Em artigo publicado no portal Poder 360 nesta quarta-feira (27), o professor de direito desportivo da Universidade de São Paulo (USP), sócio da CSMV Advogados e responsável pela regulação das apostas online no Brasil, José Manssur, traz uma reflexão importante sobre um comportamento contraditório no Brasil.
Com a chegada do maior torneio de seleções do mundo, o aumento do uso de bets na Copa 2026 virou alvo de ataques e muita preocupação.
No entanto, o especialista questiona o motivo de a sociedade achar normal a grande quantidade de propagandas de cerveja.
Ele alerta que esses anúncios chegam aos celulares de crianças e adolescentes a qualquer hora do dia, sempre usando a emoção do esporte e a paixão pela seleção para vender bebida.
Por que o comércio está atacando o sucesso das bets na Copa
Manssur explica que grande parte dessa campanha contra o mercado de apostas não acontece apenas por uma preocupação verdadeira com a saúde da população.
Na realidade, segundo ele, a reclamação parte de representantes do comércio, que estão com medo de perder vendas.
O texto destaca um dado importante que ilustra o tamanho dessa disputa:
“A Confederação Nacional do Comércio (CNC), por exemplo, estimou que o setor teria deixado de faturar R$ 103 bilhões em 2024 pelo redirecionamento de recursos das famílias para apostas
O dado econômico merece análise, mas revela também o ângulo do incômodo: o bolso do consumidor é um só.
E, se o dinheiro usado em uma aposta deixa de ir para o supermercado, para o bar, para o atacarejo ou para a loja de conveniência, é bastante provável que parte dessa disputa envolva também produtos como a cerveja, uma das categorias mais relevantes do consumo brasileiro”.
O professor detalha essa forte briga pelo orçamento das famílias e afirma que as grandes marcas tentam se esconder atrás de outros setores para atacar as operadoras de jogos.
“Bets e cerveja estão disputando o mesmo mercado, e a cerveja não iria assumir essa cruzada em nome próprio. Fica mais palatável chamar de ‘varejo’”, destaca o advogado.
O forte impacto do álcool e o pedido por um debate mais justo
O Brasil acabou de aprovar leis para regulamentar as apostas online, e os efeitos financeiros desse mercado ainda estão sendo medidos.
Por outro lado, segundo Manssur, os estragos causados pelo excesso de álcool já são velhos conhecidos, gerando mortes e altos custos ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O texto alerta, sobretudo, para o perigo da normalização da bebida, especialmente entre os mais jovens:
“A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019 mostrou que 63,3% dos escolares já haviam ingerido uma dose de bebida alcoólica; 34,6% experimentaram antes dos 14 anos; e 28,1% consumiram álcool nos 30 dias anteriores à pesquisa”.
De acordo com ele, a intenção do texto não é dizer que as apostas não possuem riscos, mas pedir que o país encare os dois assuntos com seriedade e coerência nas críticas.
“Se o critério é saúde pública, não se pode tratar a publicidade de apostas como ameaça existencial e a publicidade de álcool como paisagem cultural da Copa”, conclui o autor.
O post José Manssur questiona a tolerância com o álcool em meio aos ataques às bets na Copa do Mundo apareceu primeiro em iGaming Brazil.