Nos últimos meses, o debate público brasileiro foi tomado por uma tese recorrente: o crescimento vertiginoso das plataformas de apostas de quota fixa (as chamadas bets) seria o grande responsável pela atual crise de inadimplência das famílias.
Contudo, um estudo aprofundado divulgado pela LCA Consultoria Econômica na última terça-feira (14) revelou que essa narrativa não se sustenta nos dados.
A verdadeira raiz do problema no país está longe do setor de entretenimento digital e mora muito mais perto das instituições financeiras tradicionais.
Por que as apostas não explicam o rombo no orçamento familiar
Para culpar um setor pelo endividamento de uma nação, seu impacto financeiro precisaria ser massivo.
De acordo com o levantamento da LCA, baseado em dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF), o gasto líquido médio de um apostador brasileiro é de apenas R$ 122,00 por mês.
Considerando a renda média habitual do trabalhador, isso compromete meros 3,3% do orçamento individual mensal.
Em termos macroeconômicos, a relevância do setor no orçamento agregado prova que as bets não têm força para desestabilizar a economia popular.
As apostas representam 0,46% do consumo total das famílias brasileiras, o equivalente a apenas 0,3% do PIB nacional.
Para fins de comparação, os brasileiros gastam uma proporção significativamente maior de suas rendas com serviços de streaming (0,86%) ou na aquisição de aparelhos de celular e acessórios (1,88%) do que nas plataformas de apostas.
Além disso, os dados demográficos evidenciam que apostadores e inadimplentes são, em sua essência, públicos distintos.
Enquanto o mercado de apostas é amplamente dominado por homens (68,3%) e majoritariamente jovem (com 85% dos usuários tendo até 40 anos), a população inadimplente é muito mais envelhecida (55% possuem mais de 41 anos) e equilibrada entre os gêneros (com as mulheres representando 50,39% dos CPFs negativados).
Onde mora o real perigo: a armadilha do crédito rotativo e dos juros
Atualmente, o custo das dívidas pressiona brutalmente o orçamento familiar, com as pessoas comprometendo cerca de 29% de suas rendas apenas para pagar juros e amortizações devidas aos bancos.
O estudo aponta que a verdadeira raiz da inadimplência não é necessariamente o tamanho da dívida, mas a sua qualidade precária.
O brasileiro tem recorrido massivamente a linhas de crédito emergenciais de curto prazo, impulsionado pela facilidade tecnológica e pela falta de educação financeira.
O problema central é que essas são as modalidades mais caras do mercado: os juros cobrados no cartão de crédito rotativo, por exemplo, chegam a exorbitantes 438% ao ano.
Não por acaso, é exatamente nessa linha que a crise se concentra, com a inadimplência do rotativo atingindo a alarmante marca de 64,5%.
Hoje, o Brasil possui a segunda maior taxa de juros real do mundo (9,51%), ficando atrás apenas da Turquia e cobrando juros reais superiores aos de países em guerra (como a Rússia) ou em colapso econômico prolongado (como a Argentina).
Em suma, as evidências apontam que culpar o setor de apostas pela crise de inadimplência é focar no alvo errado.
O endividamento patológico das famílias é o sintoma de um problema estrutural histórico: a combinação tóxica entre a oferta facilitada de crédito , o baixo letramento financeiro da população para lidar com esses recursos e a cobrança contínua de taxas de juros que estão entre as mais abusivas do planeta.
Confira o documento na íntegra:
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