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Na “democracia” de Trump, Fifa segue roteiro das Copas promovidas por regimes totalitários e beneficia time da casa

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Ao longo de sua controversa história, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) já contou com diversos presidentes que, por interesses políticos ou financeiros, curvaram-se a governos autoritários.

Que o diga o brasileiro João Havelange, presidente da extinta Confederação Brasileira de Desportos (CBD, antecessora da CBF), que se aproveitou das excelentes relações com os generais da Ditadura Militar para emplacar a loteria esportiva e ainda usar o cargo como trampolim em sua campanha para assumir o poder na entidade máxima do futebol mundial, na esteira da campanha gloriosa do Brasil na Copa do Mundo de 1970,

Foi o brasileiro quem lançou as bases de tudo que conhecemos nesse esporte nos dias atuais, sobretudo sua estrutura autoritária e centralizada, que barra qualquer iniciativa de clubes ou ligas em busca de maior independência e que utiliza os grandes eventos para reafirmar o poderio da Fifa.

Havelange deixou o cargo em 1998. De todas figuras que o sucederam ou antecederam no cargo, nenhum se mostrou tão lacaio de um governante de plantão quanto Gianni Infantino se comporta em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Depois de laurear Trump com o recém-criado Prêmio Fifa da Paz (três meses antes de a terra do Tio Sam bombardear o Irã), Infantino atendeu a uma ordem do homem de cabelo laranja e aceitou anular a suspensão de Balogun, principal jogador dos Estados Unidos e que havia levado cartão vermelho após uma falta violenta cometida na partida diante da Bósnia e Herzegovina, válida pela primeira fase do mata-mata da Copa de 2026.

LEIA MAIS: Ataque de Trump à Venezuela põe à prova discurso de Fifa e COI sobre paz e fraternidade entre os povos

Com isso, o atleta estará livre para disputar as oitavas de final diante da Bélgica, nesta segunda-feira (6), a partir das 21h (horário de Brasília).

Pressão de Trump

Em post feito no Instagram, o jornalista especialista em relações internacionais Jamil Chade revelou que Trump ligou pessoalmente para Infantino, ordenando que a suspensão do jogador fosse anulada. No vídeo, o caso foi tratado como “um dos maiores escândalos da história das Copas”.

Em nota oficial divulgada neste domingo (5), a Royal Belgian Football Association (RBFA) declarou estar atônita com a decisão da Fifa, que livrou Balogun da suspensão nas oitavas de final. A entidade disse que está investigando todas as opções potenciais para salvaguardar seus direitos.

Embora entidade deixe brecha para interpretações de que poderia boicotar o jogo contra os Estados Unidos, a hipótese é pouco provável de se concretizar, tendo em vista que, no universo centralizado e autoritário que é o futebol, tal gesto de rebeldia seria severamente punido pela Fifa.

Antecedentes

A Copa de 2026 não é a primeira vez que um grande evento esportivo internacional é utilizado para satisfazer o ego de um autocrata.

A expressão máxima nesse sentido pode ser encontrada nos Jogos Olímpicos de Berlim 1936, realizados sob o regime nazista de Adolf Hitler (detalhe: numa época em que campos de extermínio já estavam em pleno funcionamento na Europa) e que definiram a forma como eventos desse tipo são organizados e mostrados ao público (o filme oficial “Olympia”, da cineasta Leni Riefenstahl, continua a ser, ainda que inconscientemente, a base da cobertura feita pela mídia nos dias atuais).

Dois anos antes, na Copa de 1934, o ditador fascista Benito Mussolini (aliado de Hitler) transformou o torneio em objeto de propaganda política, usando e abusando da manipulação nos bastidores para beneficiar a seleção de seu país, que sediava o Mundial.

Antes de a competição começar, ele apelou a naturalizações forçadas de jogadores de origem italiana, caso do brasileiro Filó.

Nas quartas de final entre Itália e Espanha (disputada em dois jogos), a atuação dos árbitros René Mercet, da Suíça, e Louis Baertfoi, da Bélgica, foi tão escandalosa que ambos banidos e expulsos das federações de seus próprios países, por conta do favorecimento explícito aos anfitriões.

Mussolini, que terminaria sua lamentável existência de cabeça para baixo, amarrado pelos pés a uma corda, ainda fez questão de se reunir com o árbitro sueco Ivan Eklind, que apitou a semifinal e a final da Copa de 1934. Os jogos foram marcados por decisões escandalosas favoráveis à Itália.

Um caso mais recente de influência de ditaduras na Copa do Mundo foi observado em 1978, na Argentina, que vivia sob o regime do general Jorge Videla, acusado de haver assassinado mais de 30 mil opositores, nos cinco anos em que esteve no poder.

Morto em 2013, de causas naturais, ele foi condenado em 2010 à perda da patente militar e à prisão perpétua, por crimes contra a humanidade cometidos durante seu governo.

Em 1978, porém, Mário Kempes e companhia serviram como instrumento de propaganda da ditadura.

A grande pedra no sapato era o Brasil, que vivia sob outra ditadura, mas em processo de abertura. O time verde e amarelo era favorito a avançar à final.

A Argentina, por seu turno, precisava vencer o Peru por pelo menos quatros gols de diferença, na última partida da segunda fase do torneio, para avançar à final.

Pouco antes do apito inicial de Argentina x Peru, o ditador Jorge Videla e o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger (os Estados Unidos organizaram o golpe militar no país sul-americano) entraram no vestiário da seleção peruana para uma “visita” cordial.

De acordo com relatos feitos mais tarde pelos jogadores peruanos, a visita foi interpretada como intimidadora. O Peru acabou sendo derrotado pela Argentina por 6 a 0, e o país-sede conquistou a taça ao derrotar a Holanda na decisão.

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Entidade máxima do futebol mundial reverteu expulsão do principal jogador dos Estados Unidos, atendendo a uma ordem do mandatário do país-sede
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