O SBC Notícias Brasil conversou com Ray Wilson, head de AML da NetBet, que compartilhou sua visão sobre ferramentas de monitoramento, confiança do cliente, auditorias externas e os desafios de colaboração entre operadores.
Wilson estará presente no painel “Stop, collaborate and listen – can operators come together to protect players?” durante o SBC Summit Lisboa, que discutirá a cooperação entre operadores para fortalecer a proteção ao jogador e os mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro (AML) em apostas esportivas.
“Uma explicação humana muitas vezes basta para reduzir a tensão e obter cooperação.”
SBC Notícias Brasil: Ao avaliar os riscos de AML na indústria de iGaming, qual combinação de ferramentas internas, ferramentas de monitoramento e auditorias externas você considera mais eficaz?

Ray Wilson: A base de qualquer estrutura eficaz de AML começa com uma avaliação de risco adequada e uma infraestrutura interna sólida, especialmente um sistema robusto de recursos e registros. Isso inclui trilhas de auditoria confiáveis, armazenamento estruturado de documentação e registros claros de escalonamento. Sem isso, até mesmo as melhores ferramentas de monitoramento tornam-se reativas em vez de estratégicas e podem se apoiar em imprecisões fundamentais sobre exposição a riscos de lavagem de dinheiro ou financiamento ao terrorismo.
Uma vez estabelecida essa base, o monitoramento em camadas — com análises comportamentais, perfilagem de clientes e mapeamento de padrões de gastos — torna-se mais eficaz, especialmente quando as ferramentas detectam mudanças de comportamento em vez de apenas gatilhos fixos.
Fontes externas, como triagem de PEP/sanções e inteligência de código aberto, agregam valor quando incorporadas a fluxos de trabalho que permitam ação prática dos operadores.
Por fim, auditorias externas não devem ser meros exercícios formais; são mais valiosas quando funcionam como testes de estresse tanto da lógica quanto da execução, conduzidas idealmente por especialistas que compreendam tanto o setor de jogos quanto os riscos de crimes financeiros.
SBC Notícias Brasil: Como evitar a dependência excessiva de qualquer indicador na avaliação de um cliente ou transação?
Ray Wilson: Tudo começa com uma metodologia clara e coerente, baseada em princípios e não excessivamente dependente de um único dado.
A dependência exagerada, por exemplo, no nível de renda de um cliente já foi repetidamente destacada em ações de fiscalização da UKGC. Capacidade financeira, isoladamente, não significa baixo risco. A avaliação precisa ser dinâmica e holística, considerando toda a jornada do cliente — origem dos fundos, padrões de jogo, mudanças comportamentais e se o perfil continua coerente com a atividade em andamento.
O risco deve ser continuamente atualizado quase em tempo real, com base no comportamento real, e não em suposições estáticas feitas no onboarding. Treinar equipes para sempre se perguntarem “o que isso me diz e o que não me diz?” ajuda a criar uma mentalidade que evita confiança cega em um único fator.
SBC Notícias Brasil: A confiança do cliente é crucial ao implementar due diligence reforçada ou medidas de monitoramento de transações. Quais estratégias você considera mais eficazes para construir confiança ao mostrar que a conformidade em AML é proteção, não intrusão?
Ray Wilson: Esse é um dos aspectos mais desafiadores do CDD e do monitoramento, já que é preciso equilibrar obrigações regulatórias com uma jornada de cliente fluida. Para mim, a construção da confiança começa desde o primeiro dia, com transparência. É importante definir expectativas já no registro ou no primeiro depósito, e não simplesmente impor requisitos de EDD sem contexto.
Obtive bons resultados ao simplificar as mensagens, explicando por que as informações são necessárias, como serão usadas e quais proteções estão em vigor. Sempre que possível, vinculamos isso ao jogo responsável, o que reformula o EDD como proteção e não suspeita. Em casos que exigem maior interação, abandonar o script e ligar diretamente costuma funcionar muito melhor.
Uma explicação humana muitas vezes basta para reduzir a tensão e obter cooperação. Também focamos em solicitar apenas o essencial, não por mera formalidade, mas para respeitar o tempo e a privacidade do cliente.
SBC Notícias Brasil: Quais são os pontos cegos ou sinais de alerta mais comuns que os operadores tendem a ignorar ao avaliar a força de seus controles contra lavagem de dinheiro e crimes financeiros?
Ray Wilson: Um dos maiores pontos cegos é não saber o que não se sabe. Isso geralmente decorre de processos fracos de QA ou da ausência de supervisão de segunda linha. Se não há uma verificação formal das decisões ou da qualidade dos casos, o trabalho é feito às cegas.
Outra falha comum é a falta de trilhas de auditoria detalhadas. A regra aqui é simples: se não está documentado, não aconteceu. Revisões, justificativas para decisões ou caminhos de escalonamento — tudo deve estar registrado.
Também há confusão entre risco de compliance (ou seja, risco para a empresa por não conformidade) e risco real de crime financeiro relacionado ao comportamento do cliente. São coisas distintas e os controles precisam refletir isso.
Por fim, muitos operadores não aprendem o suficiente com ações de fiscalização. Esses casos são verdadeiras aulas gratuitas sobre o que não fazer com relação à lavagem de dinheiro, e ignorá-los é desperdiçar oportunidades.
SBC Notícias Brasil: Em algum momento os controles de AML e proteção ao usuário podem atrapalhar a experiência do cliente em sites de apostas?
Ray Wilson: Sempre existe uma tensão entre controles rigorosos e uma UX fluida, mas não se trata de escolher um ou outro. Os operadores que acertam nesse equilíbrio fazem duas coisas bem: entendem quando o risco realmente muda em nível individual e ajustam a interação de acordo.
O perigo está em abordagens genéricas ou sistemas que disparam alertas em excesso, gerando atrito para usuários que não representam risco, ruído operacional e intervenções manuais desnecessárias. Os controles devem ser baseados em precisão, acionados por mudanças significativas e não apenas por limites numéricos. Uma boa UX nesse contexto significa controles inteligentes, explicáveis e justificáveis.
SBC Notícias Brasil: Os atuais padrões de privacidade de dados atrapalham ou apoiam programas eficazes de AML, especialmente ao lidar com clientes de alto risco ou padrões suspeitos repetidos em diferentes plataformas? A indústria deveria discutir permissões condicionais de compartilhamento de dados para prevenção de crimes financeiros com lavagem de dinheiro?
Ray Wilson: Essas discussões não são novas; pelo que acompanho, já acontecem há seis ou sete anos. O argumento a favor do compartilhamento condicional de dados sempre foi forte. Embora não impeça totalmente o crime financeiro, ele melhoraria muito a capacidade de interrompê-lo. E só essa interrupção já funciona como forte fator de dissuasão, pois transmite a mensagem de que o setor deixou de ser alvo fácil para criminosos, forçando-os a migrar.
O compartilhamento entre operadores ajudaria a identificar padrões que hoje são invisíveis em sistemas isolados, como um mesmo cliente usando credenciais diferentes em marcas ou regiões distintas. Com a devida estrutura de privacidade e governança, o potencial é enorme. Não se trata de vigilância em massa, mas de proteger o ecossistema contra exploração repetida. Se realmente queremos elevar o nível dos controles de crimes financeiros, não podemos continuar atuando de forma isolada.
SBC Notícias Brasil: Uma colaboração entre operadores é realista, considerando os marcos legais e regulatórios, para rastrear comportamentos suspeitos de clientes entre marcas ou jurisdições? O que seria necessário para tornar esse nível de colaboração possível?
Ray Wilson: É totalmente realista, mas apenas na medida em que a indústria esteja disposta a fazê-lo acontecer. As autoridades já pedem esse tipo de colaboração há mais de uma década, mas os avanços são lentos, em grande parte por restrições de proteção de dados e receios comerciais.
Um dos maiores bloqueios é a percepção de que dados de clientes são propriedade intelectual. Muitos operadores acreditam que trabalharam duro para conquistar e reter essa base, então compartilhar dados, mesmo sob parâmetros de risco controlados, soa como abrir mão de uma vantagem competitiva.
Também existe um déficit de confiança: alguns operadores temem compartilhar informações úteis sem receber a mesma qualidade em troca. Sem garantias de reciprocidade, a colaboração parece arriscada, especialmente quando a fatia de mercado está em jogo. É necessário mudar a cultura nesse aspecto, enxergando a proteção da indústria e dos clientes como um objetivo comum, e não como uma desvantagem competitiva.
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