Eduardo Fernandez, LIDE, analisa impacto econômico das apostas no Brasil 

Com nove meses de mercado regulamentado, as apostas esportivas e os jogos online já exercem impacto significativo na economia brasileira. Para analisar melhor esse efeito – seja na regulamentação do setor, no desenvolvimento e na consolidação de diferentes áreas, na contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB) ou na atração de investimentos estrangeiros -, o SBC Notícias Brasil conversou com Eduardo Fernandez, presidente do Conselho do Grupo de Líderes Empresariais (LIDE) no Rio Grande do Sul.

SBC Notícias Brasil: Como você avalia o impacto econômico da regulamentação das apostas online no Brasil nesses primeiros meses de mercado regulamentado?

Foto do perfil de Eduardo Krawetz Fernandez
Eduardo Fernandez

Eduardo Fernandez: No primeiro semestre de 2025, tivemos um crescimento na arrecadação fiscal. A Receita Federal arrecadou, aproximadamente, R$  3,08 bilhões em tributos sobre apostas reguladas, frente a meros R$  7 milhões no ano anterior – um salto de mais de 40.000 %.

No 1º trimestre de 2025, plataformas de apostas registraram mais de 5 bilhões de acessos, o que equivale a cerca de 650 acessos por segundo. Esse comportamento demonstra maturidade dos usuários e consolida o Brasil como um mercado sofisticado e atraente para operadoras – inclusive com exigência de propriedade mínima brasileira de 20% para participar do mercado.

Portanto, o mercado regulado já demonstra ser uma fonte relevante de receitas públicas, de oportunidade de geração de trabalho e de fortalecimento institucional. Ao mesmo tempo, há desafios importantes, como a necessidade de regulamentação equilibrada, regulação contínua e mecanismos eficazes de prevenção ao vício e à manipulação de resultados.


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SBC Notícias Brasil: Quais áreas da economia brasileira podem ser impulsionadas diretamente ou indiretamente pela consolidação e pela maturação do mercado de apostas no país?

Eduardo Fernandez: A consolidação e a maturação do mercado de apostas online no Brasil têm potencial para impulsionar diversas áreas da economia – tanto de forma direta, com geração de receitas e de empregos no setor principal, quanto indireta, por meio de setores de apoio, de infraestrutura e de serviços.

Setores como tecnologia, publicidade, mídia, esportes, entretenimento, jurídico e meios de pagamento têm impacto direto, enquanto áreas como RH, educação, pesquisa e até mesmo turismo têm potencial de impactos indiretos no futuro.

SBC Notícias Brasil: Qual o potencial da indústria de apostas esportivas e de jogos online para contribuir com o PIB e a geração de empregos no Brasil?

Eduardo Fernandez: O potencial da indústria de apostas esportivas e de jogos online no Brasil é altamente promissor – tanto para a contribuição ao PIB quanto para a geração de empregos, especialmente com a regulamentação em vigor desde 2024 e a rápida expansão do setor em 2025.

Embora ainda incipiente, o setor já apresenta indícios de que pode se tornar um dos principais segmentos da economia digital brasileira. Em 2025, o mercado de apostas online deve movimentar entre R$ 250 e R$ 300 bilhões em volume bruto (total apostado), segundo estimativas do Banco Central.

Supondo que o setor se formalize progressivamente e mantenha uma taxa de crescimento entre 15% e 20% ao ano, é viável que contribua com 0,5% a 1% do PIB brasileiro nos próximos 5 anos. 

No Reino Unido, a indústria de jogos representa cerca de 0,6% do PIB. Em países como Itália, Espanha e EUA, o setor de jogos regulado também representa entre 0,3% e 1% do PIB, dependendo da maturidade do mercado e da inclusão dos cassinos físicos.

Estima-se que cada operadora licenciada possa gerar entre 200 e mil empregos diretos, dependendo da escala da operação. Se o país atingir de 50 a 100 operadoras licenciadas, o número de empregos diretos pode variar de 10 mil a 50 mil em poucos anos. 

SBC Notícias Brasil: No seu ponto de vista, como o governo e as empresas do setor podem equilibrar o crescimento econômico com a responsabilidade social no mercado?

Eduardo Fernandez: Essa é uma questão central para a sustentabilidade do mercado de apostas online no Brasil. O crescimento econômico dessa indústria precisa caminhar lado a lado com medidas firmes de responsabilidade social, para proteger consumidores vulneráveis, manter a legitimidade pública do setor e evitar efeitos colaterais – como o endividamento e a dependência patológica.

SBC Notícias Brasil: Qual o papel do setor na atração de investimento estrangeiro? Que novas oportunidades você enxerga para empreendedores locais e internacionais?

Eduardo Fernandez: O setor de apostas esportivas e jogos on-line, com a regulamentação em andamento no Brasil, tem desempenhado um papel estratégico na atração de investimento estrangeiro e na criação de oportunidades para empreendedores locais e internacionais.

O Brasil é hoje um dos maiores mercados consumidores de apostas do mundo, com mais de 100 milhões de usuários ativos em plataformas de entretenimento digital.

A regulamentação abre espaço para um ecossistema de negócios ao redor do core business de apostas. Isso inclui o desenvolvimento de plataformas white label para pequenas operadoras, personalização regional e o lançamento de portais regionais de apostas e de análises – especialmente com foco em clubes locais e nichos esportivos. 

As fintechs brasileiras podem se tornar parceiras preferenciais de operadoras internacionais, oferecendo integração e conformidade com o sistema financeiro nacional.

SBC Notícias Brasil: O crescimento do mercado exige novos perfis profissionais. Quais serão os tipos de capacitação ou de formação que você acha que serão demandadas nos próximos anos?

Eduardo Fernandez: O crescimento acelerado do mercado de apostas esportivas e jogos online no Brasil deve gerar uma forte demanda por novos perfis profissionais, especialmente em áreas que combinam tecnologia, dados, marketing digital, regulação e comportamento humano.

Nos próximos anos, veremos uma transformação do mercado de trabalho nesse setor, com novas funções, certificações e carreiras especializadas surgindo rapidamente.

SBC Notícias Brasil: A fluência em inglês e outras competências digitais têm se tornado pré-requisitos para atuar no mercado. Quais iniciativas privadas seriam fundamentais para preparar a mão de obra brasileira para as exigências do setor?

Eduardo Fernandez: A fluência em inglês e o domínio de competências digitais são realmente pré-requisitos críticos para atuar no mercado de apostas e jogos online, pois é um setor essencialmente globalizado, digital e altamente regulado.

Para que o Brasil aproveite plenamente o potencial desse mercado e evite importar toda a mão de obra qualificada, será essencial o envolvimento da iniciativa privada em projetos de capacitação direcionados. 

Como exemplo podemos citar parcerias com edtechs [empresas que desenvolvem soluções tecnológicas para a educação] e plataformas de ensino digital, a criação de academias corporativas do setor, programas de bolsas de estudo com foco em inclusão, iniciativas regionais em hubs de inovação, entre outras.

Portanto, o mercado de apostas no Brasil não deve esperar pela formação tradicional – é fundamental que empresas, operadoras, fintechs e afiliadas invistam ativamente na formação de profissionais.

SBC Notícias Brasil: Quais são os principais entraves que ainda precisam ser superados para que o setor consiga se desenvolver de forma sustentável e em longo prazo?

Eduardo Fernandez: O setor de apostas no Brasil tem crescido significativamente, especialmente após a legalização das apostas esportivas em 2018 e a regulamentação mais recente em 2024. No entanto, ainda existem diversos entraves que precisam ser superados para que o setor possa se desenvolver de forma sustentável e em longo prazo. 

Para o setor de apostas prosperar de maneira sustentável no Brasil, é preciso consolidar um marco regulatório estável e eficiente, garantir fiscalização eficaz e combate à ilegalidade, proteger os consumidores com medidas de jogo responsável, ajustar o modelo tributário para atratividade e legalidade e promover uma imagem mais profissional e transparente do setor.

Acredito que se esses desafios forem enfrentados de forma coordenada entre governo, empresas [do mercado] e sociedade civil, o setor tem potencial para se tornar uma importante fonte de receita e empregos no país.

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