A agenda do Supremo Tribunal Federal (STF) para abril foi divulgada na última terça-feira (31 de março), trazendo um fato relevante ao setor de jogos no Brasil. No dia 23 de abril, o Supremo discutirá se a exploração de jogos, classificada como infração penal pela Lei das Contravenções Penais de 1941, é incompatível com a Constituição de 1988.
O STF reconheceu a repercussão geral do Recurso Extraordinário (RE) 966177, que será o primeiro item da pauta na data. Para Alex Pariente, advisor estratégico com trajetória internacional nos setores de gaming, hospitalidade, turismo e desenvolvimento de destinos, essa movimentação merece atenção além do campo estritamente jurídico.
“Independentemente do mérito, trata-se de um tema com potencial de impacto relevante sobre a segurança jurídica, a coerência regulatória e a previsibilidade institucional em torno do setor de jogos no Brasil”, afirmou.
Com ampla experiência no cenário de jogos e cassinos, atuando em ambientes altamente regulados e operações de grande escala, Pariente destacou que o país já avançou de forma importante com a regulamentação das apostas online.
“Ainda assim, permanece uma discussão estrutural relevante sobre a forma como diferentes modalidades de jogo são tratadas sob as óticas legal, operacional, fiscal e de enforcement”, disse.
De acordo com Pariente, o ponto central não é apenas “o que será permitido”, mas como o Brasil pretende construir um ambiente estável, fiscalizável e juridicamente consistente para o setor no longo prazo.
Outra possibilidade de autorizar os cassinos físicos no Brasil é a aprovação do chamado PL dos Cassinos, que tramita no Senado. Contudo, o tema ainda é considerado polêmico e enfrenta dificuldades para avançar em um ano eleitoral.
Nesse contexto, o executivo acredita que o debate no Brasil “está mais maduro do que estava, mas ainda não plenamente amadurecido. O avanço regulatório do online ajudou a deslocar a discussão para um campo mais técnico e menos emocional.
“Hoje, já existe mais espaço para discutir o setor com base em arrecadação, geração de empregos, proteção ao consumidor, compliance turismo e desenvolvimento econômico. Isso é um avanço importante. Mas o Brasil ainda está em uma fase de aprendizado institucional, e não de consolidação plena”, pontuou.
Confira a entrevista completa com Alex Pariente:
iGaming Brazil: Para abrir a conversa, você poderia compartilhar como começou seu envolvimento com a indústria de jogos? E quais mudanças mais relevantes observou no setor até a regulamentação das apostas online no Brasil, em janeiro de 2025?
Alex Pariente: Meu envolvimento com a indústria de jogos surgiu de forma bastante natural a partir da interseção entre hospitalidade, entretenimento, turismo e desenvolvimento de negócios. Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de atuar em ambientes altamente regulados e em posições ligadas tanto à operação quanto à expansão estratégica de ativos relacionados ao setor.
O que sempre me chamou atenção nesse mercado é que ele vai muito além do jogo em si. Estamos falando de uma indústria que conecta experiência do cliente, compliance, investimento, geração de empregos, turismo e desenvolvimento econômico.
Até a regulamentação das apostas online no Brasil, eu destacaria três mudanças muito relevantes: a profissionalização global do setor; a integração entre entretenimento físico e digital; e a mudança de mentalidade institucional, com um debate menos ideológico e mais pragmático sobre como regular bem uma demanda que já existe.
iGaming Brazil: Como avalia a decisão do Brasil de regulamentar o jogo online antes do jogo físico? E qual é a sua análise sobre o cenário atual do mercado de apostas de quota fixa no país?
Alex Pariente: Do ponto de vista prático, faz sentido o Brasil ter avançado primeiro no online, porque esse já era o segmento com maior urgência regulatória. Ao mesmo tempo, existe uma assimetria importante em regular primeiro o digital e deixar o físico para depois.
Em relação ao mercado atual de apostas de quota fixa no Brasil, eu vejo um setor que entrou numa fase de transição e depuração. Há muito interesse e potencial, mas agora começa a etapa em que o mercado vai diferenciar quem veio para construir operação e marca de longo prazo de quem veio apenas para capturar uma janela de oportunidade.
Os grandes temas daqui para frente serão enforcement, combate ao mercado ilegal, proteção ao consumidor, jogo responsável, equilíbrio tributário e sustentabilidade econômica para operadores sérios.
iGaming Brazil: Estudos indicam que o jogo ilegal pode representar cerca de 50% do mercado brasileiro. Na sua visão, esse é o principal desafio do setor? As medidas adotadas para combater o mercado paralelo têm sido eficazes?
Alex Pariente: Sem dúvida, o mercado ilegal está entre os principais desafios do setor, porque afeta diretamente a credibilidade do sistema, a arrecadação, a proteção ao consumidor e a competitividade dos operadores regulados.

As medidas adotadas até aqui são importantes, mas ainda insuficientes para o tamanho do desafio. Combater o mercado paralelo exige fiscalização constante, coordenação entre regulador, meios de pagamento e plataformas tecnológicas, bloqueio efetivo de operadores não autorizados e comunicação pública clara.
Mas há um ponto adicional: o mercado regulado também precisa ser competitivo e funcional. Se ele for excessivamente onerado ou burocrático, parte do consumidor continuará migrando para a informalidade.
iGaming Brazil: Com o mercado de jogos online entrando em seu segundo ano de regulamentação, acredita que o debate sobre o jogo como forma de entretenimento no Brasil está mais amadurecido? Isso pode contribuir para o avanço da legalização do jogo presencial? Ou ainda estamos engatinhando nesse quesito?
Alex Pariente: Eu diria que o debate está mais maduro do que estava, mas ainda não plenamente amadurecido. O avanço regulatório do online ajudou a deslocar a discussão para um campo mais técnico e menos emocional.
Hoje, já existe mais espaço para discutir o setor com base em arrecadação, geração de empregos, proteção ao consumidor, compliance turismo e desenvolvimento econômico. Isso é um avanço importante. Mas o Brasil ainda está em uma fase de aprendizado institucional, e não de consolidação plena.
iGaming Brazil: O Projeto de Lei dos Cassinos prevê, além dos cassinos físicos, outras modalidades de jogos presenciais, como bingos, caça-níqueis, apostas em corridas de cavalos e até o jogo do bicho. Na sua opinião, a legalização conjunta dessas modalidades pode impulsionar a economia nacional ou seria mais estratégico focar inicialmente apenas nos cassinos físicos para facilitar a aprovação do projeto?
Alex Pariente: Essa é uma questão muito sensível porque envolve, ao mesmo tempo, racionalidade econômica e viabilidade política. Um marco mais amplo pode gerar mais formalização, arrecadação e empregos. Por outro lado, a amplitude excessiva pode dificultar a construção de consenso.
Por isso, eu tendo a enxergar essa discussão de forma pragmática: mais importante do que aprovar rapidamente é aprovar de forma sólida, defensável e sustentável. Nesse contexto, os cassinos físicos integrados a resorts têm uma vantagem importante, porque são mais fáceis de defender sob a ótica de investimento produtivo, turismo, infraestrutura, imagem internacional e governança.
iGaming Brazil: Com base na sua experiência em um dos principais players globais do setor, há uma expectativa em relação à abertura do mercado de jogos físicos no Brasil? Qual seria o grande diferencial do país para se destacar mundialmente?
Alex Pariente: Sim, existe expectativa — e ela é bastante concreta. O Brasil sempre foi visto por grupos internacionais como um mercado com atributos extremamente raros quando analisado sob a ótica de gaming, hospitalidade e turismo.
O grande diferencial do país está na combinação entre escala, cultura de entretenimento, turismo doméstico robusto, atratividade internacional e cidades com potencial icônico.
Se houver um marco legal sério, estável e confiável, o país tem condições de desenvolver um modelo altamente competitivo, com DNA próprio, e não apenas uma cópia de outros mercados globais.
iGaming Brazil: Um dos principais argumentos a favor dos cassinos físicos é o potencial de impulsionar o turismo. Na sua avaliação, a eventual legalização no Brasil poderia representar um marco para o setor, ampliando significativamente o número de visitantes internacionais?
Alex Pariente: Sim, pode representar um marco importante — mas apenas se o país enxergar o tema de forma estratégica. Cassino, por si só, não transforma um destino. O que transforma um destino é o ecossistema completo ao redor dele.
Quando bem estruturado, um projeto de gaming pode funcionar como âncora para hotelaria, gastronomia, convenções, entretenimento ao vivo, varejo, wellness esportes e experiências culturais.
A legalização pode ser transformacional, mas precisa vir acompanhada de planejamento de destino, infraestrutura, conectividade, segurança jurídica e execução profissional.
iGaming Brazil: Considerando o modelo proposto de cassinos integrados a resorts no Brasil no projeto em tramitação, que outros tipos de entretenimento você acredita que poderiam complementar essa experiência de Brasil?

Alex Pariente: Os projetos mais bem-sucedidos do mundo não vendem apenas jogo. Eles vendem experiência, permanência e desejo de retorno.
Nesse sentido, o Brasil tem muito a oferecer: gastronomia de alto nível, entretenimento ao vivo, centros de convenções, wellness, lifestyle, retail curado, esportes e experiências ao ar livre.
Se o país souber estruturar isso com padrão internacional, pode criar ativos muito mais completos e desejáveis do que um modelo centrado exclusivamente no jogo.
iGaming Brazil: O setor de cassinos é frequentemente retratado com glamour no cinema. Na prática, como é o dia a dia em uma posição de liderança nesse segmento? Quais são os principais desafios que o público não enxerga e o que acontece nos bastidores desses empreendimentos?
Alex Pariente: Existe, sim, um componente de entretenimento, sofisticação e aspiração. Mas, na prática, liderar uma operação desse porte está muito mais próximo de administrar uma combinação entre empresa regulada, operação hoteleira, plataforma de entretenimento, centro de segurança e negócio de alta intensidade operacional.
Nos bastidores, o foco diário está em compliance, auditoria, controles internos, prevenção à lavagem de dinheiro, segurança física e digital, experiência do cliente, retenção de talentos, reputação e disciplina operacional.
Ou seja: glamour existe na percepção pública. Liderança nesse setor, porém, é sobretudo execução, governança e responsabilidade.
iGaming Brazil: Para fechar, nesse contexto, que recomendações você daria a profissionais que acompanham essa discussão e veem na possível chegada desses empreendimentos uma oportunidade de crescimento ou transição de carreira?
Alex Pariente: Minha principal recomendação seria: não enxerguem esse setor de forma superficial. Essa indústria abre espaço para carreiras amplas e sofisticadas, incluindo operações, hotelaria, marketing, CRM, revenue management, finanças, jurídico, compliance segurança, tecnologia, eventos e desenvolvimento imobiliário.
Para quem quer se posicionar bem, eu recomendaria três coisas: estudar o setor com profundidade, desenvolver visão internacional e entender que os melhores profissionais do mercado operam com disciplina, reputação, ética e visão de longo prazo.
Se o Brasil avançar nessa agenda, haverá espaço não apenas para novos negócios, mas para a formação de uma nova geração de profissionais altamente qualificados.
O post Exclusivo: “Projetos mais bem-sucedidos do mundo não vendem apenas jogo. Eles vendem experiência”, diz Alex Pariente apareceu primeiro em iGaming Brazil.
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