A entrada da marca Jordan na camisa da seleção brasileira gerou enorme debate. Claro, não pelo design em si, mais pela teórica quebra de tradição. É compreensível que parte da torcida reaja com estranhamento, porque a camisa da seleção pertence a um território afetivo, embora lide também com uma recente questão política da história do país. Justamente por isso, toda inovação não pode ser (como não foi) um mero experimento de marketing.
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Sob a ótica de reputação e construção de marca, a presença do Jumpman icônico da Jordan faz sentido estratégico, e o fato de termos neste ano uma Copa do Mundo nos Estados Unidos torna essa decisão ainda mais assertiva. A Nike, ao acionar a “submarca” Jordan justamente no ano em que o Mundial acontece no seu “quintal”, combina dois ícones globais: a seleção brasileira e o legado de Michael Jordan.
A Jordan carrega um storytelling poderoso, capaz de conectar a seleção a um universo de performance, estilo e cultura que conversa com gerações e mercados em que o futebol, sozinho, não chega tão forte. A seleção brasileira de futebol, além de não abandonar a condição de time nacional, se apresenta também como uma plataforma cultural mundo afora. Em um cenário de competição brutal por atenção e receitas, recusar esse tipo de oportunidade poderia significar, na prática, renunciar relevância.
Isso não significa, porém, que a tradição seja um detalhe descartável. Tradição é, também, um ativo econômico. As cores, o escudo, determinados elementos visuais e até certas ausências compõem uma identidade que sustenta engajamento, audiência e preferência. Quando o torcedor reage a uma mudança, não pode apenas ser lido como conservador, mas como uma sinalização do receio de que essa identidade seja diluída, perdendo a característica de ser única. Se a inovação ignora essa sensibilidade, o ganho de curto prazo em receita ou visibilidade não compensará as perdas futuras.
O ponto de equilíbrio está em compreender que tradição e inovação não são forças opostas, mas camadas que podem se reforçar mutuamente. A tradição pode ceder espaço especialmente quando a inovação consegue ampliar o alcance da marca sem descaracterizar seus pilares simbólicos. Do ponto de vista da Nike, usar a Jordan como “porta de entrada” para um público global em um Mundial sediado nos Estados Unidos é um movimento estratégico de construção das três marcas envolvidas. Tanto que, no lançamento da camisa, ocorrido na última quinta-feira (12), em São Paulo (SP), em que a Máquina do Esporte esteve presente, Sarah Mensah, presidente da Jordan Brand, pontuou que “a parceria com a seleção brasileira é uma celebração de grandeza”.
A gestão esportiva madura sabe diferenciar o que é tradição adaptável do que é tradição estrutural. Mexer em detalhes periféricos para ganhar fôlego comercial é saudável; mexer nos alicerces identitários sem escuta e sem lastro narrativo é temerário. Podem gostar ou não da camisa (eu gostei), mas esses alicerces não foram danificados.
O caso da Jordan na camisa da seleção acaba por nos trazer perguntas incômodas, mas necessárias: quem decide o que é negociável na identidade de um time nacional? Como integrar marketing, história, comunicação e relacionamento com torcedores? A associação com a Jordan tem o potencial de fortalecer a marca da seleção brasileira, aproximando-a de novos públicos, sem romper com o que a tornou icônica, especialmente ao explorar, com inteligência, o palco simbólico de uma Copa nos Estados Unidos.
A verdadeira ameaça à tradição nunca será a inovação, mas a incapacidade de dialogar com inteligência, transparência e respeito ao significado que uma camisa tem para quem a veste ou a idolatra no imaginário antes mesmo de usá-la no corpo. Não é sobre a camisa, mas sobre o (senso de) pertencimento. E é esse trabalho que não pode parar.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Vinicius Lordello é especialista em Gestão de Marcas, Reputação e Crises no Esporte. Professor do curso de Administração na ESPM e também na CBF Academy, foi executivo de comunicação e conteúdo do Santos (2018), do Cruzeiro (2021/2022, na primeira transição para SAF do Brasil) e do Coritiba SAF (2024/2025). Tem dupla graduação (Ciências Sociais e Direito); pós-graduações em Jornalismo Esportivo, Gestão Financeira Estratégica e ESG; MBA em Gestão e Marketing Esportivo; e Mestrado em Gestão de Reputação no Esporte
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Verdadeira ameaça à tradição nunca será a inovação, mas a incapacidade de dialogar com inteligência, transparência e respeito ao significado que uma camisa tem para quem a veste ou a idolatra no imaginário antes mesmo de usá-la no corpo
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