A Loteria do Estado do Rio de Janeiro (LOTERJ) identificou, em fevereiro de 2025, uma inadimplência de ao menos R$ 33,7 milhões atribuída à RioPag S/A, empresa responsável pelo pagamento de prêmios da autarquia desde 2023, segundo documentos obtidos pela Agência Pública.
De acordo com a reportagem, o valor foi formalmente comunicado pela LOTERJ à companhia, mas não aparece no relatório anual de fiscalização do serviço, concluído em 9 de janeiro de 2026. A matéria da Agência Pública foi publicada ontem, 23, no mesmo dia em que Cláudio Castro (PL) renunciou ao cargo de governador do Rio de Janeiro diante de acusações de abuso de poder político e econômico no escândalo do Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro (CEPERJ).
Segundo a reportagem, o ofício enviado pela LOTERJ em 7 de fevereiro de 2025 afirma que a autarquia deixou de receber R$ 32.864.950,00 na exploração de jogos de prognóstico numérico e outros R$ 900 mil na exploração de jogos instantâneos. Com isso, o prejuízo nas operações lotéricas das modalidades físicas, como Rio de Prêmios e Raspa Rio, somaria R$ 33,7 milhões. No documento, a LOTERJ atribuiu o problema à “falta de controle sobre as receitas provenientes da concessão”.
A RioPag informou três dias depois, em 10 de fevereiro, que adotou medidas para custodiar recursos devidos à LOTERJ. No entanto, a resposta da empresa, conforme os documentos obtidos pela Agência Pública, não confirma nem o valor de R$ 33,7 milhões nem a inadimplência apontada pela autarquia. O único montante citado no ofício da companhia seria o repasse mensal da operação referente a janeiro de 2025, de R$ 7,3 milhões.
Conforme a apuração, o caso reaparece quase um ano depois no relatório de fiscalização de 2025 com outra classificação. No documento, assinado em 9 de janeiro de 2026, o episódio é tratado como “risco de inadimplência” e não como prejuízo efetivo. O relatório registra que, por solicitação da LOTERJ, a RioPag reservou R$ 19,5 milhões por meio de “retenção e custódia” para arcar com pagamentos devidos, e que a demanda da autarquia teria sido considerada “plenamente atendida”.
A reportagem destaca, porém, que a cifra de R$ 19,5 milhões não coincidiria com o rombo de R$ 33,7 milhões comunicado anteriormente. Na versão detalhada do relatório, os R$ 19,5 milhões estariam vinculados apenas aos repasses mensais previstos em contrato, equivalentes a 26,455% do lucro bruto da operação.
A Agência Pública consultou Edgar Guimarães, advogado e consultor jurídico aposentado do Tribunal de Contas do Estado do Paraná, que afirmou que, diante do prejuízo de R$ 37,3 milhões apontado nos próprios autos, caberia à LOTERJ instaurar processo administrativo punitivo, aplicar multa e buscar reparação ao erário.
Pixbet supostamente foi favorecida
Outro ponto destacado na apuração envolve a Pixbet, casa de apostas que operava via LOTERJ à época e também patrocinava o Flamengo. Segundo documentos obtidos pela Agência Pública, a LOTERJ usou como exemplo de falha de controle um episódio em que a operadora teria solicitado a retirada integral do saldo mantido sob custódia da RioPag antes de cumprir obrigações com a loteria estadual.
Em uma reunião realizada em 23 de setembro de 2024, o então presidente da LOTERJ, Hazenclever Lopes Cançado, teria dito que a Pixbet representava 83,7% do faturamento mensal e que sua saída ou migração poderia inviabilizar a operação.
Para a Agência Pública, há indícios de favorecimento à Pixbet em meio à readequação do contrato entre LOTERJ e RioPag, formalizada em outubro de 2024. A justificativa oficial para o aditivo, segundo a reportagem, foi a “baixa adesão de bets” ao sistema da loteria estadual. Nos materiais analisados pelo veículo, a LOTERJ teria comparado as taxas cobradas no modelo fluminense com aquelas praticadas na esfera federal, mas sem detalhar, de acordo com a apuração, a origem do valor de R$ 32 milhões associado ao aditivo contratual.
Outro lado
Procurados pelo SBC Notícias Brasil, a nova presidente da LOTERJ, Fabíola Esteves, o ex-presidente Hazenclever Lopes Cançado e a RioPag S/A não responderam até a publicação deste texto. O espaço permanece aberto para manifestação.
Atualização, 25 de março de 2026: Após a publicação desta matéria, a LOTERJ se manifestou via nota oficial.
“Segundo a Autarquia, o débito é de responsabilidade da MCE Intermediações e Negócios Ltda.”, diz a nota.
“O caso é anterior ao contrato da empresa de meio de pagamento e refere-se ao abandono do contrato de operação da loteria de Múltiplas Chances (Rio de Prêmios) pela MCE Intermediações e Negócios Ltda/Santa Casa Global Brasil Participações Ltda. A LOTERJ tomou todas as providências administrativas e judiciais para ser ressarcida do prejuízo”.
A nota completa pode ser lida na íntegra no BNLData.
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A Loteria do Estado do Rio de Janeiro (LOTERJ) identificou, em fevereiro de 2025, uma inadimplência de ao menos R$ 33,7 milhões atribuída à RioPag S/A, empresa responsável pelo pagamento
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