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Espaço Jurídico, Joberto Porto: mercado regulado exige responsabilidade compartilhada

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Em mais uma contribuição para a coluna Espaço Jurídico, Joberto Porto, advogado e Chief Legal Officer (CLO) da CDA Gaming, grupo responsável pelas marcas Casa de Apostas e Betsul, analisou a responsabilidade compartilhada dos diferentes agentes que compõem o mercado regulado de apostas.

O especialista destacou que, embora a licença e a responsabilidade formal sejam do operador, a confiança, a integridade e a sustentabilidade do setor dependem da atuação coordenada de toda a cadeia envolvida na operação.


A licença é do operador. A responsabilidade e o risco é de toda indústria

À medida que o mercado brasileiro de apostas amadurece, uma constatação se torna inevitável: não é mais possível falar em conformidade regulatória olhando apenas para o operador. A licença pode pertencer a uma única empresa, mas a experiência do apostador, a integridade da operação e a credibilidade do setor dependem de uma cadeia ampla de agentes que participa diretamente da entrega regulada.

Um operador não atua sozinho. A segurança das transações, os mecanismos de prevenção à fraude, os processos de identificação, a oferta de jogos, a estabilidade tecnológica, a integridade esportiva e a aquisição de usuários dependem de instituições de pagamento, afiliados, plataformas, provedores de jogos, empresas de KYC, certificadoras e fornecedores especializados em monitoramento e compliance. A responsabilidade formal pode ser individual, mas a construção da confiança é necessariamente coletiva.

Essa é uma das principais mudanças trazidas pelo ambiente regulado. Durante muito tempo, fornecedores foram vistos apenas como prestadores de serviço. Hoje, essa leitura é insuficiente. Quando uma empresa participa de atividades essenciais ao cumprimento das exigências regulatórias, sua atuação deixa de ser meramente operacional e passa a ocupar posição estratégica na governança do negócio.

Esse fenômeno é especialmente perceptível no segmento de pagamentos. As instituições que integram esse ecossistema já não exercem apenas a função de movimentar recursos. Tornaram-se agentes relevantes para prevenção de fraudes, monitoramento transacional, rastreabilidade financeira e preservação da integridade da operação. Sem pagamento não existe aposta. Mas sem integridade nos pagamentos também não existe mercado sustentável.

Joberto Porto, advogado e colaborador da coluna Espaço Jurídico do SBC Notícias Brasil.
Crédito: Joberto Porto

O operador, portanto, não busca apenas um fornecedor de tecnologia, um provedor de pagamento ou um prestador de serviço. Busca um parceiro capaz de contribuir para a estabilidade da operação e para a confiança do apostador. Em mercado regulado, a verdadeira parceria não é testada quando tudo funciona perfeitamente, mas quando surgem incidentes, dúvidas, bloqueios, fraudes ou situações que exigem atuação coordenada.

É nesse ponto que o setor precisa ser mais claro. No mercado regulado, o fornecedor crítico não pode aparecer apenas na implantação, na cobrança e na renovação contratual, desaparecendo quando o problema chega ao operador e ao apostador. Quem integra a cadeia, captura valor econômico e influencia diretamente a jornada do usuário precisa ter disponibilidade institucional para ajudar a resolver incidentes, esclarecer falhas, compartilhar informações e preservar a confiança na operação.

Ser intermediário em determinado processo não significa ser indiferente aos efeitos que esse processo produz. Cada agente possui atribuições, limites contratuais e regime regulatório próprio, mas os impactos de uma ocorrência operacional raramente permanecem restritos a um único participante. Quando o apostador enfrenta um problema, ele espera solução, não uma discussão sobre a divisão interna de responsabilidades do ecossistema.

Não se trata de defender responsabilidade solidária automática entre todos os participantes da cadeia. Essa não é a questão. O ponto é mais relevante: fornecedores críticos não são figuras neutras em uma operação regulada. Quando sua tecnologia, seu fluxo, sua infraestrutura ou sua atuação interfere diretamente na experiência do usuário e na conformidade do operador, o dever de colaboração passa a ser também um componente de maturidade institucional.

O mesmo raciocínio se aplica aos demais elos da cadeia. Uma falha relevante em processos de identificação, uma inconsistência operacional em plataforma, uma vulnerabilidade relacionada à integridade dos jogos ou uma conduta inadequada de afiliados pode produzir efeitos que ultrapassam os limites do contrato e atingem diretamente a reputação do operador perante consumidores, parceiros, imprensa e reguladores.

Por isso, a régua de avaliação dos fornecedores também mudou. Durante anos, muitos foram medidos apenas pela eficiência de suas entregas. A partir de agora, também serão avaliados pela capacidade de atuar de forma colaborativa na gestão de incidentes, na solução de problemas, no esclarecimento de situações complexas e na preservação da confiança do usuário. Cumprir estritamente a obrigação contratual pode bastar para executar um serviço, mas dificilmente será suficiente para sustentar relações duradouras em um setor que depende de confiança mútua.

O fornecedor que atua em mercado regulado não vende apenas tecnologia, processamento, tráfego, certificação ou ferramenta operacional. Vende também previsibilidade, estabilidade, cooperação e capacidade de resposta. No iGaming regulado, fornecedor crítico não é figurante da conformidade. Quem participa da operação também precisa participar da solução.

O próximo estágio de maturidade do iGaming brasileiro talvez esteja justamente nessa seleção mais rigorosa de parceiros. Operadores precisarão avaliar não apenas preço, eficiência ou capacidade técnica, mas também postura institucional, disposição para resolver problemas, transparência na gestão de incidentes e aderência aos padrões de governança exigidos de uma atividade regulada.

Sem operadores não existe mercado. E sem mercado não existem fornecedores. Essa constatação deveria orientar uma postura mais madura de todo o ecossistema. Os mercados mais sólidos não são aqueles em que cada participante protege apenas o seu próprio interesse, mas aqueles em que todos compreendem que a sustentabilidade do setor depende da capacidade coletiva de prevenir riscos, enfrentar problemas e preservar a confiança pública.

A licença pode ser do operador. Mas a confiança necessária para mantê-la é construída por toda a indústria.


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