O mercado brasileiro de apostas é sustentado por tecnologias recentemente implementadas para dar suporte à complexa dinâmica estrutural do setor.
Enquanto o jogador escolhe a partida, insere os dados do cartão e aguarda o resultado, um sistema de monitoramento em tempo real registra cada movimento, cruza informações com bases de dados governamentais e verifica se o usuário não está em listas de autoexclusão ou entre beneficiários de programas sociais.
Essa estrutura tecnológica foi o tema central do painel “A Construção da Infraestrutura Digital no Mercado Brasileiro Regulado”, realizado durante o SBC Summit Rio 2026, no Riocentro, no Rio de Janeiro. O painel foi coberto por Lucía Gando, editora do SBC Notícias.
O encontro reuniu representantes de destaque do setor responsáveis pelo desenvolvimento e pela operação dos sistemas que sustentam o mercado brasileiro.
Participaram Fabio Macorin, subsecretário de Monitoramento e Fiscalização do Ministério da Fazenda, Elaine Kato, superintendente de Negócios do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), Lívia Troise, CIO da Casa de Apostas, e Joelson Vellozo Jr., diretor de Políticas Públicas da Unico. A sessão foi moderada por Udo Seckelmann, responsável pelo departamento de Apostas & Crypto do Bichara & Motta Advogados.
Macorin abriu o debate comentando o Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP), projetado para centralizar todas as informações do mercado: “Recebemos todos os movimentos dos operadores: as posições dos apostadores, ganhos e perdas, contas suspensas nas plataformas e também informações mensais sobre GGR e encargos sociais”.
O subsecretário reconheceu que o maior desafio de 2024 foi lançar todas as portarias necessárias para as autorizações, mas destacou que a frente tecnológica também exigiu esforços significativos.
“Não havia infraestrutura nem experiência concreta no mercado de apostas. Está sendo feito um grande esforço para estabelecer o sistema. Hoje ele é robusto, foi aprimorado, e os operadores também realizaram seus investimentos”, afirmou Macorin.
O sistema, que originalmente estava voltado ao processo de autorização, evoluiu para modelo de monitoramento.
“Hoje há quatro modelos do SIGAP operando 24 horas por dia, sete dias por semana, para receber o monitoramento diário individualizado. O modelo mais recente, desenvolvido pelo Serpro, é avançado e permite consultas para verificar se os jogadores estão proibidos de apostar”, detalhou Macorin.
E afirmou: “A regulamentação nunca chegará a um ponto final. Ela será continuamente aperfeiçoada, e o sistema seguirá evoluindo”.
Os números por trás da regulamentação
“Quando se observa o mercado de jogos, aparecem ofertas, produtos e marcas, mas muitas vezes não fica claro o que existe por trás. Trata-se de um mercado novo. Celebramos o intenso trabalho do governo para fazer o mercado funcionar nos últimos dois anos e avanços como o SIGAP”, disse Elaine Kato, do Serpro. Segundo a especialista, o SIGAP é um sistema único, mas a evolução tecnológica avança no mesmo ritmo que a regulamentação legal permite.
Entre os avanços recentes, Kato citou a implementação do mecanismo de autoexclusão em dezembro de 2025, que já processou mais de 300 mil solicitações de autoexclusão: “Desde então recebemos milhares de registros. Coletamos essas informações a partir das contribuições dos operadores”.
Kato também mencionou o bloqueio de jogadores beneficiários de programas sociais – outra ferramenta considerada fundamental. Segundo ela, o modelo de prevenção foi implementado em outubro de 2025 para impedir que pessoas registradas em programas como o Bolsa Família utilizem esses recursos em apostas.
Cada nova funcionalidade incorporada ao sistema precisa considerar o menor impacto possível para operadores, explicou. Ainda assim, reforçou o apoio à restrição do uso de recursos de programas sociais em apostas. De acordo com Kato, dois meses após a implementação da medida, em dezembro, o sistema já havia registrado cerca de 9.100 bloqueios.
Bastidores da operação
Lívia Troise, da Casa de Apostas, trouxe o olhar de quem precisa implementar todos os requisitos no dia a dia. Segundo a executiva, 2025 foi um ano extremamente intenso para os operadores, marcado por múltiplas demandas, prazos e regras acontecendo simultaneamente.
Além disso, destacou que a imagem pública do setor ainda enfrenta desconhecimento e críticas. Para ela, as empresas precisam aprovar testes de integridade e garantir rastreabilidade não apenas para auditores do governo, mas também para que os jogadores possam comprovar a transparência das plataformas.
Troise ressaltou que, embora seja relativamente fácil detectar irregularidades, a acumulação de exigências gera tensão e prejudica a experiência do usuário. A CIO alertou que, sem eficiência tecnológica, será difícil competir com o mercado ilegal.
Joelson Vellozo Jr., da Unico, trouxe uma perspectiva mais ampla sobre o papel da tecnologia na regulamentação: “O Brasil é líder em discussão digital sobre privacidade e proteção de dados, e a lei é muito sofisticada”.
Vellozo Jr. ressaltou a importância de discutir a regulamentação da informação digital, identificando os pontos críticos na cadeia de fornecimento, onde dados e proteção podem falhar. Para o diretor, o objetivo das autoridades é construir uma indústria confiável e elevar os padrões de qualidade do mercado.
No entanto, Vellozo Jr. alertou: “Existe uma linha tênue entre regulamentação que promove um mercado seguro e aquela que o sufoca. Qualquer mercado na economia digital depende da inovação tecnológica, por isso precisamos nos concentrar no que é realmente importante”.
A batalha contra o jogo ilegal no Brasil
Como moderador, Udo Seckelmann trouxe à tona o desafio mais urgente do setor: o mercado ilegal. Ele citou o caso da China, que possui o maior mercado ilegal do mundo apesar de contar com sistema rigoroso de monitoramento, questionando como a proibição poderia realmente funcionar.
Macorin explicou que os fornecedores de plataformas e toda a cadeia do mercado precisam estar alinhados à regulamentação, com produtos autorizados, acordos claros, associações de jogo responsável e laboratórios de verificação. Cada plataforma deve garantir a legalidade própria e de seus parceiros, mas, segundo ele, também é necessária colaboração ampla da indústria, especialmente no controle de pagamentos, “essencial para identificar o mercado ilegal”.
O subsecretário detalhou que são geradas listas de bloqueio em parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), integráveis a diferentes setores. Produzem informações para o mercado financeiro, listagens de clientes em plataformas ilegais e dados de empresas de pagamento. Após um mês, milhares de sites ilegais são identificados e solicitados para bloqueio.
“Quando um site é removido, o operador ilegal precisa refazer todo o trabalho. Nas redes sociais, evitamos publicidade. Com todos esses links, conseguimos fortalecer o mercado legal”, explicou Macorin.
Seckelmann resumiu que essa atuação depende de cooperação, lembrando que o regulador não pode agir sozinho, e acrescentou que a inovação tecnológica precisa gerar soluções práticas, caso contrário, não terá efeito.
O valor da regulamentação
Seckelmann questionou se havia uma visão clara de curto prazo para o setor. Macorin explicou que estão trabalhando em medidas legais que permitirão que uma pessoa se autoexclua formalmente. Ao ser questionado sobre o compartilhamento de informações entre operadores, confirmou que o SIGAP cumpre exatamente essa função, permitindo acompanhar cada jogador e ter uma visão completa do panorama regulatório.
Vellozo Jr. também refletiu sobre o sentido da regulamentação: “Se ela não deixa claro para os operadores o valor do mercado, então, há um problema prévio. Uma regulamentação inteligente mostra claramente os benefícios para operadores”.
Macorin reforçou que, em sua visão, o verdadeiro valor da regulamentação está na segurança do consumidor. É fundamental que operadores certificados tenham a visibilidade necessária, dentro de regras claras e com coleta de dados eficiente.
O painel concluiu ressaltando que o Brasil construiu em tempo recorde uma infraestrutura digital que poucos mercados possuem. No entanto, o desafio atual vai além da tecnologia: é encontrar o equilíbrio entre proteção e burocracia, entre controle e experiência do usuário, e entre o mercado legal e o ilegal. A tecnologia já existe, e o desafio é garantir que a regulamentação permita que essa infraestrutura digital atue como ferramenta de suporte sem se tornar uma armadilha.
Todos os painéis do SBC Summit Rio 2026 serão disponibilizados no SBC Connect. Clique aqui para se inscrever.
Receba um resumo com as principais notícias sobre o mercado de jogos online e de apostas esportivas no Brasil através do link. A newsletter é enviada toda segunda, terça e quinta-feira, sempre às 17 horas.
O mercado brasileiro de apostas é sustentado por tecnologias recentemente implementadas para dar suporte à complexa dinâmica estrutural do setor. Enquanto o jogador escolhe a partida, insere os dados do
Participe da IGI Expo 2026: https://igi-expo.com/


