Na primeira vez, parecia até tragédia. Para alguns mais emocionados e tradicionalistas, era como se o futebol, tal como o conhecíamos, tivesse sido sugado para alguma dimensão paralela, onde tudo está em permanente desordem. No fim das contas, as coisas seguiram seu rumo e todos se acostumaram aos novos tempos.
Da segunda vez, muita gente ficou perplexa, enquanto outros riram. A Copa do Mundo sobreviveu a mais esse episódio e passa muito bem, obrigada.
E então veio a terceira vez, mas agora praticamente só restaram gracejos, risos e memes nas redes sociais. Quase ninguém sofreu, embora um certo espanto ainda persista, especialmente entre as pessoas acima de 40 anos, que se acostumaram a enxergar na Squadra Azzurra uma potência do futebol mundial.
Pela terceira Copa do Mundo consecutiva, a seleção italiana tomba nas Eliminatórias. Mesmo com o aumento no número de vagas para 48. Mesmo enfrentando na repescagem uma adversária de pouca tradição como a Bósnia e Herzegovina.
E lá se vão 12 anos desde a última vez em que as emissoras brasileiras tiveram a chance de enviar equipes de reportagem até a Serra Gaúcha, ou a alguma cidade do interior paulista como Jundiaí, Vinhedo e assim por diante, ou mesmo a bairros paulistanos como Mooca ou Bexiga, para registrar a saga de descendentes de italianos na torcida pela nação de seus antepassados.
E não será desta vez que veremos atletas da Velha Bota, com seus olhos claros e suas longas madeixas onduladas, figurando em peso nas listas dos colírios da Copa elaboradas pelo jornalismo de entretenimento. Sim, nossa cultura fica um pouco mais pobre com a ausência da Itália nesse grande evento esportivo internacional, que será realizado de 11 de junho a 19 de julho, no México, Canadá e Estados Unidos.
Mas o que terá levado a Itália a passar de grande potência das Copas, ao lado de Brasil, Alemanha e Argentina, para uma espécie de versão futebolística daquele leão desprovido de dentes e garras afiadas, da fábula de La Fontaine?
Se a resposta fosse simples, talvez os jogadores da seleção tetracampeã mundial, de um país que já teve o campeonato nacional mais badalado e competitivo do mundo, não tivessem celebrado de maneira tão efusiva quando os bósnios eliminaram o “todo-poderoso” País de Gales nos pênaltis, por 4 a 2.
E talvez o técnico Gattuso não tivesse declarado que deixaria a Itália, caso a Azzurra caísse diante de um adversário tão fraco.
Gattuso, talvez por excesso de orgulho e saudosismo, não percebeu que a Itália que a maioria aprendeu a temer e respeitar ficou no passado. Os jogadores atuais, por seu turno, talvez não compreendam o processo histórico que resultou na derrocada da seleção que defendem.
Os fatores para mais esse fracasso (e não podemos esquecer da queda na fase de grupos, na Copa de 2014) são diversos e estão relacionados às esferas esportiva, econômica e social na Itália.
Ascenção e queda do Mecenato
Quando a Itália conquistou sua quarta Copa do Mundo, em 2006, a Serie A, principal divisão do futebol do país, ainda possuía o status de campeonato de futebol mais rico e competitivo do mundo, embora já começasse a dar sinais de que poderia caminhar para o colapso.
A estrutura que tornou o Campeonato Italiano uma potência nos anos 1980, 1990 e 2000 surgiu em 1966, numa época em que muitos clubes do país enfrentavam fortes dificuldades financeiras.
O governo conseguiu a aprovação de uma lei que levou as equipes a se organizarem como sociedades por ações ou de responsabilidade limitada, o que abriu caminho para que pudessem receber investimentos de milionários locais.
Foi dessa forma que surgiram as “Societàs”, que vemos agregadas aos nomes de clubes como Lazio, Bari ou Napoli, ou denominações parecidas como “Associazione”, casos de Milan e Roma, ou Unione, utilizada pelo Lecce.
Estavam criadas as condições objetivas para o surgimento do “Mecenato”, em que famílias endinheiradas de importantes grupos industriais do país escolhiam um clube para investir (de preferência na cidade ou região em que esses milionários residiam ou possuíam negócios), contratando jogadores e melhorando sua estrutura esportiva.
Foi com base nessa modelo que a Serie A se converteu numa verdadeira constelação do futebol mundial. A limitação de jogadores por clube fez com que gênios da dimensão de Maradona ou Zico fossem parar em equipes não tão badalas como Napoli ou Udinese, dando trabalho aos gigantes da Serie A.
O Mecenato seguiu funcionando com força nas décadas de 1990 e 2000. Porém, o mundo e o próprio futebol europeu passavam por grandes transformações.
À época em que a Itália conquistou a Copa de 2006, a Serie A seguia atrelada ao capital local, que perdia competitividade frente à concorrência de novos mercados globais (especialmente da Ásia), ao passo que outras ligas, especialmente a Premier League, souberam se abrir para os investidores internacionais.
O que garantiu sobrevida ao modelo do Mecenato foi a presença de grandes magnatas em alguns poucos clubes, caso de Silvio Berlusconi no Milan (que posteriormente seria vendido aos chineses e depois aos norte-americanos) ou da família Agnelli (dona da Fiat, hoje parte da Stellantis) na Juventus.
Manter em seus gramados craques que disputavam (e muitas vezes ganhavam) a Bola de Ouro trazia um custo significativo para os Mecenas, sobretudo frente ao assédio de ligas rivais cada vez mais capitalizadas, como Premier League e LaLiga. E aos poucos as societàs passaram a acumular dívidas impagáveis.
Em 2003, então na condição de primeiro-ministro, Berlusconi chegou a emitir decreto para conceder benefícios fiscais a clubes que estavam à beira da falência. Medidas como essa, porém, tiveram efeito apenas paliativo.
Escândalos, corrupção e invasão estrangeira
A Itália chegou para disputar a Copa de 2006 com a imagem de seu futebol profundamente arranhada, por conta do escândalo do Calciopoli, esquema de manipulação de resultados ocorrido na temporada 2004/2005.
Grampos telefônicos revelados em 2006 mostraram que dirigentes da Juventus, principalmente, e de equipes como Milan, Lazio, Fiorentina, Reggina e Arezzo mantinham relação próxima a quadros de arbitragem de Serie A, a ponto de influenciarem as decisões dos profissionais em campo, definindo o rumo das partidas.
A Juventus perdeu os títulos das temporadas 2004/2005 e 2005/2006 (título que foi repassado à Internazionale) e ainda acabou sendo rebaixada para a Serie B.
Os demais clubes citados no escândalo chegaram a ser punidos, mas as penas acabaram sendo atenuadas, em sua maioria.
Os estragos ocasionados pelo episódio prejudicaram a reputação da Serie A, que perdeu valor, audiência e credibilidade, situação que nem a conquista da Copa pela Azzurra serviu para atenuar.
Na década seguinte, com o sistema do Mecenato cada vez mais decadente, a Itália resolveu se abrir aos investidores internacionais. Porém, o campeonato do país já não era capaz de atrair grandes grupos internacionais, que miravam mercados mais promissores, como Inglaterra, Alemanha, Espanha e França.
Curiosamente, o único clube que conseguiu se manter competitivo em termos continentais nesse período foi a Juventus, que, graças aos investimentos da família Agnelli, conquistou nada menos que nove edições da Serie A realizadas entre 2010/2011 e 2020/2021, temporada em que a hegemonia da equipe de Turim foi quebrada pela Internazionale, hoje pertencente à norte-americana Oaktree.
Liga rachada, falta de investimentos na base e estádios obsoletos
Um fator que ajudou a complicar o drama financeiro dos clubes italianos foi a intervenção feita pela Autoridade Garantidora da Concorrência do país, em 1999, que considerou a negociação coletiva de direitos de transmissão uma forma de monopólio.
Com isso, o modelo foi proibido e passou a vigorar na Itália um sistema similar à atual Lei do Mandante, em vigor no Brasil, que permitia a cada clube vender individualmente seus direitos de arena.
Nesse modelo, clubes maiores alcançavam negociações mais vantajosas em comparação aos times menores. No fim das contas, mesmo quem supunha faturar mais acabava obtendo receitas menores que as obtidas por equipes de outras grandes ligas europeias.
Tanto que, em 2008, o governo resolveu intervir na situação com um decreto que determinou a volta da negociação coletiva, de modo a reduzir o desequilíbrio financeiro no campeonato.
Os estragos de quase uma década de “cada um por si” permaneceram. Exemplo disso está na baixa infraestrutura existente no futebol italiano.
Acostumado a contratar a peso de ouro os jovens craques de outros países, a Serie A pouco investiu nas categorias de base. Hoje, as jovens promessas da África e da América do Sul vão para Real Madrid, Barcelona, PSG, Chelsea, Manchester City, Liverpool ou Bayern de Munique.
Enquanto isso, a Itália tem dificuldades imensas em formar novas gerações vencedoras.
Os estádios obsoletos são outra face da decadência do futebol italiano. Atualmente, a maior parte deles não atende aos dos padrões exigidos pela União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) e pela própria Federação Internacional de Futebol (Fifa).
No ano passado, Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, disse que os estádios italianos eram “uma vergonha” e afirmou que o país teria, de longe, a pior infraestrutura de toda a Europa, ficando atrás até mesmo de nações como a Albânia.
A Itália sediará, ao lado da Turquia, a Euro 2032 e corre contra o tempo para adequar seus estádios para o torneio. Das dez praças propostas pelo país como possíveis sedes do evento, apenas o Allianz Stadium, da Juventus, foi considerado dentro dos padrões.
Hoje, por exemplo, em comparação à Premier League, os clubes italianos faturam 40% menos em dias de jogo (matchday).
Clubes endividados
Conforme noticiou recentemente a Máquina do Esporte, 13 equipes da Serie A encerraram a temporada 2024/2025 no prejuízo:: Empoli, Verona, Cagliari, Lazio, Napoli, Fiorentina, Genoa, Venezia, Monza, Roma, Parma, Como e até mesmo a Juventus.
Apenas sete times italianos registraram superávit no mesmo período: Lecce, Bologna, Torino, Udinese, Internazionale, Milan e Atalanta. Os três últimos, aliás, têm protagonizado as melhores campanhas do futebol italiano nas copas europeias em anos recentes.
Desafios econômicos e sociais
Ter um campeonato decadente e desorganizado não é o impeditivo para que uma equipe se classifique para uma Copa do Mundo e até conquiste o título. A seleção argentina está aí para provar esse fato.
Diferentemente da Itália, porém, a Argentina firmou-se há décadas como um polo fornecedor de talentos de futebol para outros mercados.
A Itália, por seu turno, acostumou-se a contratar as jovens promessas, em vez de formar seus próprios craques. Uma das poucas exceções em meio ao caos financeiro que domina a Serie A, a Atalanta é um exemplo de clube que optou por investir na base. E hoje colhe os frutos dessa escolha.
No caso da Velha Bota, porém, o desafio vai além de simplesmente querer investir na base. O país tem passado por um processo de estagnação econômica, que explica em parte a derrocada do Mecenato.
Esse processo ganhou força a partir do fim de 1999, com a implantação do euro como moeda da União Europeia. Questões como baixa produtividade e dificuldade em implantar inovações fizeram com que a Itália perdesse competitividade frente a outras nações.
Hoje, poucas empresas do país conseguem disputar para valer mercados globais e acabam se voltando para um mercado interno que encolhe cada dia mais.
Atualmente, mais de 30% da população da Itália tem acima de 60 anos de idade. A taxa de natalidade está em 1,14 filho por mulher, uma das menores do mundo.
Em 2025, foram 355 mil nascimentos, o número mais baixo já registrado na história do país. A queda na natalidade tem sido uma constante na Itália, nos últimos 16 anos, resultando na perda de 1,9 milhão de habitantes na última década.
Pouco atrativa para imigrantes, que miram locais como Alemanha, Reino Unido ou França, a Itália também não consegue mais renovar sua população. O cenário é desolador.
Em tempos recentes, clubes italianos como o Milan têm procurado investir na implantação de suas estruturas de base em outros continentes.
A equipe rossonera, por exemplo, fechou acordo de patrocínio com a República Democrática do Congo, numa parceria que prevê a instalação de uma Academia do Milan no país africano, como forma de garimpar jovens talentos.
Esse movimento se dá ao mesmo tempo em que cresce o sentimento xenofóbico na Europa, com ataques cada vez mais frequentes aos imigrantes, promovidos por grupos políticos radicais.
Por ironia, as mesmas populações que hoje são perseguidas por terem origem estrangeira podem se converter na grande esperança para que Itália retome seus dias de glória nas Copas do Mundo.
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Divisões internas na Serie A, corrupção, falta de investimentos na base e a própria decadência econômica do país explicam a derrocada da Squadra Azzurra
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