A possível legalização dos cassinos físicos no Brasil voltou ao centro do debate como uma das principais apostas para impulsionar o turismo e atrair novos investimentos ao país. Em meio a um cenário de crescimento recorde na chegada de turistas internacionais em 2025, o tema ganha força como uma estratégia capaz de diversificar a oferta de entretenimento e aumentar a competitividade do Brasil no mercado global.
Para Bruno Omori, presidente do Instituto de Desenvolvimento, Turismo, Cultura, Esporte e Meio Ambiente (IDTCEMA) e diretor de Jogos e Hospitalidade da Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (FHORESP), a discussão vai além do jogo em si: trata-se de incorporar um novo produto turístico com alto potencial de geração de demanda.
Nesse contexto, os cassinos são vistos como âncoras de desenvolvimento, especialmente quando integrados a complexos de lazer. Conforme Omori, o modelo previsto no projeto de lei, o chamado PL dos Cassinos, pode “gerar novos fluxos turísticos e fortalecer o destino”, ao criar polos de atração em diferentes regiões do país.
Outro ponto central é o impacto no comportamento do próprio turista brasileiro. Atualmente, milhões de pessoas viajam ao exterior em busca desse tipo de entretenimento, movimentando economias como as de Las Vegas, Cancún e Punta del Este.
Com a regulamentação, parte desse fluxo poderia ser retida no país. “Você cria um novo entretenimento […] e fortalece um fluxo novo de turistas”, afirma Omori, ao destacar o potencial de ampliar tanto o turismo nacional quanto o internacional.
Além do turismo, a legalização dos cassinos físicos é vista como um motor de desenvolvimento econômico mais amplo. O setor hoteleiro, o mercado imobiliário, a construção civil e áreas como feiras, gastronomia e serviços seriam diretamente beneficiados.
Com expectativa de 70 bilhões de dólares em investimentos, a pauta reforça a ideia de que os cassinos não são somente espaços de jogo, mas grandes complexos de entretenimento capazes de gerar empregos, renda e alavancar destinos turísticos.
“Quando a gente fala de cassino, novamente, eu falo de entretenimento. O entretenimento vai funcionar como hoje você tem um jogo de futebol, um teatro, uma balada, um restaurante ou um museu. Ou seja, as pessoas vão para se divertir”, afirma Omori. Ele conclui: “será um impacto macroeconômico para a economia brasileira”.
Confira a entrevista completa com Bruno Omori
iGaming Brazil: O Brasil viveu, em 2025, o seu melhor momento no turismo internacional. O país registrou 9.287.196 chegadas de turistas estrangeiros, o maior volume já observado na série histórica. O número representa um crescimento expressivo de 37,1% em relação a 2024, ano que, até então, detinha o recorde, com cerca de 6,7 milhões de visitantes internacionais. Quais razões você aponta para esse crescimento da demanda internacional pelo Brasil?
Bruno Omori: De fato, o Brasil teve um crescimento significativo, passando de cerca de 6 milhões para 9 milhões de turistas de um ano para o outro. Há alguns fatores essenciais para isso. O país, por meio da Embratur e do Ministério do Turismo, passou a realizar análises mais criteriosas sobre o fluxo de visitantes e a desenvolver estratégias de promoção internacional mais consistentes.
Além disso, houve a contribuição da alta do dólar, que torna o Brasil um destino mais competitivo e acessível. Por exemplo: com 100 dólares, em Nova Iorque, o turista provavelmente se hospedaria em um hotel supereconômico ou econômico. Já no Brasil, esse valor — cerca de 550 reais — pode garantir uma estadia em um hotel de categoria intermediária (mid-scale) ou até superior (upscale), especialmente em cidades como São Paulo. No litoral, essa relação custo-benefício pode ser ainda mais vantajosa.
Esse conjunto de fatores, somado ao aumento da visibilidade do Brasil como destino turístico, contribuiu para esse crescimento.
iGaming Brazil: Podemos dizer que o Brasil está em alta entre os visitantes internacionais. O avanço consolida o nosso país como um destino cada vez mais competitivo e desejado no cenário global do turismo. Você acredita que a diversificação das opções de entretenimento, como a eventual legalização de cassinos físicos, poderia alavancar ainda mais esses números?
Bruno Omori: Na realidade, o Brasil ainda está engatinhando em relação à exportação, colocar o turismo como um produto de exportação, como faz, por exemplo, o México. Um bom exemplo é que, em 1994, tanto o Brasil quanto o México recebiam cerca de 4 milhões de turistas estrangeiros. O que o México fez? Ele colocou o turismo como política pública de exportação.
O que significa isso? O visto. O americano não precisa ter visto para entrar no México, porque ele vai para gastar. O mexicano continua tendo duras penas para poder entrar nos Estados Unidos. Com isso, ele aumentou apenas em um ano de 4 milhões, já foi para quase 12, 15 milhões de turistas estrangeiros só do país vizinho.
Além disso, implementou incentivos e políticas semelhantes às que o Brasil adota em setores como a agricultura. Dessa mesma forma, países como a Espanha, França, Japão, Singapura e os próprios Estados Unidos criam esse tipo de ações para fazer exportação.
Completando, o México recebe 45 milhões de turistas estrangeiros, enquanto o Brasil chegou a 9 milhões. Isso demonstra que ainda falta ao Brasil tratar o turismo como uma política pública de exportação, como fazem outros países.
Além das políticas estruturais, há também a questão do investimento em promoção internacional: a Espanha investe cerca de 500 milhões de euros, o México aproximadamente 500 milhões de dólares, enquanto o Brasil destina pouco mais de 25 milhões.
iGaming Brazil: De acordo com dados do Ministério do Turismo, São Paulo liderou o ranking, com 2.753.869 visitantes internacionais, seguido pelo Rio de Janeiro, com 2.196.443, e pelo Rio Grande do Sul, que recebeu 1.535.806 turistas ao longo de 2025. Considerando que o projeto de lei — o chamado PL dos Cassinos — impõe regras para limitar a quantidade de cassinos e bingos físicos por estado, essa medida poderia contribuir para destacar outras regiões do Brasil, além do eixo Rio–São Paulo, que possuem grande potencial turístico, mas ainda são pouco exploradas?

Bruno Omori: São Paulo recebe o maior fluxo de turistas, não só internacional como nacional. É bom dizer que o Brasil tem um grande potencial do turismo interno. Sessenta milhões milhões de turistas viajam dentro do Brasil hoje, e a gente tem uma possibilidade, uma capacidade de chegar a 120 milhões nos próximos anos só com o turismo de fluxo interno.
E aí, passado isso, o que acontece? O PL dos Cassinos, o 2234, vai contemplar um cassino integrado de resort por estado, dois no Rio e dois em Minas, que têm mais de 20 milhões de habitantes, e três no estado de São Paulo. Isso vai gerar novos fluxos turísticos e vai fortalecer o destino.
Além disso, há os cassinos turísticos. E aí, a lei fala que pode haver um, respeitando a distância mínima de 100 quilômetros. E os cassinos turísticos — estamos falando de modelos como Interlaken, na Suíça, ou Mônaco, e assim por diante — poderão estar em regiões turísticas.
Isso vai fazer com que aumente o fluxo internacional e fortaleça o destino, não só para o turismo nacional. O turista brasileiro, que hoje soma 28 milhões viajando para fora, pode permanecer no Brasil e potencializar esse mercado. Vamos supor: não é que ele não goste do litoral, por exemplo, da Bahia, e prefira Cancún, mas, a partir do momento em que você também tem um cassino, isso pode fortalecer essa demanda e atrair novos turistas.
iGaming Brazil: Considerando a sua experiência, qual seria o perfil do turista que escolheria o Brasil também pela oportunidade de frequentar cassinos físicos? Existe a expectativa de que o turismo de jogos contribua para elevar o gasto médio dos visitantes no país?
Bruno Omori: Nós podemos falar de um case muito característico do Brasil, que é Foz do Iguaçu. A melhor parte do parque das Cataratas está do lado do Brasil, os melhores hotéis são do lado do Brasil, o melhor fluxo e a chegada de visitantes nacionais e internacionais estão do lado do Brasil.
Mas o que acontece? Depois que a pessoa vai para o parque, por volta das 18h, 19h, começa a ter um fluxo grande de turistas indo para a Argentina ou para o Paraguai, para jogar nos cassinos.
E, se esses cassinos estivessem em Foz do Iguaçu, por que atravessar a fronteira, sendo que, do lado brasileiro, é muito mais confortável? Os ambientes são mais seguros, mais bonitos, a gastronomia é melhor e os hotéis são melhores. Eles permaneceriam aqui.
E não só isso: em vez de haver esse fluxo migratório indo para fora, haveria um fluxo de entrada, com turistas da Argentina e do Paraguai vindo se hospedar também nos hotéis do Brasil.
Quantos brasileiros não vão para Las Vegas, Cancún, Punta del Este ou Europa? Eles vão, sim, para fazer turismo, mas também para jogar. Jogos e cassinos físicos são formas de entretenimento.
O maior case é Las Vegas: hoje, menos de 30% a 40% do faturamento vem do jogo. O restante vem de atrações como Cirque du Soleil, NBA, NFL, UFC, baladas, congressos médicos e outros eventos. Portanto, o cassino físico é um grande diferencial como atrativo para novos turistas.
iGaming Brazil: O turismo nacional também poderia ser beneficiado com a legalização de cassinos e bingos físicos? De que forma?
Bruno Omori: Quando falamos dos cassinos integrados a resorts, eles serão voltados para grandes capitais ou cidades grades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza e Porto Alegre. Quando falamos dos cassinos turísticos, eles poderão estar em locais como Ilhabela, Campos do Jordão, Gramado e assim por diante. Então, sim, isso vai fortalecer muito essa questão.
Os bingos serão um a cada 150 mil habitantes. Então, cidades que estão dentro de um raio de 100 km — onde não poderia haver um cassino—, como, por exemplo, São Roque, que está a menos de 100 km de São Paulo, poderiam ter uma licença de bingo dentro de um hotel, com um clube de poker, oferecendo uma série de atividades.
Assim, por se tratar de uma cidade turística, poderia contar com um bingo que funcionaria como um cassino urbano, como ocorre hoje no México, em Portugal, no Paraguai ou mesmo na Inglaterra.
iGaming Brazil: Quais outros setores poderiam ser impulsionados com uma eventual legalização de cassinos integrados a resorts no Brasil, considerando a necessidade de oferecer outras formas de lazer e experiências além dos jogos?
Bruno Omori: As cidades que passam a ter um cassino acabam fortalecendo a demanda. Vamos falar especificamente da cidade de São Paulo. São Paulo já recebe 85% das feiras de negócios realizadas no Brasil. Por exemplo, na semana que vem, teremos a Expotel, que é a feira de donos de hotéis, com o congresso Brasil Opportunity Games Sports & Casinos. Na semana seguinte, já temos a BiS SiGMA South America, que é a feira de jogos.
E, com isso, o que acontece? Imagine que a pessoa passou o dia inteiro em uma feira e, depois, busca entretenimento. Hoje, São Paulo já oferece opções, como restaurantes, bares e casas noturnas. Mas imagina que você tem um cassino, com balada, com shopping. A pessoa vai para lá e isso traz um fluxo também de pessoas que moram perto e que querem conhecer e que querem ter uma experiência diferenciada
Então, sim, os bingos, os cassinos turísticos e os cassinos integrados a resorts aumentarão o fluxo de brasileiros e manterão no país muitos daqueles que hoje viajam para o exterior para jogar.
Realizamos diversos estudos pelo IDTC e também pela Federação de Hotéis e outras entidades das quais fazemos parte. Com a aprovação do PL 2234, a estimativa é de entrada de 70 bilhões de dólares. Por que falo em 70 bilhões de dólares? Primeiro, porque envolve outros mercados: o mercado imobiliário, onde serão construídos esses empreendimentos.
Depois, arquitetura, engenharia, contabilidade, advocacia. Depois, vai precisar construir, construtoras, materiais. Depois de construir, tem que decorar. Depois de decorar, tem que equipar. Depois de equipar, tem que treinar o pessoal, contratar o pessoal, para depois entrar na operação. Mas aí vem o marketing, vem a imprensa, vem os insumos. Será um impacto macroeconômico para a economia brasileira.
iGaming Brazil: Qual é a perspectiva do setor hoteleiro em relação aos cassinos físicos no Brasil? Já há previsão de investimentos no país?
Bruno Omori: A expectativa dos meios de hospedagem é que, onde possa haver um cassino integrado a resort ou um cassino turístico, eles estejam dentro de hotéis, resorts ou até mesmo em parques.
Já conversamos com mais de 70 a 80 operadores de fundos de investimento do exterior para que, quando houver a aprovação, possamos alinhar e direcioná-los para os locais onde há interesse e características de público adequadas para esses empreendimentos.

iGaming Brazil: De fato, a legalização desses empreendimentos ainda é um tema divisivo no Congresso Nacional, sobretudo, em um ano eleitoral. Qual é a expectativa do meio para o andamento do projeto neste ano?
Bruno Omori: Em relação à votação do PL 2864, todos sabem que ele está aprovado na Câmara desde 2022 e na CCJ do Senado desde 2024. É muito difícil que seja votado agora, em período eleitoral.
Eu entendo que, caso o atual governo seja reeleito, logo após a eleição haverá um clima bem interessante para entrar em votação, já que haverá mais quatro anos de mandato confirmados.
Se tiver mudança de governo para a oposição, há aquele período inicial de cerca de 100 dias após a eleição, em que o novo governo pode começar a pautar esse tema. Existe também a possibilidade de, em caso de troca de governo, a votação ocorrer ainda durante a gestão atual, para que ela seja ‘o pai da criança’ enquanto ainda estão no governo. Então tem esses três cenários.
Há ainda um quarto cenário: considerando que os jogos online e cassinos online já estão regulamentados e em funcionamento desde 2025, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) entenda que a legislação de 1947 já está superada e derrube o decreto-lei anterior, a atividade pode passar a vigorar independentemente do PL 2234.
iGaming Brazil: O PL dos Cassinos também contempla outras modalidades como os bingos físicos, caça-níqueis, jogo do bicho e as apostas em corridas de cavalos. Qual é a sua posição sobre a legalização dessas categorias? Elas também poderiam contribuir para o turismo?
Bruno Omori: Quando a gente fala de cassino, novamente, eu falo de entretenimento. O entretenimento vai funcionar como hoje você tem um jogo de futebol, um teatro, uma balada, um restaurante ou um museu. Ou seja, as pessoas vão para se divertir.
Você cria um novo entretenimento, especialmente para o pessoal adulto, que hoje, por exemplo, se não me engano, só tem aquela recriação para criança. Você cria uma diversão para o adulto, cria um entretenimento e fortalece um fluxo novo de turistas.
Portanto, para o turismo, cassinos integrados a resorts, cassinos turísticos e bingos, aliados ao que já existe hoje — como loterias estaduais, jogos online, cassinos online e apostas esportivas —, quando trabalhados de forma integrada com entidades e empresas representativas do setor turístico, podem, sim, gerar novos fluxos, novas experiências e contribuir para a geração de receitas, empregos e renda.
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