O “Jogo 39”: Como o Brasil pode “salvar” o futebol europeu

Em 2008, Richard Scudamore, então arquiteto financeiro da Premier League, lançou uma ideia que foi recebida com pedras pelos puristas do futebol inglês: o “Jogo 39”. A proposta era adicionar uma rodada extra ao calendário britânico, a ser disputada inteiramente em cidades globais estrategicamente selecionadas.

À época, a fúria dos torcedores locais, que viam na ideia uma traição à essência do esporte e um distanciamento das comunidades locais, enterrou o projeto. No entanto, o tempo provou que Scudamore não estava errado; ele estava apenas à frente do seu tempo. Hoje, 17 anos depois, o que era um tabu transformou-se em uma estratégia vital de sobrevivência comercial. Com os mercados europeus atingindo o seu teto de saturação, o Brasil deixou de ser apenas um exportador de talentos para se tornar o território mais cobiçado para a expansão física do futebol global, e isso é um motivo para o nosso mercado celebrar.


Para entender por que as ligas europeias decidiram “atravessar o oceano” agora, é preciso olhar para o esgotamento do modelo doméstico na Europa. A Premier League, referência absoluta em monetização, fechou seu ciclo de direitos de transmissão doméstica para o período de 2025 a 2029 com um crescimento real de apenas 4% em relação ao ciclo anterior. Para uma liga que se acostumou com saltos exponenciais, este número é um sinal de alerta: o mercado britânico está saturado, e o custo das assinaturas para o torcedor local chegou ao limite da elasticidade.

A solução para manter a competitividade financeira frente aos fundos de investimento que atualmente controlam os grandes clubes é a territorialização do produto. Não basta mais vender o jogo pela televisão; é preciso ocupar fisicamente novos mercados para gerar receitas diretas de bilheteria, hospitalidade e licenciamento que o mercado europeu já não consegue mais absorver.

Neste cenário de expansão agressiva, o grande divisor de águas não foi um jogo isolado, mas uma mudança estrutural nas regras do jogo. Em maio de 2024, após anos de batalhas judiciais movidas pela promotora Relevent Sports contra a Fifa nos tribunais dos Estados Unidos, a entidade máxima do futebol mundial anunciou formalmente a criação de um grupo de trabalho para revisar suas políticas sobre partidas de ligas nacionais no exterior.


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Essa movimentação foi o sinal verde que as ligas precisavam para derrubar o veto histórico que impedia partidas de temporada regular fora de seus países de origem. Com a barreira legal ruindo, o caminho para o Brasil foi pavimentado por dados de consumo inquestionáveis. Marc Tarradas, diretor da LaLiga para a América Latina, tem sido uma das vozes mais ativas ao destacar que o Brasil é um dos mercados prioritários para o engajamento digital e comercial da marca espanhola fora da Europa. E os dados sustentam essa tese: o Brasil possui o maior volume de engajamento para a liga fora do Velho Continente, e a estratégia agora é converter essa paixão digital em presença física nas arquibancadas nacionais.

O interesse europeu no Brasil, contudo, vai muito além da nossa audiência digital massiva; ele é uma exaltação direta da excelência da nossa infraestrutura. Na última década, o Brasil passou por uma transformação radical em seu parque de entretenimento esportivo. A consolidação de arenas multiuso de padrão internacional, como Allianz Parque, Neo Química Arena e Arena MRV, ofereceu ao mercado global o que ele mais valoriza: a capacidade de entregar experiências de hospitalidade e tecnologia que muitas vezes superam os estádios centenários e obsoletos da Europa.

Quando executivos da Premier League olham para o Brasil, eles enxergam palcos prontos para operações de alta complexidade, capazes de acomodar patrocinadores globais e oferecer um nível de conforto que justifica tíquetes médios elevados. O Brasil deixou de ser um espectador distante para ser o palco principal que as ligas europeias precisam para brilhar.

É fundamental que o torcedor brasileiro compreenda que este movimento não é uma ameaça ao futebol nacional, mas sim o selo definitivo de que o nosso país atingiu a maturidade máxima no setor de entretenimento. O sucesso estrondoso das incursões da NFL em São Paulo e as recorrentes experiências da NBA provaram que o fã brasileiro é um consumidor ávido por eventos de padrão mundial. Ter um jogo da elite europeia valendo pontos no nosso quintal é a democratização máxima do acesso ao que há de melhor no esporte. É a chance de vivenciar a organização, o nível técnico e o espetáculo de um dia de jogo (matchday) autêntico, sem a necessidade de uma viagem transatlântica.

Para a nossa indústria, é um triunfo: se os maiores clubes do mundo querem jogar aqui, é porque o nosso mercado de marketing esportivo, nossas agências e nossas arenas estão operando no nível mais alto da pirâmide global. Em vez de temermos a competição por atenção, devemos celebrar essa integração como um catalisador de melhorias. A presença física dessas ligas nas nossas arenas eleva o sarrafo para os clubes locais, atrai novas marcas internacionais para o ecossistema brasileiro e consolida o país como o centro nevrálgico do entretenimento esportivo na América Latina.

O “Jogo 39” de Scudamore finalmente encontrou sua casa ideal, e ela fica no país que respira futebol 24 horas por dia. Estamos presenciando o momento em que a tradição da nossa cultura de arquibancada se une à modernidade da nossa gestão de arenas e à agressividade comercial europeia para criar um novo capítulo na história do esporte.

O Brasil não é apenas o berço dos craques que encantam o mundo; podemos ser agora o destino final para onde os olhos de todo o planeta se voltam quando o assunto é o espetáculo da bola. O protagonismo global agora fala português, e o fã brasileiro é o grande convidado de honra dessa festa.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Samanta Vicentini é especialista em Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) e estratégias de relacionamento e fidelização de fãs. Com passagens nos programas de sócio-torcedor de Flamengo, Palmeiras e Vasco, acumula experiência no uso de dados para fortalecer o vínculo entre clubes e torcedores, gerando recordes de retenção e faturamento

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