feira (25), graças a uma decisão relâmpago do Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA), que, segundo a FPF, seria o órgão competente para decidir as questões relativas ao Estatuto da entidade.
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Ainda não está claro se a eleição promovida com base nessa arbitragem favorável poderá ou não ser contestada pelo Judiciário.
Se algum revés vier a ocorrer, representará uma crise sem precedentes na maior e mais rica federação estadual do país.
Por fim, vale destacar que o fato de essa polêmica judicial envolvendo Reinaldo surgir na mesma época em que a LiveMode começa a ter sua ascensão contestada em diferentes frentes, tende a ser uma mera coincidência. Mesmo com esse enredo sendo baseado em fatos reais.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
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Agência, que é parceira do Futebol Forte União e da Federação Paulista de Futebol, tem enfrentado reveses nas últimas semanas
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