FFU vira refém do monstro que ela própria criou

“Serengeti não colocará regras para investimento nos clubes da Liga Forte Futebol”. No dia 23 de maio de 2023, publicávamos essa reportagem na Máquina do Esporte. No dia anterior, tive uma longa conversa com um dos investidores do fundo que, naquela época, se articulava para ser sócio de 20% da então Liga Forte Futebol (LFF), que depois virou Liga Forte União (LFU) e hoje é o Futebol Forte União (FFU).

Durante o papo, em que ele tentava passar a visão que tinha para o negócio, um dos questionamentos que fiz foi sobre qual seria o destino da verba dada a cada um dos clubes: “ele faz como quiser, desde que seja para melhorias”.


Questionei, então, se investir em contratação de atletas estaria liberado: “isso pode ser considerado melhorar o clube, não?”, indagou o interlocutor, com um certo ar de superioridade.

Bom, não era assim que funcionava, naquela época, o único modelo que havia sido implementado no mundo de entrada de um investidor em uma liga de futebol. Quando a LaLiga aceitou vender 9% de seu negócio de mídia para o fundo de investimentos CVC, foram colocadas várias condições para o dinheiro sair da liga e ir para o clube.

A primeira delas, inegociável, é de que o dinheiro só seria usado para quitar dívidas. Depois, se sobrasse verba, o clube precisava apresentar um plano de destino do investimento, desde que ele fosse para melhoria de infraestrutura. E, se ainda houvesse o que investir, seria para melhorias de estratégias audiovisuais daquela instituição. Em hipótese alguma o dinheiro iria para contratar jogadores.


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O exemplo do Barcelona

Por que a LaLiga e o CVC fizeram isso? Porque, em 2018, o Barcelona recebeu € 225 milhões da venda de Neymar, queimou na contratação de dois atletas (Phillipe Coutinho e Ousmane Dembélé), inflacionou globalmente o mercado de transferência de jogadores e, dois anos depois, estava com a maior dívida de sua história.

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Essa é a máxima que os espanhóis entenderam na prática e que, no Brasil, é a regra desde que Charles Miller desembarcou com as duas bolas embaixo do braço para matar as saudades do foot-ball.

Não há qualquer racionalidade em uso de dinheiro por parte dos clubes de futebol.

No mundo todo, com raríssimas exceções, a regra é gastar o que puder para ter os melhores talentos. E se a conta não fechar? O problema fica sendo do próximo ano, do próximo mandato. Ou, em muitos casos, das próximas décadas e dos próximos mandatos.

A aberração brasileira

Foi exatamente esse o contexto que gerou a aberração brasileira.

Um conjunto de clubes que precisava de crédito rápido e encontrou, em um investidor, a possibilidade de receber um montante nunca antes visto. E teria de dar, em troca, algo que nenhum dirigente é capaz de quantificar quanto realmente vale, sem precisar de dinheiro para pagar.

É o dinheiro dos sonhos para qualquer irresponsável.

Assim, da mesma forma que a grana veio rápida, ela se esvaiu de forma acelerada. Queimou-se, em menos de dois anos, o que poderia ser usado por décadas. Em setembro de 2025, alguns clubes que receberam mais de uma centena de milhões já acusavam o golpe da falta de fluxo de caixa.

Qual foi a melhoria para o futebol?

Contratações a preços históricos, salários estratosféricos e clubes que seguem quebrados. Como, aliás, dizíamos desde 2021, quando foi anunciada a liga “de forma imediata” pelos clubes, que continuaria a ser o cenário do futebol nacional enquanto eles tentassem encontrar um investidor antes mesmo de ter um produto para vender.

O feitiço contra o feiticeiro

A crise que acontece agora no FFU é causada exatamente pelo monstro que a própria liga alimentou. Quando foi buscar seu investidor, a então LFU criou uma série de mecanismos para dar segurança a quem investia. Fez isso entregando 20% do poder de voto ao investidor e colocando, como condição, que qualquer mudança no condomínio de clubes precisava de 90% de aprovação do grupo.

O feitiço, agora, virou contra o feiticeiro. Para aprovar a entrada de um novo clube em seu condomínio, o FFU precisa de 90% de aprovação. Na prática, o investidor não conseguirá fazer um novo negócio se não houver o “sim” de quatro clubes. Dos 30, apenas quatro podem furar a bola e atrapalhar o jogo.

Essa questão dos 90% de aprovação de um negócio foi um dos motivos para sócios do Sport irem à Justiça pedir a anulação do acordo do clube com a liga. Agora, essa questão mostra, para o FFU, que “o pior negócio da história dos clubes” também pode ser ruim para a própria liga e seu investidor.

Erich Beting é fundador e CEO da Máquina do Esporte, além de consultor, professor e palestrante sobre marketing esportivo

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Liga começa a flertar com risco de implosão por conta de regras que ela mesma fez para investidor ter mais poder
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