De nicho de entretenimento para uma potência cultural, social e econômica no Brasil. Para Marcio Zuba, diretor de eSport na Secretaria Nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte do Ministério do Esporte (MESP), essa é a definição do momento atual dos eSports no país.
Em entrevista exclusiva, Zuba explica que o esporte eletrônico nasce e se desenvolve na iniciativa privada. “Ou seja: todo jogo tem um dono. Existe uma empresa, uma desenvolvedora, que detém a propriedade intelectual daquela modalidade, dita as regras do servidor e organiza o ecossistema”.
Portanto, o Estado não pode intervir de forma unilateral. “Nós compartilhamos o desafio da integridade competitiva com os donos da propriedade intelectual dos jogos”, acrescenta, destacando que a integridade competitiva é um dos pilares para a credibilidade e a sobrevivência de qualquer modalidade.
“Nós entendemos que o combate a essas práticas irregulares exige um esforço conjunto de fiscalização e regulamentação do Estado, mas a principal frente de atuação do nosso Ministério, neste momento, é a prevenção. E nós acreditamos que a prevenção mais eficaz se faz com informação e educação”, reforça.
Conforme o diretor de eSports, o foco está na base, trabalhando não apenas para formar bons jogadores, mas também profissionais éticos e conscientes, protegendo futuro do cenário competitivo no Brasil.
“O governo não quer ser o ‘dono’ do eSport no Brasil. Nós queremos ser o principal parceiro estratégico para que o setor privado, as universidades e a sociedade civil façam esse mercado crescer com segurança, inclusão e geração de empregos”, declara.
Entrevista completa com Marcio Zuba, diretor de eSport do Ministério do Esporte:
iGaming Brazil: De acordo com o levantamento The State of Mobile Gaming 2025, o Brasil segue como o terceiro maior mercado do planeta em horas jogadas em dispositivos móveis. Como o Ministério do Esporte avalia esse crescimento do interesse pelos eSports no país?
Marcio Zuba: O Ministério do Esporte avalia esse dado com extremo entusiasmo, mas, acima de tudo, com um grande senso de responsabilidade.
Os eSports deixaram de ser, há muito tempo, um mero nicho de entretenimento para se consolidarem como uma potência cultural, social e econômica no nosso país. Tudo isso prova o que o Governo Lula acompanha de perto: o brasileiro é apaixonado por competição, inovação e tecnologia.
Nós enxergamos esse crescimento com as seguintes perspectivas:
• Econômica: o ecossistema dos eSport atrai inúmeros investimentos, e o nosso país é uma potência que está em evidência no cenário mundial.
• Ferramenta de Inclusão: Os eSports têm um poder de alcance formidável. Eles chegam à juventude de todas as regiões do país e dialogam diretamente com a nova geração, servindo como uma poderosa ferramenta de inclusão social e engajamento.
• Desenvolvimento de Talentos: Assim como no esporte tradicional, nós temos atletas de altíssimo rendimento no cenário digital. O Ministério procura atuar como um facilitador desse ecossistema, ajudando a estruturar o setor, promover a segurança jurídica e fomentar tanto as categorias de base quanto o alto rendimento.
O Ministério do Esporte trabalha para que o Brasil seja a maior potência global na produção de talentos e no desenvolvimento saudável da indústria de eSports.

iGaming Brazil: O Ministério do Esporte conta com dados que ajudam a traçar o perfil do adepto de eSports no Brasil?
Marcio Zuba: O Ministério do Esporte acompanha de perto os grandes levantamentos de mercado, que já nos dão um excelente termômetro sobre a diversidade, a faixa etária e o comportamento desse público.
No entanto, nós entendemos que o papel do Estado vai além de observar números privados; precisamos construir a nossa própria base de inteligência para entender não apenas o perfil do jogador, mas o perfil do cidadão inserido nos eSports.
Por isso, o Ministério está capitaneando um grande esforço de mapeamento nacional de dados e informações. Nós não fazemos isso sozinhos. Nossa estratégia é atuar em rede.
Atualmente, nosso plano de ação inclui:
• Integração Federativa: Estamos oficiando as secretarias estaduais e municipais de esportes em todo o Brasil para cruzar realidades regionais.
• Parcerias Acadêmicas: Buscamos celebrar Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com universidades federais e estaduais, trazendo o rigor científico e a pesquisa acadêmica para dentro da nossa tomada de decisão.
O que nós buscamos com essa rede de inteligência nacional é muito claro: sair do achismo e basear nossas ações em dados concretos. São essas informações, consolidadas junto aos estados, municípios e academia, que vão nos ditar exatamente quais políticas públicas precisam ser desenvolvidas do zero e quais iniciativas atuais precisam ser aprimoradas para fomentar o setor de forma estruturada, inclusiva e segura no Brasil.
iGaming Brazil: De que forma o governo pretende aproveitar esse grande público para ajudar a fortalecer o desenvolvimento do ecossistema de eSports no país?
Marcio Zuba: Nós enxergamos os milhares de espectadores não apenas como um público consumidor, mas como a fonte de uma grande cadeia produtiva. O objetivo do governo é transformar essa paixão em esporte eletrônico em um motor de desenvolvimento para o país.
O Ministério do Esporte deve atuar como uma ‘ponte’ entre o talento brasileiro e as oportunidades estruturais, focando em:
• Fomento e Estruturação da Base: Assim como no futebol ou no vôlei, os eSports precisam de ‘categorias de base’. Queremos democratizar o acesso, levando infraestrutura, conexão e tecnologia para as pontas. A ideia é criar um ambiente onde jovens de qualquer classe social possam desenvolver seus talentos e ingressar no cenário competitivo de forma estruturada.
• Capacitação Profissional para o Ecossistema: O público enxerga muito o pro-player, mas para cada atleta no palco, há dezenas de profissionais nos bastidores. Queremos usar esse interesse massivo para incentivar a capacitação em áreas como desenvolvimento de games, gestão de equipes, marketing esportivo, narração (casting), psicologia esportiva e tecnologia da informação. Nosso diálogo com as universidades, que mencionei anteriormente, vai exatamente nesse sentido: conectar o eSport à educação e à formação profissional.
• Atração de Investimentos e Segurança Institucional: Uma audiência desse tamanho atrai os olhos do mundo e do setor privado. O papel do Estado é organizar a casa, oferecendo diretrizes claras e reconhecimento institucional. Quando o Ministério do Esporte atua para entender e apoiar o setor, nós damos segurança para que as marcas e as grandes desenvolvedoras invistam mais no Brasil, gerando torneios maiores, mais patrocínios e, consequentemente, mais empregos.
Em resumo, nosso plano é usar a força dessa audiência para atrair parcerias e fomentar políticas públicas que transformem o Brasil em um pólo não apenas de consumo, mas de criação, tecnologia e exportação de talentos no mercado global de eSports.
iGaming Brazil: Qual foi o principal objetivo da criação da Cartilha dos eSports no Brasil e que tipo de orientação ela oferece para quem atua no setor?
Marcio Zuba: A publicação da Cartilha dos eSports representa um marco histórico. Foi uma ação absolutamente pioneira, não apenas dentro do Ministério do Esporte, mas na história do governo federal como um todo. O nosso principal objetivo foi muito claro: traduzir e transmitir um conhecimento estrutural sobre os esportes eletrônicos que nunca, até então, havia sido exposto com a chancela e o peso de um órgão governamental.
Nós percebemos que havia uma lacuna imensa de comunicação. De um lado, tínhamos o ecossistema vibrante dos eSports; do outro, uma parcela da sociedade e do próprio poder público que ainda desconhecia a seriedade e o tamanho desse mercado. A cartilha nasceu para ser essa ponte, visando conectar os jogadores, a sociedade — incluindo pais, professores e escolas — e os interessados em investir e atuar no setor.
Sobre as orientações que ela oferece, nós focamos em estabelecer uma base sólida, um verdadeiro ‘ponto de partida’ oficial. Ela traz:
• Desmistificação de Conceitos: Explicamos a diferença fundamental entre o jogo casual e a prática esportiva eletrônica de alto rendimento, que exige disciplina, treino e regras.
• Mapeamento do Ecossistema: Detalhamos as diversas profissões envolvidas, mostrando que o setor é uma grande engrenagem de geração de empregos.
• Saúde e Bem-estar: Oferecemos orientações de boas práticas sobre a saúde física e mental dos praticantes, combatendo o sedentarismo e promovendo um ambiente seguro.
No fim das contas, a cartilha é o Estado dizendo à comunidade gamer: ‘Nós enxergamos vocês, nós respeitamos o que vocês construíram e estamos aqui para dialogar e ajudar a estruturar esse cenário junto com toda a sociedade.
iGaming Brazil: A integridade competitiva tem sido um tema cada vez mais discutido no cenário global de eSports. Quais são hoje os principais desafios do Brasil nesse aspecto?
Marcio Zuba: A integridade competitiva é, sem dúvida, um dos pilares centrais para a credibilidade e a sobrevivência de qualquer modalidade. Esse é um desafio que enfrentamos tanto no esporte tradicional quanto no esporte eletrônico. No entanto, há uma diferença estrutural imensa na forma como lidamos com isso nos eSports.
Diferentemente do futebol ou do basquete, que são práticas de domínio público, o esporte eletrônico nasce e se desenvolve na iniciativa privada. Ou seja: todo jogo tem um dono. Existe uma empresa, uma desenvolvedora, que detém a propriedade intelectual daquela modalidade, dita as regras do servidor e organiza o ecossistema.
Isso significa que o Estado não pode simplesmente intervir de forma unilateral. O nosso principal desafio hoje no Brasil é consolidar um modelo de governança colaborativa. Nós compartilhamos o desafio da integridade competitiva com os donos da propriedade intelectual dos jogos.
Portanto, quando falamos de combater problemas graves como:
• Manipulação de resultados e apostas irregulares;
• Uso de trapaças (cheats e hacks) ou fraudes nos torneios;
• Comportamentos tóxicos e assédio dentro das plataformas;
A atuação do Ministério do Esporte se dá no sentido de proteger o cidadão brasileiro — seja ele o atleta profissional ou o fã que assiste —, mas sempre trabalhando em rede com as publishers (desenvolvedoras) e os organizadores de torneios. O desafio é criar mecanismos legais e de fiscalização que tragam segurança jurídica e transparência para o cenário no Brasil, respeitando as regras privadas de cada jogo, mas garantindo que o esporte seja justo, limpo e seguro para todos.

iGaming Brazil: Existem iniciativas em andamento para prevenir manipulação de resultados ou outras práticas irregulares nas competições de eSports, especialmente, com a liberação das apostas em modalidades do setor? O Ministério acompanha essa crescente atividade?
Marcio Zuba: O Ministério do Esporte acompanha com extrema atenção e responsabilidade a questão das apostas e os riscos de manipulação de resultados. Sabemos que essa é uma pauta sensível em nível global e que afeta diretamente a credibilidade de qualquer modalidade, seja no campo ou nas telas.
Nós entendemos que o combate a essas práticas irregulares exige um esforço conjunto de fiscalização e regulamentação do Estado, mas a principal frente de atuação do nosso Ministério, neste momento, é a prevenção. E nós acreditamos que a prevenção mais eficaz se faz com informação e educação.
Por isso, a nossa principal iniciativa em andamento é a busca por parcerias sólidas com a academia. Estamos dialogando com as universidades para incentivar a produção de conhecimento e a criação de cursos voltados para a prática saudável e ética dos esportes eletrônicos.
Nossa estratégia foca em:
• Formação de uma Cultura de Integridade: Queremos que os atletas, especialmente os mais jovens, as equipes e os profissionais dos bastidores tenham acesso a um letramento sobre ética esportiva, entendendo os riscos e as consequências severas do envolvimento com apostas irregulares.
• Apoio Científico: Utilizar as universidades para estudar o comportamento do ecossistema e nos fornecer dados que ajudem a blindar os eSports brasileiros contra essas ameaças.
Em resumo, o Ministério está vigilante. Mas, mais do que apenas observar, estamos agindo na base, trabalhando junto ao setor educacional para formar não apenas bons jogadores, mas profissionais éticos e conscientes, protegendo assim o futuro do cenário competitivo no Brasil.
iGaming Brazil: Apesar do crescimento do setor, a participação feminina ainda enfrenta desafios. Que medidas podem ser adotadas para ampliar a presença das mulheres nos eSports?
Marcio Zuba: Para ampliar a presença das mulheres nos eSports, a palavra de ordem é oportunidade em um ambiente seguro. O principal desafio hoje não é a falta de talento feminino, mas sim a necessidade de quebrar barreiras culturais e combater a toxicidade que ainda afasta muitas jogadoras.
Como medidas práticas que o Estado e o ecossistema podem adotar juntos, destaco:
• Fomento a competições exclusivas: Apoiar circuitos femininos é essencial para criar um espaço seguro onde elas possam competir, ganhar experiência e visibilidade sem assédio.
• Campanhas de conscientização: Promover, junto às desenvolvedoras (donas dos jogos) e organizadores de torneios, campanhas contínuas de combate à toxicidade e ao machismo nos servidores.
iGaming Brazil: O Ministério do Esporte tem projetos ou políticas específicas para incentivar a inclusão feminina no cenário competitivo e profissional?
Marcio Zuba: Sim, e este é um dos projetos que mais nos orgulha atualmente no Ministério do Esporte, pois ataca o problema exatamente na raiz: a qualificação e o empoderamento.
Nós estruturamos uma grande parceria com o setor acadêmico para lançar um projeto de capacitação em massa. O Ministério vai ofertar 10.000 vagas em cursos online e totalmente gratuitos, exclusivos para mulheres.
O diferencial desse projeto é a sua visão integral. O conteúdo não foca apenas no jogo em si, mas em três pilares fundamentais para o mercado de trabalho dos eSports:
• Foco Técnico: Capacitação para as diversas profissões do ecossistema.
• Foco Comportamental: Preparação psicológica, liderança e gestão de carreira.
• Foco Linguístico: Ensino de idiomas, fundamental para um mercado que é globalizado por natureza.
Além dessa qualificação, o Ministério mantém conversas ativas com as grandes organizações e times brasileiros que já fomentam a atuação feminina. O objetivo é que essas 10 mil mulheres formadas não fiquem apenas com um diploma na mão, mas encontrem portas abertas nas equipes e empresas do setor.
iGaming Brazil: Muitos jovens veem nos eSports uma oportunidade de carreira. Como o Ministério enxerga o papel do setor na profissionalização e na geração de oportunidades para essa nova geração?
Marcio Zuba: O Ministério do Esporte enxerga os eSports não apenas como o futuro do entretenimento, mas como o presente do mercado de trabalho brasileiro. Para nós, essa é hoje uma das maiores ferramentas de ascensão social, profissional e econômica da nossa juventude.
Tudo o que o Ministério está construindo até aqui se conecta exatamente com esse objetivo de gerar oportunidades reais:
• Mapeamento e Estrutura: Quando buscamos dados com estados e universidades, estamos estruturando o terreno para saber onde o jovem mais precisa de apoio.
• Reconhecimento Institucional: Quando lançamos a nossa Cartilha pioneira, estamos dizendo aos pais, às escolas e à sociedade que essa é uma profissão séria, quebrando preconceitos.
• Segurança e Ética: Quando dialogamos com as donas dos jogos e focamos na prevenção à manipulação de resultados, estamos garantindo um ambiente de trabalho limpo e seguro para os atletas.
• Qualificação e Inclusão: E quando ofertamos 10 mil vagas de capacitação gratuitas para mulheres, mostramos que o ecossistema tem espaço para todos.
A mensagem do Ministério para essa nova geração é clara: a carreira nos eSports vai muito além de ser o jogador no palco. Ela precisa de desenvolvedores, narradores, gestores, psicólogos e técnicos. O papel do Estado não é controlar o jogo, mas pavimentar esse caminho. Nós queremos dar segurança, estrutura e educação para que a paixão do jovem brasileiro se transforme em uma profissão digna, rentável e respeitada no mundo todo.

iGaming Brazil: A estrutura organizacional dos eSports ainda é bastante fragmentada no Brasil. Existe discussão dentro do governo sobre a criação de uma federação ou algum modelo de governança nacional para a modalidade?
Marcio Zuba: Essa é uma excelente pergunta para esclarecer, de forma definitiva, como o Ministério do Esporte enxerga o seu próprio limite de atuação. A resposta direta é: não. Não existe, hoje, nenhuma discussão dentro do Ministério para a imposição de uma federação única ou de um modelo estatal centralizado de governança para os eSports.
E o motivo para isso é puramente estrutural e jurídico. Como mencionei anteriormente, o esporte eletrônico tem uma natureza diferente do esporte tradicional: ele nasce, cresce e se desenvolve na iniciativa privada.
Nós operamos com a premissa de que todo jogo tem um dono. O ecossistema competitivo de cada modalidade depende, obrigatoriamente, da autorização e das diretrizes do proprietário da propriedade intelectual daquele jogo — as chamadas desenvolvedoras ou publishers. Portanto, tentar criar uma ‘superfederação’ de cima para baixo seria ignorar a dinâmica real do mercado. O que o Estado faz não é centralizar o controle, mas sim:
• Respeitar a iniciativa privada: Entendemos que quem dita as regras do circuito competitivo de um jogo é a empresa que o criou.
• Atuar como facilitador: Nosso papel é apoiar os organizadores de torneios, os times e os atletas, oferecendo segurança institucional, políticas públicas de fomento (como a qualificação de 10 mil mulheres) e estruturação de dados.
Em suma, o governo não quer ser o ‘dono’ do eSport no Brasil. Nós queremos ser o principal parceiro estratégico para que o setor privado, as universidades e a sociedade civil façam esse mercado crescer com segurança, inclusão e geração de empregos.
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