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Quando a desinformação vira política: a verdade sobre o mercado de apostas no Brasil

Por Alê Lisboa – Games Latam MagazineNos últimos dias, o vídeo do “Primo Pobre” sobre apostas se tornou mais um exemplo preocupante de como
narrativas simplistas e mal embasadas ganham força quando o debate envolve o setor de betting e iGaming no Brasil.
O conteúdo, recheado de equívocos conceituais e ausência total de dados oficiais, reforça uma visão distorcida sobre um setor que,
pela primeira vez na história, está passando por uma regulação séria em âmbito federal.

Mas a culpa não é apenas de influenciadores mal informados. A culpa também é — e principalmente — de um Governo que:

  • não combate a pirataria;
  • não fiscaliza o mercado ilegal;
  • não educa o consumidor;
  • usa o iGaming como palanque político;
  • impõe travas pesadas a quem está regulado, enquanto facilita a vida dos clandestinos.

O resultado é um ambiente em que a desinformação floresce e em que o consumidor — assustado, mal instruído e sem alternativas claras —
acaba sendo empurrado exatamente para o mercado que o próprio Governo afirma querer combater.

Bem-vindo ao cenário real do iGaming no Brasil. E, spoiler: os vilões não são as operadoras licenciadas.


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1. O vídeo do Primo Pobre: perigoso não pelo humor, mas pela ignorância

O vídeo tenta pintar o setor regulado como uma ameaça social, ignorando por completo:

  • os mecanismos de segurança do ecossistema regulado;
  • as obrigações de KYC, AML e monitoramento de apostas;
  • os sistemas de autoexclusão;
  • as travas de prevenção ao jogo problemático;
  • a rastreabilidade fiscal e bancária;
  • o papel das operadoras licenciadas na arrecadação federal.

No lugar disso, o conteúdo:

  • iguala operações legais a pirataria;
  • trata regulação como caos;
  • ignora dados e evidências;
  • infantiliza o debate;
  • e ainda naturaliza a ideia de que “tanto faz apostar em qualquer site”.

É o tipo de material que não ajuda o consumidor, não educa o mercado e não combate o crime — ao contrário:
legitima a percepção de que não existe diferença real entre um operador legalizado e um site clandestino.

Em um ambiente já contaminado por desinformação, isso é gravíssimo.


2. Os dados oficiais: o mercado regulamentado já é grande, relevante e muito mais seguro

Enquanto influenciadores repetem frases vazias, estudos sérios mostram outra realidade.

Acaba de ser lançado o Brazil Betting Brands Report, produzido pela
Blask em parceria com a
brmkt.co, destrinchando a performance das
20 marcas mais influentes do primeiro ano de regulação.

Não é um ranking raso, mas uma leitura estratégica de como as operadoras estão, de fato, construindo vantagem competitiva no ambiente regulado.
O relatório mostra, entre outros pontos:

  • como algumas marcas digital native convertem e retêm melhor do que gigantes tradicionais;
  • quais operadores já se distanciaram em GGR;
  • por que certas marcas convertem até 3x mais mesmo com KYC rígido;
  • os mecanismos que estão definindo o “novo jogo” sob regulação;
  • o que deve guiar o mercado em 2026.

O estudo ainda traz:

  • visão consolidada do ecossistema regulado e sua linha do tempo;
  • perfis das 20 maiores marcas;
  • 5 marcas para ficar de olho;
  • e um playbook claro para o que vem pela frente.

Em outras palavras: trata-se de um material estratégico que desmonta, com dados, praticamente
toda a narrativa alarmista que tenta pintar o setor regulamentado como se fosse um faroeste digital.

E deixa evidente: o maior risco para o jogador brasileiro não está nos sites licenciados — mas nos clandestinos.


3. O Governo Federal: cobra de quem cumpre a lei e ignora quem viola

É aqui que o debate ganha contornos surreais.

Enquanto empresas licenciadas pagam impostos, investem em tecnologia, passam por auditorias, implantam sistemas de autoexclusão
e seguem normas rígidas de compliance, o que o mercado vê é:

  • operadores ilegais atuando livremente;
  • sites licenciados por entidades municipais ou estaduais de fachada, sem controle real;
  • pouca ou nenhuma fiscalização efetiva;
  • ausência de campanhas massivas de esclarecimento ao consumidor.

Em manifestações recentes no setor, a sensação é de repúdio e de
traição por parte de um governo que, por anos, foi pressionado a trazer luz e segurança jurídica para a atividade — e que,
agora, trata a indústria regulada como bode expiatório em disputas políticas.

Mais grave ainda: declarações irônicas de autoridades sobre autoexclusão, dando a entender que o mecanismo só “funciona”
nos sites devidamente regularizados em âmbito federal, acabam soando como uma espécie de propaganda involuntária do mercado ilegal.

Porque, na prática, o recado que chega para o jogador é:

“Se você quer jogar sem limites, vá para o site que não está regulado.”

Ou seja: o próprio discurso oficial termina incentivando, ainda que indiretamente, a migração para o mercado pirata.


4. O paradoxo: o Governo diz proteger o jogador, mas o empurra para o mercado black

Quando o Governo dificulta depósitos, restringe pagamentos e cria entraves apenas para os sites legalizados, ele produz:

  • um ambiente de concorrência desleal;
  • um incentivo perverso ao uso de sites clandestinos;
  • uma assimetria competitiva brutal;
  • e uma falsa sensação de segurança nos ambientes menos seguros possíveis.

Como bem destacou parte da indústria em debates públicos:

“Essa atitude do Governo está empurrando o consumidor a apostar em operadores clandestinos e, consequentemente,
incentivando o consumidor a praticar uma contravenção penal.”

O mercado regulado é o único que tem mecanismos reais de proteção, rastreabilidade e responsabilização.
O mercado ilegal não tem.

E é justamente esse mercado ilegal que, com decisões contraditórias e retórica moralista,
acaba sendo fortalecido pelo próprio Estado.


5. Moralismo, desinformação e uso político da indústria

A indústria de jogos sempre foi usada politicamente no Brasil.
Agora, com a perspectiva de bilhões em arrecadação e um mercado altamente competitivo, o discurso moralista serve para:

  • fazer palanque para determinados grupos;
  • agradar setores mais conservadores;
  • criar cortina de fumaça em meio a crises;
  • posicionar o Governo como “salvador” diante de um suposto caos.

Enquanto isso, o que se vê na prática é:

  • ausência de plano nacional de educação do consumidor;
  • nenhuma campanha massiva contra pirataria em betting;
  • falta de fiscalização robusta de meios de pagamento usados por operadores clandestinos;
  • nenhuma estratégia concreta de cooperação com reguladores internacionais;
  • silêncio institucional sobre a proliferação de sites “fantasmas” mirando o público brasileiro.

Mas sobram tweets, frases de efeito, ironias e simplificações grosseiras.
Na prática, é a institucionalização da desinformação.


6. Desinformação é o maior aliado da pirataria — e o Estado está entregando isso de bandeja

O vídeo do Primo Pobre, ao misturar piada com desinformação, não apenas atrapalha:

  • ele prejudica o consumidor;
  • fortalece os operadores clandestinos;
  • descredibiliza a indústria séria;
  • e reforça a narrativa confusa do próprio Governo.

A responsabilidade maior, no entanto, é do Estado.
Quando a autoridade pública:

  • faz declarações debochadas;
  • minimiza mecanismos sérios de proteção ao jogador;
  • ataca publicamente empresas licenciadas;
  • e se cala sobre a verdadeira ameaça (o mercado ilegal),

ela cria exatamente o ambiente perfeito para que conteúdos superficiais e desinformados viralizem.
Quando a autoridade faz piada, a sociedade também passa a fazer.


7. A indústria precisa se unir — agora

O momento exige mais do que notas de repúdio isoladas.
O setor regulado no Brasil precisa se organizar em torno de cinco pilares básicos:

1. Defesa pública da regulação federal

Com dados, relatórios, benchmarks e comparações com mercados maduros. Não basta dizer que o modelo brasileiro é sério;
é preciso mostrar como ele se compara ao Reino Unido, Malta, Espanha, Colômbia e outros mercados com longa experiência.

2. Combate coordenado à pirataria

Isso significa unir operadores, meios de pagamento, mídia especializada e entidades setoriais em um esforço conjunto
para mapear, denunciar e expor sites ilegais, bem como pressionar por respostas concretas das autoridades.

3. Esclarecimento técnico para mídia e influenciadores

Não adianta reclamar dos vídeos mal informados se a indústria não se dispõe a educar.
É hora de criar briefings, guias, lives, entrevistas e conteúdos dedicados a explicar,
em linguagem simples, o que é um operador regulado e por que isso importa.

4. Transparência total com consumidores

O jogador precisa saber, com clareza:

  • como identificar um site legalizado;
  • quais são os benefícios concretos (segurança, meios de pagamento rastreáveis, canais de reclamação, etc.);
  • por que apostar em site ilegal o expõe a riscos financeiros, jurídicos e pessoais.

5. Engajamento coletivo com o Estado

A indústria não pode se posicionar como súdita, mas como parceira técnica de um setor bilionário,
intensivo em tecnologia, publicidade e meios de pagamento. Isso significa dialogar, confrontar dados errados,
propor ajustes regulatórios e exigir coerência nas políticas públicas.


8. O futuro da indústria não depende só do Governo — depende da própria indústria

Regulação não é um favor. É um contrato social entre empresas, Estado e consumidores.

Esse contrato, hoje, está sendo tensionado pelo próprio Estado, que:

  • se comunica mal;
  • fiscaliza pouco;
  • ataca quem cumpre a lei;
  • e ignora quem infringe.

O setor legalizado precisa assumir o protagonismo, porque a verdade é direta:

  • se a indústria regulada não se defender, ninguém vai;
  • se o mercado não se unir, os piratas vencem;
  • e, se nada mudar, o maior inimigo do iGaming brasileiro não será o operador ilegal, mas a omissão estatal.

A boa notícia é que relatórios como o Brazil Betting Brands Report mostram que o mercado regulado no Brasil
é forte, competitivo, tecnológico e preparado.

Ele vai sobreviver ao moralismo, ao improviso e à desinformação. A questão é:

quantos jogadores o Brasil ainda vai perder para o mercado ilegal até que isso fique claro para todos?


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