A Gamban, empresa que oferece uma ferramenta de bloqueio de acesso a sites e aplicativos de apostas e cassinos online, defende que o combate à ludopatia no Brasil deve ser estruturado em “camadas de exclusão”, combinando iniciativas públicas, mecanismos de autoexclusão e soluções tecnológicas capazes de alcançar também o mercado ilegal, que concentra cerca de 50% do volume de apostas feitas por brasileiros.
Em entrevista ao SBC Notícias Brasil durante o SBC Summit Rio 2026, Daniel Marangoni, agente de Suporte ao Cliente, e Daiana Sol D’Urso, responsável pelas Relações e pela Articulação na América Latina, explicaram como funciona o aplicativo da Gamban, detalharam o modelo de negócio da empresa e avaliaram os desafios do cenário brasileiro de apostas, que recentemente completou um ano de regulamentação.
O modus operandi da Gamban


Segundo Marangoni, a Gamban possui um aplicativo que realiza o bloqueio de plataformas de apostas em nível de dispositivo. Na prática, após a instalação, o usuário fica impedido de acessar casas de apostas e cassinos online no aparelho cadastrado. Marangoni afirmou que o público que busca a ferramenta é formado, sobretudo, por pessoas que já identificam um problema com apostas ou percebem que estão gastando mais do que podem e desejam criar uma barreira concreta para interromper esse comportamento.
Diferentemente de programas nacionais de autoexclusão, que normalmente combatem apenas sites autorizados, a Gamban diz atuar de forma abrangente, sem distinguir plataformas reguladas e irregulares. O especialista em atendimento ao cliente afirmou que esse é justamente um dos principais diferenciais da empresa em relação a mecanismos nacionais de autoexclusão, como o que vem sendo estruturado no Brasil.
“O diferencial da Gamban é que, por fazer o bloqueio a nível do dispositivo, o alcance é muito maior”, disse Marangoni. Ele acrescentou que uma mesma conta pode ser instalada em até 15 aparelhos, o que busca reduzir o risco de o usuário migrar para um celular ou computador desprotegido.
Outro ponto levantado pelos representantes da empresa é a impossibilidade de remover o aplicativo durante o período de assinatura contratado. De acordo com Marangoni, essa limitação existe como forma de proteção, já que recaídas logo após a decisão de parar de apostar seriam comuns entre pessoas com comportamento problemático. Assim, uma vez instalado e ativado, o bloqueio permanece em vigor até o fim do plano, seja ele um plano de um mês ou de 12 meses.
Para D’Urso, porém, a discussão não deve ser tratada em termos de concorrência entre soluções privadas e plataformas públicas de autoexclusão. Segundo ela, os dois modelos podem atuar de forma complementar.
“Não devemos falar sobre a diferença entre essas plataformas e nossos serviços, mas sim como eles se complementam, porque nós podemos trabalhar juntos”, afirmou D’Urso.
D’Urso explicou que a proposta da Gamban é funcionar como uma camada adicional de proteção, especialmente para usuários que, mesmo excluídos de operadores licenciados, ainda conseguem acessar sites ilegais.
Segundo Marangoni, mesmo em países que já contam com um programa consolidado de autoexclusão, como Reino Unido, Holanda e Noruega, o mercado clandestino continua sendo um problema. Por isso, a empresa vê espaço para oferecer uma ferramenta complementar.
No momento, a Gamban ainda não possui acordo com a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), embora eles já tenham feito contato com o órgão regulador de apostas no Brasil.
Na visão dele, um eventual arranjo com o governo brasileiro poderia fazer com que a ferramenta fosse indicada como recurso adicional dentro da estratégia pública de jogo responsável, ao lado do sistema centralizado de autoexclusão dos sites de apostas e dos serviços de saúde, como o teleatendimento gratuito oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O tamanho do mercado ilegal de apostas

Durante a entrevista, a empresa também chamou a atenção para a dimensão do mercado ilegal. Questionado sobre a velocidade de resposta da Gamban para identificar novas plataformas, Marangoni afirmou que o bloqueio é rápido e ocorre tanto por mecanismos automatizados quanto por revisão manual.
Segundo ele, a empresa bloqueia, em média, 700 sites e aplicativos por dia e já bloqueou cerca de 450 mil sites e apps até agora.
D’Urso explicou que a empresa utiliza um sistema próprio para identificar plataformas, mas ressaltou que há supervisão humana no processo. Marangoni complementou afirmando que a Gamban não faz bloqueios “cegamente” e que parte do trabalho depende de busca manual por sites que escapam dos mecanismos automáticos.
Para Marangoni, esse esforço tem se tornado mais complexo porque os métodos usados por operadores ilegais estão cada vez mais sofisticados. Ao comentar o caso brasileiro, Marangoni descreveu o cenário como particularmente desafiador diante do ritmo de crescimento do setor, descrevendo-o como se fosse um jogo de gato e rato.
Recentemente, a secretária de Prêmios e Apostas, Daniele Correa Cardoso, informou que a SPA e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) derrubaram 29 mil plataformas ilegais de apostas desde 2025.
O modelo de negócio da Gamban
Os representantes da Gamban afirmaram que a empresa trabalha com assinaturas de baixo custo para o usuário final, em torno de R$ 15 por mês no mercado brasileiro, além de um período gratuito de teste de sete dias.
Marangoni disse que o valor foi pensado de forma proposital para ficar abaixo do depósito mínimo exigido por muitas casas de apostas, geralmente entre R$ 30 e R$ 50.
“O bloqueio é indiscriminado. Nós temos um ticket barato comparado com o que depositam em casas de apostas. Esse dinheiro que as pessoas depositam, normalmente elas apostam e perdem”, afirmou Marangoni.
Além da assinatura individual, a empresa mantém acordos comerciais com entidades e organizações que adquirem licenças e as distribuem gratuitamente a usuários que precisam de apoio. D’Urso afirmou que esse formato existe em diferentes mercados e que a política de preços da empresa busca se adaptar à realidade econômica de cada região.
Marangoni citou parcerias com organizações e entidades do Reino Unido, da Holanda, da Noruega e da Suécia, que incorporam o acesso à Gamban tanto em programas de jogo responsável quanto em centros de tratamento.
Como tratar o vício em apostas

Embora a Gamban tenha como foco o bloqueio tecnológico, os entrevistados ressaltaram que a ferramenta, sozinha, não resolve o problema do jogo compulsivo. Marangoni explicou que a Gamban orienta os usuários a buscar outros recursos em paralelo, como programas nacionais de autoexclusão, canais de apoio psicológico, ouvidorias e mecanismos de bloqueio de transações financeiras.
“Nós advogamos por autoexclusão por camadas”, disse Marangoni. Segundo ele, a recomendação é que a pessoa use todos os recursos disponíveis, dentro de sua condição, para tratar o problema da melhor forma possível.
A Gamban existe há 10 anos e disponibilizou seu serviço em português há menos de dois anos. Na época em que a versão em português foi ao ar, Jack Symons, fundador da Gamban, disse que o objetivo era “facilitar ainda mais o uso eficaz do Gamban por mais pessoas”, independentemente de onde elas estejam.
Ao avaliar o mercado brasileiro, Marangoni disse que, apesar do avanço do debate sobre jogo responsável, ainda será necessário acompanhar de perto se as medidas prometidas pelas plataformas e pelo mercado regulado serão implementadas de forma efetiva.
Para ele, o monitoramento governamental será importante, mas insuficiente diante do tamanho do mercado ilegal e das particularidades socioeconômicas do país. “As diferenças socioeconômicas entre o Brasil e os outros países que também implementaram esses programas são grandes”, afirmou.
Na visão da Gamban, a procura pela ferramenta deve partir tanto de quem já identificou uma dependência em apostas quanto de quem percebe sinais de risco e deseja agir preventivamente. Marangoni defendeu que a busca por ajuda deva ocorrer o quanto antes.
“Eu acho que o vício em jogos é análogo a qualquer outro vício, e se você fizesse essa pergunta para uma pessoa que é viciada em outra coisa, a resposta seria o quanto antes”, afirmou.
Ao comparar o Brasil com o restante da América Latina, D’Urso disse que o país reúne dinâmicas já observadas na região, mas em escala ampliada por causa do tamanho da população e da velocidade de crescimento da indústria.
Para D’Urso, esse avanço torna ainda mais necessário o fortalecimento de ferramentas de proteção. Ela afirmou que o que está sendo construído no Brasil pode, em alguns casos, servir de referência para outros mercados latino-americanos, embora tenha ponderado que cada país possui particularidades próprias e, por isso, não há um modelo que possa ser simplesmente reproduzido.
Para se aprofundar sobre vício em apostas, leia nossa entrevista com Gabriella de Andrade Boska, coordenadora de Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde, aqui.
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