Se Neymar não tem se destacado muito dentro de campo pelo Santos, fora das quatro linhas amplia cada vez mais sua influência nos bastidores. Ao renegociar dívidas de direitos de imagem, o camisa 10, bem como seu estafe, se posicionou como peça central na política do clube.
Um contrato divulgado pelo Diário do Peixe revelou uma engenharia contratual que coloca Neymar pai e Neymar Jr. como peças com poder de influência para mitigar artificialmente a instabilidade do presidente Marcelo Teixeira e criar algo que poderia ser interpretado como um “pedágio” para a transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
O documento, datado de 12 de janeiro de 2026, indica uma dívida de R$ 90,5 milhões do Santos com a NR Sports, empresa de Neymar, decorrente dos direitos de imagem do jogador. O valor foi confirmado pela Máquina do Esporte.
Deste valor, R$ 26 milhões correspondem ao passivo vencido e R$ 64,5 milhões são referentes ao saldo remanescente. A primeira parte está sendo paga em parcelas de R$ 5,2 milhões mensalmente desde janeiro, e seguirá sendo debitada até maio.
Já os R$ 64,5 milhões, pelo contrato, serão pagos em 43 parcelas mensais de R$ 1,5 milhão.
Apesar dos valores que chamam a atenção, a grande questão, porém, está em cláusulas que definem situações nas quais o Santos terá que quitar a dívida com Neymar de forma integral.
Da maneira como foi arquitetado, o acordo indica que o futuro do Santos deverá passar, seja nas urnas ou como uma nova empresa, pelo aval de Neymar e sua família.
O peso da urna
O contrato define situações em que os vencimentos restantes devem ser pagos integralmente à vista. Um dos fatores que podem causar este resultado é a não reeleição de Marcelo Teixeira para presidente. A cláusula foi uma exigência da NR Sports.
Considerando-se que a eleição acontecerá em dezembro e que o Santos terá pagado todas as parcelas previstas até lá, isso significaria uma dívida de R$ 54 milhões, que deverá ser quitada à vista.
Para a oposição, a situação cria um endosso político para que Marcelo Teixeira seja reeleito, já que sua derrota significaria uma cobrança que abalaria, e muito, a estrutura financeira do clube.
Fontes próximas à família do atleta afirmam que a imposição da cláusula seria uma demonstração de confiança de Neymar pai no dirigente, de quem é amigo pessoal.
No ano passado, a NR Sports usou de suas parcerias comerciais para promover reformas no Centro de Treinamento (CT) Rei Pelé. Posteriormente, essas mesmas empresas usaram as obras como um “case” a ser apresentado ao mercado de construção civil.
Na peça orçamentária analisada pelo Conselho Deliberativo nesta semana, a diretoria santista dedicou uma página para exaltar a boa relação com a empresa do pai de Neymar.
“Em 2025, em parceria com a empresa NR Sports e diversos outros patrocinadores, efetuamos obras significativas na Vila Belmiro e no Centro de Treinamento Rei Pelé. Essas ações representam um investimento de mais de R$ 18 milhões, valorizando ainda mais nosso ativo imobilizado”, diz o documento.
Neste cenário, a família Neymar se posiciona como uma “fiadora” da gestão de Marcelo Teixeira. Mesmo sem candidatura confirmada para as próximas eleições, o cartola é tido como favorito.
Nesta segunda-feira (6), o Conselho Deliberativo do Santos aprovou as contas de 2025 com 107 votos a favor e 39 contra. O resultado indica a força de Teixeira para a reeleição.
Mais do que isso, o acordo promove sócios e conselheiros, aqueles que votam nas eleições, de agentes voltados à política para personagens que poderão definir o futuro financeiro do clube.
SAF
As cláusulas para vencimento antecipado também definem que a dívida deverá ser paga de uma vez caso o Santos de transforme em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), outro pedido da NR Sports. Se isso acontecesse em dezembro, por exemplo, a nova empresa teria que pagar R$ 54 milhões.
A Máquina do Esporte apurou que o entendimento dentro do clube, ainda assim, é de que a operação não põe em jogo o futuro da SAF. Isso porque a dívida com a NR Sports já está contabilizada no passivo do clube, de R$ 998,5 milhões. O valor está nas contas de 2025 aprovadas pelo Conselho Deliberativo.
Nas operações de venda para uma possível SAF do Santos, os investidores assumiriam esses passivos de qualquer forma.
A reportagem apurou que o interesse de Neymar com a renegociação estaria no recebimento dos pagamentos, e não na SAF do Santos.
CT da base
Uma das cláusulas que mais chamaram a atenção e incomodaram a torcida são referentes às garantias. O Centro de Treinamento Meninos da Vila, onde treinam as categorias de base, foi colocado como garantia para um cenário de inadimplência sem a transformação do Santos em SAF.
A justificativa seria tratar-se de um movimento corriqueiro do Peixe, de incluir ativos físicos nesses contratos. O clube acredita que a existência da cláusula não implicaria no direito de tomar o imóvel automaticamente, mas que dependeria de novos processos judiciais.
A estratégia é utilizada por outros clubes brasileiros. Recentemente, o Internacional tentou colocar um terreno como garantia em uma ação movida pelo empresário do jogador Carlos Palacios. O Corinthians, por sua vez, tem o Parque São Jorge como garantia no acordo com a Caixa, na dívida da Neo Química Arena.
Nota-se, porém, que se trata de uma estratégia utilizada por clubes que passam por grandes dificuldades financeiras e possuem grandes dívidas. É o caso de Corinthians e Internacional.
No Santos, porém, as movimentações envolvendo as categorias de base são delicadas. Do ponto de vista financeiro, trata-se de uma frente de extrema importância. A negociação de atletas injetou R$ 395,9 milhões nos cofres do clube nos últimos dois anos.
Além disso, os Meninos da Vila têm um peso histórico muito relevante para o time. As categorias de base santistas são vistas com uma “mística” alimentada por gerações de talentos que, em diferentes épocas, resgataram o Santos de fases ruins. Robinho, Diego e o próprio Neymar são exemplos não tão antigos.
O “ataque” às categorias de base também tende a gerar impactos políticos negativos, principalmente por não ser bem visto pela torcida. No São Paulo, por exemplo, o ex-presidente Julio Casares viu uma tentativa de negociar as equipes de formação com um investidor interno se tornar decisiva para sua derrocada.
Cobranças
O acordo veio a público no dia em que as contas de 2025 do Santos foram aprovadas pelo Conselho Deliberativo. Dias antes, 24 conselheiros opositores de Marcelo Teixeira chegaram a assinar um documento contra a aprovação.
O clube arrecadou R$ 678,5 milhões, 47,67% a mais do que no ano anterior, em que disputou a Série B. Ainda assim, o Alvinegro Praiano alcançou quase R$ 1 bilhão em dívidas, sendo R$ 470 milhões com vencimentos de curto prazo e R$ 761 milhões de médio e longo prazo.
Na saída da aprovação das contas, Marcelo Teixeira foi abordado por membros de torcidas organizadas do Santos, que o questionaram sobre as cláusulas e a situação financeira do clube.
Durante a reunião, o presidente também foi questionado por conselheiros. Marcelo Teixeira se defendeu afirmando que não pretende deixar prejuízos, dando a entender que o contrato poderia ser revisto.
Oficialmente, o clube disse que não se manifestará sobre o caso, por conta da cláusula de confidencialidade.
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Contrato que reorganiza pagamentos coloca camisa 10 como peça central na política do clube ao jogar bomba-relógio nas eleições de dezembro
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