Sou uma entusiasta assumida do esporte feminino, especialmente do futebol. Mas ser entusiasta, nesse caso, também significa dar a minha opinião sobre o que ainda não está bem. E há uma conversa que o mercado esportivo brasileiro precisa ter antes da Copa do Mundo Feminina de 2027: o futebol, maior paixão nacional, carrega um fantasma que não dá mais para ignorar. Estou falando da violência contra a mulher.
Nas noites de quarta e domingo, dias mais comuns de jogos, as delegacias da mulher registram picos expressivos de ocorrências de violência doméstica e feminicídio em vários estados do país. O esporte que une, que inspira, que transforma, é o mesmo que, em determinados contextos, ainda serve de gatilho para a violência.
Fui buscar entender melhor esse cenário e conversei com a Cristina Castro, fundadora e CEO do Instituto Gloria. A Cristina é uma mulher incrível, com uma trajetória admirável e uma força para lutar pelo universo feminino que sempre me impressiona. Desde 2022, o Instituto Gloria está por trás dos protocolos de segurança e acolhimento que já transformaram eventos como Rock in Rio, The Town e Lollapalooza em referências de mudança cultural no Brasil. Com a Copa do Mundo de 2027 chegando, ela virou os olhos para o futebol e o que encontrou foram dados e histórias muito tristes.
No fim de março, o Ministério do Esporte assinou o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) nº 5/2026 com o Instituto Gloria. O ACT tem vigência de dois anos e prevê campanhas nacionais de conscientização, capacitação de profissionais de todos os estádios, estruturação de protocolos de atendimento às vítimas e fortalecimento de canais de denúncia. Ele não depende de troca de governo nem de vontade política do momento. Demorou, mas agora está assinado e é um compromisso.
Mas o que me chamou atenção ao conversar com a Cristina foi entender que, também no futebol, a questão da violência contra a mulher é sistêmica e está enraizada no mercado esportivo. Precisamos usar a Copa de 2027 como janela para colocar o futebol feminino no centro do mundo e abrir espaço para que marcas, clubes e federações construam algo que vai muito além da visibilidade. Trata-se de uma oportunidade concreta de mudar essa história, e o mercado não pode deixar passar.
Roberta Coelho (RC): O acordo com o Ministério do Esporte foi assinado e publicado no Diário Oficial. Mas o que ele muda na prática? Quais são os primeiros passos concretos?
Cristina Castro (CC): A primeira coisa que precisa ficar clara é que isso não é uma campanha. É um plano de trabalho estruturado para dois anos, com obrigações mútuas e acompanhamento de uma comissão mista. Independentemente de mudança de governo, está assinado e está vigente. O primeiro movimento agora é selecionar os estádios-piloto. A gente não pode querer começar tudo ao mesmo tempo. Vamos escolher dois, três, cinco estádios-piloto, testar diferentes tamanhos de jogo e começar a construir uma teia de aliados: clubes, torcidas, parceiros comerciais. A ideia é aprender rápido e escalar com consistência.
RC: Você fala muito em mudança cultural, e não apenas em punição. O que o Instituto Gloria levará para dentro dos estádios que vai além de um QR code na porta do banheiro?
CC: O QR code é uma porta de entrada, uma porta importante porque estará nos banheiros femininos, conectado diretamente ao canal 180, o Disque Denúncia de violência contra a mulher. Mas sozinho ele não muda nada. O que muda é o conjunto: os funcionários do estádio, do bar à limpeza, passarão por treinamento contínuo nos protocolos do “não é não”. Além disso, vamos tornar obrigatória a veiculação de campanhas educativas antes e durante os jogos. Não adianta só falar para a mulher. Precisamos falar para os homens. E se conseguirmos atingir cinco, já conseguimos alguma coisa.
RC: Existe uma correlação direta entre resultado de jogo e aumento de violência doméstica. Como o mercado esportivo (marcas, clubes, federações) precisa enxergar esse dado?
CC: Quando você abre os dados da Polícia Federal e vê que, em São Paulo, quando os grandes times perdem, os boletins de ocorrência de violência doméstica disparam, e o mesmo acontece no Rio de Janeiro, você não pode mais tratar isso como um problema externo ao esporte. Isso é um problema do esporte. E quando o mercado traz para dentro do estádio patrocinadores que reforçam estigmas sobre a mulher, esse problema piora. As marcas que patrocinarem a Copa de 2027 precisam entender que estão entrando em um ambiente que ainda está sendo construído. Elas podem ajudar a construir e fazer a diferença no esporte. Isso é uma grande oportunidade.
RC: Para as marcas que querem fazer parte dessa solução, o que o Instituto Gloria oferece e o que você espera delas?
CC: O governo não tem recursos para fazer tudo isso sozinho. Assim como fazemos no Rock in Rio e no The Town, precisamos de parceiros. O Instituto Gloria oferece estrutura, metodologia e a credibilidade de quem sabe fazer. As marcas podem patrocinar um estádio, podem patrocinar o programa de treinamento, podem montar um espaço de acolhimento nos dias de jogos. Precisamos de comprometimento real. Esse é um projeto de dois anos, com indicadores, com acompanhamento. A marca que entrar nos ajudará a fazer uma grande transformação cultural. São mudanças que precisam começar de dentro para fora. Estamos mudando contextos e precisamos de mãos dadas para fazer uma nova história.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Roberta Coelho é CEO da equipe de e-Sports MIBR e criadora da WIBR, ecossistema de ações que busca trazer mais mulheres para o universo dos games. Além disso, é cocriadora e ex-CEO da Game XP e ex-head de desenvolvimento de negócios e ex-diretora comercial do Rock in Rio
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Em dias de jogos, as delegacias da mulher registram picos expressivos de ocorrências de violência doméstica e feminicídio; o futebol, esporte que une, inspira, transforma, é o mesmo que, em determinados contextos, ainda serve de gatilho para a violência
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