Por conta da Segunda Guerra Mundial, as Copas do Mundo previstas para 1942 e 1946 não aconteceram. Porém, o intervalo de 12 anos entre o Mundial de 1938, disputado na França, e o de 1950, que aconteceu no Brasil, foi o suficiente para se observar um grande salto, principalmente tecnológico, na construção das bolas do torneio.
Na edição de 1938, a bola oficial foi fornecida pela fabricante francesa “Allen”. Composta por 13 painéis de couro costurados à mão e utilizando cadarços de algodão para fechar a abertura da câmara de ar, a produção do modelo acontecia de maneira praticamente artesanal. No entanto, foi nessa Copa do Mundo que se começou a entender que a bola poderia ter algum potencial comercial e também publicitário.
Isso porque a empresa francesa desenvolveu uma estratégia de marketing em que, antes do início das partidas, uma bola com a marca “Allen” visivelmente impressa era colocada sobre um pedestal no círculo central do campo.

Esta bola era destinada exclusivamente para ser fotografada pela imprensa, garantindo exposição para a marca. No entanto, as bolas que de fato eram usadas nos jogos não estampavam qualquer marca ou logotipo.
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Para explorar a evolução histórica e entender as estratégias da Fifa por trás das bolas dos Mundiais, a Máquina do Esporte apresenta a segunda reportagem especial da série de conteúdos especiais sobre os negócios em torno das bolas oficiais das Copas do Mundo.
Veja a seguir a evolução tecnológica e dos negócios em torno das bolas das cinco Copas do Mundo disputadas entre 1950 e 1966, as últimas edições antes da Adidas começar a produzir as bolas do torneio.
Evolução depois de 12 anos (1950)
A Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil, marcou o primeiro grande salto tecnológico das bolas oficiais do torneio. Desenvolvida pela empresa argentina “Tossolini, Valbonesi, Polo & Cia”, a “Superball Duplo T” foi a primeira bola da história da competição a contar com uma válvula de enchimento interna, o que permitiu a regulagem da pressão do modelo e ainda dispensou de vez as costuras externas usadas nas versões anteriores do Mundial.
Vale destacar que essa tecnologia já era utilizada nas bolas do futebol argentino há algum tempo, porém, devido ao vácuo de 12 anos sem Copas do Mundo, o uso de bolas com câmaras infláveis internas no torneio da Fifa só foi acontecer em 1950.
A abertura de uma filial da “Tossolini, Valbonesi, Polo & Cia” no Brasil no fim dos anos 1940 foi o que permitiu a empresa ser escolhida para produzir a bola oficial do Mundial de 1950, que deveria ser produzida localmente dado o cenário e os custos de logística e importação de produtos na época. Para reforçar a questão da fabricação em solo nacional, a companhia ainda incluiu o termo “Indústria Brasileira” estampado abaixo do nome “Superball Duplo T” nas bolas produzidas para a Copa do Mundo.
O modelo contava com 12 painéis idênticos em couro, porém mais leves e com bordas arredondadas, reduzindo a tensão e protegendo mais as costuras, o que proporcionou uma durabilidade e estabilidade maior ao modelo. A “Superball Duplo T” ainda foi a primeira bola da história das Copas a ser utilizada como versão padrão para todos os jogos e também a permitir a impressão de logotipos e textos em sua superfície.
A bola amarela de 18 painéis (1954)
A Copa do Mundo de 1954, sediada pela Suíça, foi a primeira da história a ser transmitida ao vivo pela televisão, mas ainda em preto e branco. À época, o equipamento começava a se popularizar, principalmente na Europa, e isso impactou diretamente na definição da bola oficial do Mundial.
Isso porque as bolas das edições anteriores eram feitas em tons escuros de couro, o que poderia gerar dificuldades para os telespectadores identificarem a bola no campo de jogo, considerando-se que as transmissões ainda não eram coloridas. A partir dessa questão, foi desenvolvido um modelo na cor amarela com o objetivo de destacar mais a bola na televisão, principalmente em jogos com chuva e campos com muita lama.
Batizado de “Swiss World Champion”, o modelo também foi o primeiro a ser produzido com 18 painéis para a Copa do Mundo de forma oficial. Com fabricação da empresa suíça Kost Sport, localizada na cidade de Basel, as bolas eram feitas de couro engraxado e costurada à mão com fios de náilon, ao invés das linhas de algodão.
Além disso, a Fifa ainda voltou atrás na política adotada no Mundial do Brasil e criou uma regra que proibia a impressão de qualquer tipo de marcas ou logotipos nas bolas da Copa do Mundo de 1954.
O concurso para a bola da Copa (1958)
Para a Copa do Mundo de 1958, disputada na Suécia, a Fifa inovou e organizou um concurso para definir a bola oficial da competição. Com 102 candidatos de diversos países dispostos a fornecer o modelo que seria usado no Mundial, o modelo vencedor ficou por conta da empresa sueca “Sydsvenska Läder och Remfabriken”.
A marca criou uma bola, batizada de “Top Star”, que combinava 24 painéis de couro com revestimento de cera impermeabilizante para resolver o problema da absorção de água, que deixou os modelos dos Mundiais anteriores mais pesados em jogos com chuva, prejudicando a qualidade das partidas.

A “Top Star” também contava com uma costura em zigue-zague que distribuía melhor a pressão interna, aumentando a durabilidade do modelo. O processo de escolha da bola envolveu uma série de testes com diversas versões em laboratórios suecos e validação por uma equipe de oficiais da Fifa em Estocolmo, capital do país.
Cada seleção participante da Copa do Mundo de 1958 ainda recebeu 30 bolas “Top Star” para usar em treinos e jogos durante o torneio. Também foram criadas versões do modelo em cores claras para que houvesse um destaque maior nas transmissões televisivas das partidas com chuva. Além disso, a regra que impedia a impressão de logotipos e marcas nas bolas seguiu em vigor neste Mundial.
Críticas à bola chilena (1962)
A bola oficial da Copa do Mundo de 1962, disputada no Chile, ficou marcada pela baixa qualidade. Criticada pelos jogadores por absorver mais água do que a média dos modelos da época, a “Crack” ainda contava com um revestimento colorido frágil que começava a se desfazer com pouco tempo de uso.
Produzida pela fábrica chilena Custodio Zamora, a bola contava com 18 painéis de couro curvos e com diferentes formatos, sendo alguns deles hexagonais e outros retangulares. O modelo ainda era totalmente costurado à mão e predominantemente marrom-claro.

Apesar dos pontos negativos, a “Crack” foi a primeira bola da Copa do Mundo a ter a válvula de enchimento feita de látex, o que ajudava a reter o ar por mais tempo dentro do modelo. Além disso, a Fifa ainda permitiu a impressão de marcas e inscrições na bola, ao contrário do que havia acontecido nas edições de 1954 e 1958 do Mundial.
Por conta das críticas e da baixa performance da “Crack”, a organização da Copa do Mundo de 1962 encomendou cerca de 100 bolas “Top Star”, versão oficial do Mundial anterior, o de 1958, que eram fabricadas na Europa, para serem usadas como modelos alternativos durante a competição. Ainda assim, a “Crack” foi utilizada em 23 das 32 partidas do torneio.
Escolha minuciosa (1966)
Depois do fracasso da bola chilena da Copa de 1962, a escolha do modelo oficial do Mundial de 1966, sediado pela Inglaterra, envolveu um processo rigoroso de testes às cegas na sede da Football Association (FA). No total, 111 bolas de diferentes fabricantes foram avaliadas, sendo que 48 delas falharam logo nas especificações iniciais.
Na última etapa, oito empresas finalistas disputaram para ver quem fabricaria a bola oficial do Mundial. Após a seleção final, a Slazenger, uma marca britânica mais conhecida por seus equipamentos de esportes de raquete do que propriamente pelo futebol, foi escolhida como vencedora do processo.
Foi assim que nasceu a “Challenge 4-Star”, último modelo a anteceder o império da Adidas como fornecedora oficial das bolas das Copas do Mundo.
Feita de couro e com uma estrutura composta por 25 painéis, a “Challenge 4-Star” tinha um design parecido com o da “Top Star”, do Mundial de 1958, e também contava com válvula de enchimento de látex, assim como a Crack.
O modelo foi produzido nas cores branca, amarela e laranja, sendo que a versão mais clara foi a mais utilizada durante a competição por ser mais visível nas transmissões em dias de chuva e em preto e branco.

No total, foram encomendadas cerca de 400 unidades da “Challenge 4-Star” para a competição e, para garantir que os jogadores estivessem adaptados ao modelo, a organização do Mundial enviou as bolas para as federações nacionais de futebol com seis meses de antecedência.
Além disso, a Fifa ainda voltou atrás e passou a proibir novamente a inserção de marcas e logotipos nas bolas dos jogos e treinos oficiais das seleções, assim como havia feito nos Mundiais de 1954 e 1958. Porém, as versões comerciais que eram vendidas aos torcedores tinham o nome da fabricante e do modelo, além de quatro estrelas que representavam a bola.
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A partir do Mundial disputado no Brasil, as bolas começaram a apresentar saltos tecnológicos voltados para redução de peso e impermeabilização, ainda que com pouco apelo comercial
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