Desde que o futebol se profissionalizou no mundo, na primeira metade do século passado, nunca uma nação exerceu tanta influência econômica sobre esse esporte quanto a Arábia Saudita, nos dias atuais.
A gestão de Gianni Infantino à frente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), iniciada em 2016, tem como grande marca o aprofundamento das relações com a monarquia absolutista do Oeste Asiático, que detém o posto de maior exportadora de petróleo do planeta, com uma média de 7,4 milhões de barris comercializados ao dia.
Nesta quinta-feira (14), a entidade máxima do futebol anunciou o Fundo Público de Investimento (PIF, na sigla em inglês) como apoiador oficial da Copa do Mundo de 2026, que será realizada entre os dias 11 de junho e 19 de julho, no Canadá, México e Estados Unidos.
Em comunicado divulgado à imprensa, o PIF informou que a parceria busca “promover a transferência de conhecimento da Fifa e o desenvolvimento de capacidades para a juventude saudita, a fim de elevar e moldar ativamente o futuro de longo prazo do esporte”.
O acordo também prevê investimentos do fundo em programas de base, além de iniciativas e projetos relacionados a juventude, futebol feminino e educação, desenvolvidos junto às 211 associações filiadas à Fifa.
“A PIF continua acelerando o crescimento do futebol globalmente ao expandir o acesso ao esporte e criar oportunidades que beneficiam jogadores, torcedores e o ecossistema mais amplo do futebol”, afirmou Mohamed AlSayyad, chefe de marca corporativa do fundo saudita.
Petrodólares impulsionam Fifa
Sob o comando de Infantino, a Fifa tem expandido suas receitas, suas ações e sua influência global, com novas competições, acordos bilionários de mídia e patrocínio e a ampliação de torneios já existentes, caso da Copa do Mundo, que na edição deste ano contará com 48 seleções, o maior número de toda a história.
O sucesso comercial da gestão do dirigente está diretamente relacionado aos investimentos maciços que a monarquia saudita tem feito na entidade que comanda o esporte mais popular do planeta.
Hoje em dia, é difícil imaginar o que seria da Fifa sem os petrodólares da monarquia do Oriente Médio.
Um exemplo mais famoso dessa relação consiste na operação triangular que garantiu o pagamento de premiações que totalizaram US$ 1 bilhão aos clubes participantes da primeira Copa do Mundo de Clubes, realizada no ano passado, nos Estados Unidos, e que foi vencida pelo Chelsea.
A Fifa conseguiu levantar esses recursos graças à venda dos direitos globais de mídia do torneio para o DAZN, por US$ 1 bilhão.
A plataforma de streaming, por sua vez, teve condições de realizar esse investimento porque vendeu 10% de seu capital para o PIF, pelo mesmo valor que pagaria à Fifa pelos direitos da Copa do Mundo de Clubes.
A premiação turbinada pelos petrodólares acabou servindo de chamariz para os clubes e garantiu o sucesso do torneio, que ocorrerá a cada quatro anos.
No caso da Copa do Mundo de 2026, o governo saudita já se fazia presente na relação de patrocinadores, por meio da estatal petrolífera Aramco, que detém o status de parceira da Fifa.
Expansão de investimentos
O aumento da influência saudita sobre a Fifa é resultado de dois movimentos geopolíticos ocorridos na década passada e acabaram por ditar os rumos do futebol mundial.
Um deles foi o escândalo do Fifagate, de 2015, em que dirigentes da entidade e de associações a ela subordinadas, incluindo a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), foram presos pelo Federal Bureau of Investigation (FBI), acusados de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro.
A partir daquele momento, os Estados Unidos passaram a exercer forte influência sobre a política da Fifa e, por consequência, do futebol mundial.
Empresas norte-americanas adquiriram o controle de grandes clubes europeus e o país tornou-se sede recorrente de torneios organizados pela Fifa.
A influência construída pelos norte-americanos sobre a entidade, porém, não utilizou necessariamente recursos do próprio país, mas em muitos casos os petrodólares dos sauditas, seus maiores aliados no mundo árabe.
Justamente na época em que os Estados Unidos começavam a dar as cartas na Fifa , o governo da Arábia Saudita colocava em prática, a partir de 2016, o programa Saudi Vision 2030, que tem o objetivo de diversificar a economia da nação, com investimentos nas mais diversas áreas.
O turismo relacionado a eventos (esportivos, principalmente) representa um dos principais focos desse projeto.
Por essa razão, a Arábia Saudita tem buscado não apenas firmar parcerias com organizações já estabelecidas (como Fifa, ATP e Fórmula 1), mas também sediar megaeventos nas mais diversas modalidades.
O principal deles será a Copa do Mundo de 2034, que deve representar o ápice da parceria de longo prazo firmada pelo país com a Fifa.
No curto prazo, o apoio do PIF à Copa do Mundo de 2026 servirá ainda para promover a cidade turística de Qiddiya, projetada para ser a capital turística e de entretenimento da nação, e também o Savvy Games Group, empresa criada em 2021, com o objetivo de expandir o setor de jogos eletrônicos no país.
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Parceria com o torneio, que já é patrocinado pela Aramco, envolve fundo de investimento e também Savvy Games e a cidade de Qiddiya
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