Com saída do Palmeiras, Flamengo amplia poder e se torna hegemônico na Libra

Na política não existe vácuo. Essa verdade voltou a ser escancarada, desta vez com o desenrolar da disputa entre Leila Pereira, do Palmeiras, e Luiz Eduardo Baptista, o Bap, do Flamengo, no interior da Liga do Futebol Brasileiro (Libra).

O dirigente rubro-negro tensionou ao máximo as relações dentro do bloco comercial, tanto no nível discursivo quanto no das ações práticas, especialmente com a ação judicial que bloqueou recursos dos demais clubes.


Ao mesmo tempo, demonstrou habilidade política ao arregimentar dirigentes de equipes insatisfeitas com os rumos da Libra (Grêmio e Remo), criando um grupo coeso que lhe deu força nas discussões internas do bloco.

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A postura de Leila, diante das investidas de Bap, foi de contra-atacar nas declarações, mas ir retirando lentamente o time de campo, até anunciar a saída definitiva nesta semana.


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Em contrapartida, o Flamengo assumiu um assento no Comitê Gestor da Libra, no lugar do Red Bull Bragantino (clube que era mais próximo ao Palmeiras).

A verdade é que, há tempos, a dirigente alviverde aposta suas fichas na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) como única entidade capaz de liderar a criação de uma liga unificada no país.

Ela deixou isso claro ao sair da reunião promovida pela instituição no mês passado, em que se iniciaram os debates com os clubes.

CBF fortalecida

Ao optar por não aderir ao Futebol Forte União (FFU) e reafirmar a confiança na CBF, Leila ajuda a fortalecer a posição da entidade no debate sobre a criação da liga no país.

Essa questão começará a ser definida de fato apenas em 2029, quando chegará ao fim o atual acordo de direitos de transmissão com o Grupo Globo.

Embora ainda seja cedo para fazer afirmações tácitas, a tendência que se desenha atualmente é de que Libra e FFU devem perder cada vez mais força nesse processo, ao longo dos próximos meses.

Inclusive porque as duas organizações já admitiram publicamente que o modelo atual, com dois blocos negociando direitos de maneira separada, representa um entrave para a criação da liga.

Jurídico

Com a confirmação da saída do Palmeiras da Libra, resta saber como ficará a situação do advogado André Sica dentro do bloco.

Ele comanda a área jurídica no grupo e chegou a ser alvo da verborragia de Bap, no auge da disputa judicial envolvendo os repasses do Grupo Globo, que acabaram sendo bloqueados por conta da ação movida pelo Flamengo.

Em outubro do ano passado, o presidente rubro-negro insinuou que a Libra seria um órgão palmeirense e que o advogado estaria a serviço do clube paulista.

Sica respondeu, por sua vez, que seu escritório trabalha para mais de 30 clubes ao redor do país e que foi escolhido para atuar na Libra por (entre outros) Rodolfo Landim, presidente que antecedeu Bap no comando do Flamengo.

Tudo pode mudar

A política não admite vácuos, mas também é como nuvem. Muda de forma a todo instante.

Da mesma forma que o Palmeiras deixou a Libra por conta das desavenças públicas entre Bap e Leila Pereira, nada impede que o clube retorne em breve.

Afinal, o mandato da dona da Crefisa no time alviverde chegará ao fim no ano que vem. E nunca se sabe quais rumos serão escolhidos pelos seus sucessores.

Portuguesa

Na Portuguesa, segue indefinido quem ficará responsável por viabilizar as obras de remodelação do Estádio do Canindé.

Inicialmente, essa reforma seria liderada pela Revee, que acabou sendo excluída da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) da Lusa, depois que eclodiram os escândalos envolvendo a Reag, na Operação Carbono Oculto.

A coluna apurou que, hoje, o grande impasse para que a obra ocorra não está nem mesmo na questão do investidor.

O clube precisa primeiro resolver uma série de pendências envolvendo a documentação do imóvel onde está localizado o estádio. Só assim o empreendimento poderia sair do papel.

Golpe do WhatsApp

O ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, foi mais uma vítima do famigerado golpe do WhatsApp.

O órgão divulgou uma nota informando haver identificado um número com código do Distrito Federal, que tentou se passar pelo chefe da pasta.

O Ministério do Esporte não especificou qual seria o tipo de abordagem feita pelos supostos estelionatários.

Quem já passou por esse drama sabe que, de modo geral, os golpistas tentam convencer amigos e familiares a realizarem transferências em dinheiro ou coisas do tipo.

“O Ministério do Esporte e o ministro não realizam contatos por telefone para tratar de transferências de recursos ou qualquer solicitação semelhante. Todos os procedimentos oficiais são feitos exclusivamente pelos sistemas eletrônicos, com total segurança e rastreabilidade”, afirmou o órgão.

Em resumo: se algum ministro entrar em contato de um número desconhecido pedindo um pix, não transfira o dinheiro, pois certamente será um golpe.

Capacitismo

Por falar em Ministério do Esporte, o órgão emitiu uma nota repudiando falas capacitistas de Mauro Chekin, secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul (SP).

O profissional, que é formado em Educação Física, participava de uma audiência pública na Câmara Municipal para apresentar os resultados de sua gestão, quando passou a discorrer sobre algumas das terríveis agruras que enfrenta no comando da pasta.

Um dos episódios dramáticos enfrentados pelo abnegado secretário e por seus comandados consistiu em aceitar a matrícula de uma garota com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

“Nós temos um problema muito grande com autista. Com autista e qualquer deficiente. Veio uma mãe, que me perdoe, mas não posso esconder as coisas. Veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela, para ser incluída na aula de natação. Está bom, vamos incluir. A menina usa fralda, como que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda?”, disse.

A vereadora Bruna Biondi (PSOL) ainda tentou argumentar que existem fraldas apropriadas para a prática de natação.

“Se tem, nós temos de orientar a mãe a comprar essa fralda de natação”, afirmou Chekin, que, em 2026, terá à disposição um orçamento de mais de R$ 30 milhões para a secretaria que comanda.

Inclusão?

Ele prosseguiu: “Esta mesma menina, quando começou a aula, começou o barulho, ela saiu correndo da piscina, se encostou em um canto e tapou os dois ouvidinhos”.

Depois disso, o gestor público passou a discorrer sobre o que chamou de “problema” da inclusão nos esportes e nas aulas de Educação Física, já que, segundo ele, nem todos os profissionais estariam capacitados para lidar com essa questão.

Bruna Biondi até perguntou se não seria hora de capacitar os profissionais da cidade, para que possam atuar com as pessoas com deficiência.

O secretário então contou a ela uma “historinha”, nas suas próprias palavras, para explicar o quão hercúlea seria essa missão.

Quando ele cursava Educação Física, o currículo da faculdade exigia que os alunos desenvolvessem trabalhos com pessoas com deficiência.

Chekin foi então a uma unidade da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), para uma aula com pessoas atendidas pela entidade.

“Eu entrei na piscina, que era aula de natação, saí e falei: ‘Se for para trabalhar desse jeito, eu nunca mais volto aqui’”, disse.

Diálogo edificante

Segundo ele, sua condição psicológica seria muito frágil, razão pela qual recusou um convite do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) para ir a uma edição dos Jogos Paralímpicos. A partir daí, seguiu-se um diálogo edificante entre o secretário e a edil:

“Não vou [referindo-se ao convite feito pelo CPB]. Eu não consigo. Eles [os atletas com deficiência] inclusive se tratam de maneiras muito afetivas, mas não consigo”, relatou.

“Não consegue o quê, secretário? Não estou entendendo”, retrucou a vereadora.

“Nós temos que ver quem é o profissional que quer trabalhar com isso”, emendou Chekin.

“Não é sobre querer, secretário. Inclusão tem que ser garantida. Não tem a opção de os profissionais quererem ou não quererem trabalhar com inclusão. A inclusão é um dever do Estado”, argumentou a parlamentar.

“Então me desculpa. A inclusão é um dever do Estado, mas não é um dever meu, pessoa física”, arrematou o gestor.

Chekin ainda afirmou que, se algum superior exigisse que ele trabalhasse com pessoas com deficiência, já estaria fora da prefeitura. O secretário foi nomeado pelo prefeito Tite Campanella (Republicanos) em 2021.

Para quem tiver interesse em conferir o diálogo na íntegra, ele está disponível no vídeo abaixo, a partir de 1h14min:

Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010

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Decisão da presidente Leila Pereira de deixar o bloco comercial também fortalece a CBF no processo de discussão sobre a liga unificada no Brasil
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