Entre os dias 3 e 5 deste mês, o Rio de Janeiro recebeu diversos profissionais da indústria de apostas na terceira edição do SBC Summit Rio, evento da SBC focado no mercado brasileiro.
Entre os participantes desse grande encontro, estava Carlos Crespo, fundador da Show Ball, máquina de Vídeo Lottery Terminal (VLT), que oferece diversas modalidades de jogo permitidas pela legislação brasileira. Apesar de ser similar às máquinas caça-níqueis, que não são legalizadas no país, a mecânica de cada dispositivo é diferente.
Enquanto os caça-níqueis oferecem infinitas linhas de pagamentos, com possibilidades de prêmios distintos, os VLTs operam com prêmios predefinidos. Crespo explicou que os VLTs são “máquinas de autoatendimento”. Em cada um desses equipamentos, é possível introduzir qualquer tipo de jogo, como keno ou bingo.
Conforme destacou, o conflito sobre as semelhanças e as diferenças entre caça-níqueis e VLTs é intensificado ainda mais pelas normas criadas por pessoas que não entendem a atividade: “Os políticos criam regras que dificultam o entendimento do que é realmente o jogo, do que é realmente o bingo”.
Para contextualizar, Crespo compartilhou que, em um determinado momento, queriam definir um número específico de botões para os VLTs. No entanto, enquanto algumas delas exigem 12 botões devido às suas funcionalidades, outras terão apenas 9, e essa variação depende da necessidade de cada jogo.
“É a mesma coisa que dizer que o Fusca precisa de cinco pneus. Ele tem quatro, não dá para colocar cinco, com exceção daquele que fica no porta-malas”, explicou Crespo.
A trajetória de Carlos Crespo
Em 1992, a trajetória de Carlos Crespo, fundador da Show Ball, estava apenas começando. Ao lado de sua esposa, Crespo criou o software da primeira máquina de vídeo-poker. Posteriormente, com a proibição da atividade no Brasil, desenvolveu um jogo de Fórmula 1.

Crédito: Elisa Marcante
A operação de bingos começou com Crespo sendo proprietário do Bingo Matarazzo, localizado em São Paulo e considerado, segundo ele, um dos maiores da região. O executivo contou que foi ali que aprendeu a lidar, de fato, com a modalidade.
Foi nesse estabelecimento que Crespo desenvolveu um software que realmente apreciava: “Eu não sou jogador, então, eu tentei fazer um programa que eu gostasse de jogar”.
Inicialmente, o objetivo da Show Ball era criar um jogo mais divertido, já que Crespo considerava as máquinas da época “chatas” e com poucos recursos. No entanto, ele não imaginava o impacto que sua ideia teria no futuro. O executivo foi pioneiro no desenvolvimento das máquinas com sistema de multibolas.
Até então, as funcionalidades disponíveis eram bastante limitadas: “linha”, quando o jogador completava uma sequência horizontal de números; “linha dupla”, ao formar duas linhas; e “bingo”, quando todo o cartão era completado. Em alguns casos, também era possível comprar até três bolas adicionais para tentar finalizar as combinações.
Pioneiro do bingo com múltiplas bolas
A revolução começou quando o jogo passou a oferecer até dez bolas extras, dando origem à máquina Show Ball e transformando-a em uma referência no setor. Segundo Crespo, o lançamento “foi um estouro”.
“O público adorou a ideia de poder comprar várias bolas dessas. Posteriormente, todos os concorrentes copiaram. Então, fizemos uma nova estratégia. A gente criou [os sistemas de] multibola e multijogo. Com isso, ganhamos praticamente um ano de vida sem concorrentes, porque eles tiveram muita dificuldade em copiar [o software]”, disse o executivo.
Crespo afirmou que todos os bingos atualmente, tanto no Brasil quanto em mercados internacionais, operam com multibolas e multijogos, “e isso foi uma criação da Show Ball”. Ele destacou que o sistema foi desenvolvido no laboratório da empresa, com a participação direta dele e de sua equipe de programadores.
Estratégia para se destacar da concorrência
O fundador da Show Ball afirmou que é “difícil” se manter em destaque, trazendo inovações, para continuar se diferenciando dos concorrentes. O projeto atual da empresa é o desenvolvimento do multiacumulado.
Crespo explicou que os bingos atuais utilizam 30 bolas, e a maioria das máquinas conta com um sistema que mantém o prêmio acumulado, aumentando o valor da recompensa. No entanto, na hora de efetuar o pagamento, as casas muitas vezes não dispõem de fundos suficientes. A proposta do executivo é liberar o prêmio em parcelas menores, seja com 30 bolas ou menos, facilitando a quitação.
“É uma novidade que estamos lançando e espero que o público goste”, disse Crespo.

Crédito: Elisa Marcante
Características dos bingos
Cada máquina possui características próprias. Crespo explicou que a diferença está, principalmente, nas funcionalidades que cada uma oferece. Enquanto o formato do jogo permanece inalterável, a diferença está nos recursos específicos de cada equipamento. Como exemplo, Crespo comentou a função turbo. Algumas das máquinas possuem um único botão para jogar e ativar o turbo, enquanto outras possuem botões distintos para cada recurso.
Uma das novidades da Show Ball é o modelo com tela touch, que possibilita definir a quantidade de botões e ajustá-los conforme o tipo de jogo. Enquanto alguns bingos utilizam 9 teclas, outros podem exigir até 15. A tela touch permite à empresa alterar essa configuração sempre que necessário.
Marketing e visibilidade de marca
Em relação ao marketing da Show Ball, Crespo disse que, atualmente, utiliza as feiras para garantir a visibilidade da empresa no mercado. O executivo explicou que as leis são pouco claras e há muita insegurança jurídica no Brasil.
“A gente fica com medo de investir, porque não temos nenhuma segurança. Amanhã [figurativamente] sai uma nova lei que diz: ‘não, vocês não podem trabalhar mais’. Aí você já fez um investimento alto, montou um parque industrial grande e não tem onde colocar o produto”, disse Crespo.
Por essa razão, a empresa também não investe em campanhas publicitárias. O executivo afirmou que aguarda a regulamentação para avaliar a possibilidade de fazer propaganda. Mesmo assim, durante a conversa, reforçou que a “Show Ball nem precisa de propaganda, ela já é nacionalmente conhecida”.
“A gente teve tanto roubo, tanta clonagem, tanta cópia que hoje a Show Ball é conhecida em todos os estados. Apesar de nunca termos atuado nesses lugares, onde chegamos todo mundo conhece a Show Ball, justamente por causa disso, por causa dos clones. Tem muita gente que copiou, tem muita gente que roubou o software”, afirmou Crespo.
Crespo revelou ainda que havia espiões dentro da empresa colaborando com concorrentes. Por isso, a Show Ball busca sempre inovar em suas máquinas, garantindo a diferenciação em relação às demais companhias do setor.
“Enquanto a gente não tiver segurança jurídica, fica muito difícil. Mas a gente tem a feira, e ela serve para mostrar que estamos vivos, que ainda estamos aqui e aguardando a regulamentação”, disse Crespo.
Estabelecimentos físicos versus online
Atualmente, a Show Ball não possui máquinas em estabelecimentos físicos. No entanto, a empresa tem avaliado a entrada no âmbito digital. Além disso, Crespo contou que não possui máquinas próprias. A operação da Show Ball depende de uma parceria, denominada “barriga de aluguel”: enquanto a Show Ball fornece o software, a colaboradora disponibiliza o equipamento.
Ainda assim, muitas vezes surgem problemas de compatibilidade, o que dificulta a atuação da empresa: “A gente desenvolve um certo sistema e, quando encontra uma máquina diferente, o equipamento é totalmente distinto: a placa não serve, a interface é diferente. Então, não conseguimos entregar o que o pessoal está procurando, não consegue rodar”.
Cassinos: legalização no Brasil e presença em mercados estrangeiros
A Show Ball mantém presença em mercados estrangeiros, como o México, com base na Guatemala. No Brasil, a legalização dos cassinos físicos ainda não avançou, o que limita a atuação direta da empresa.
A exportação também é um processo complexo, explicou Crespo, sujeito à alfândega, burocracia e custos extras, o que não é o objetivo da empresa.
Crespo contou que a Show Ball tem como objetivo desenvolver seu próprio gabinete, para criar equipamento eficiente, de baixo custo e poder enviá-lo para outras regiões.
Segundo o executivo, não faria sentido trazer modelos caros, no padrão Las Vegas, que custam entre US$ 12 mil e 15 mil, já que o público local valoriza produtos de boa qualidade, mas compatíveis com a realidade econômica do país.
Regulamentação das apostas no Brasil
Para Crespo, o Brasil ainda carece de uma regulamentação clara, reforçando sua visão de que “político não entende de jogo”. Ao contrário do que muitos imaginam, as casas não lucram milhões, e é necessário acompanhar cada cliente para que ninguém seja prejudicado.
A Show Ball adota uma filosofia diferente da dos cassinos tradicionais, explicou Crespo, mantendo uma margem de retenção baixa e equilibrando o jogo de forma que nem o cliente nem a casa saíam no prejuízo. Segundo Crespo, o ideal é operar dentro da capacidade de ambos, garantindo diversão sem comprometer a sustentabilidade da operação.
No entanto, Crespo destacou que encontrar o ponto de equilíbrio no jogo é um dos maiores desafios, já que a natureza aleatória das partidas torna difícil manter o balanço entre a diversão do jogador e a sustentabilidade da operação.

Visão social da Show Ball
Crespo alertou para a falta de percepção do governo sobre o trabalho social realizado pelas empresas do setor: muitas vezes, políticas voltadas para lavagem de dinheiro e controle do jogo são aplicadas sem considerar a realidade do mercado ou os impactos sobre os trabalhadores.
Segundo o executivo, na época em que os bingos estavam abertos, a empresa tinha 300 funcionários registrados, todos com direitos trabalhistas, plano de saúde e benefícios, que acabaram ignorados com o fechamento das casas. Hoje, ele mantém funcionários que estão na empresa há mais de 25 anos, enfatizando que a prioridade é preservar empregos e garantir estabilidade aos colaboradores.
“A gente faz um trabalho social que o governo não enxerga”, disse Crespo, ressaltando a importância de cuidar das pessoas envolvidas na operação.
Estratégia e competição no mercado brasileiro
Diante da abertura do mercado para a concorrência internacional, a Show Ball mantém postura cautelosa e estratégica. Crespo comparou a atuação da empresa a “surfistas na onda”: sem criar expectativas, a companhia se adapta ao momento do mercado, pronta para entrar quando houver regulamentação, mas mantendo o foco na sustentabilidade e na diversão.
O executivo também ressaltou que a competição no Brasil se tornou mais intensa com a entrada de empresas estrangeiras, mas garantiu que a Show Ball pretende atuar de forma justa, oferecendo produto de qualidade sem buscar dominar o mercado.
“A gente tem capacidade, inteligência e preparo para pegar uma fatia do mercado. Não queremos ser egoístas, queremos competição de igual para igual”, concluiu Crespo.
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