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Surfando a onda da Copa do Mundo

Surfando a onda da Copa do Mundo

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Existe uma crença quase religiosa na indústria do esporte: quando a Copa do Mundo começa, todo o resto desaparece.

Patrocinadores redirecionam investimentos, veículos reorganizam suas pautas, torcedores mudam hábitos de consumo, e as conversas passam a girar em torno do futebol. Por isso, quando anunciamos no ano passado que a edição 2026 do Vivo Rio Pro apresentado por Corona Cero aconteceria em plena primeira fase da Copa do Mundo, muita gente achou que havíamos enlouquecido. A preocupação era compreensível, afinal, por que colocar o maior evento de surfe do mundo para disputar atenção com o maior evento esportivo do planeta?

Durante meses convivemos com essa dúvida. Hoje, olhando para trás, percebo que talvez estivéssemos fazendo a pergunta errada. A questão nunca foi se conseguiríamos competir com a Copa. A questão era se a World Surf League (WSL) e o surfe haviam se tornado relevantes o suficiente para participar da mesma conversa.

Se a Copa seria inevitavelmente a maior conversa do planeta, nossa estratégia não poderia ser ignorá-la. A janela do Vivo Rio Pro foi posicionada exatamente entre o segundo e o terceiro jogo da seleção brasileira na fase de grupos. A ideia era simples e poderosa ao mesmo tempo: construir a maior torcida do mundo. Durante o dia, milhares de pessoas torcendo pelos brasileiros na água e, à noite, os mesmos brasileiros torcendo pela seleção nos gramados. Por que não enxergar complementariedade ao invés de conflito entre os dois eventos?

Em vez de disputar espaço com o futebol, queríamos fazer parte da jornada emocional do torcedor brasileiro durante a Copa. De certa forma, os octacampeões mundiais no surfe ajudavam a empurrar a busca pelo hexacampeonato no futebol.

Os números sugerem que a estratégia funcionou. O Vivo Rio Pro produziu alguns dos maiores resultados de sua história. O “Maracanã do Surfe” voltou a receber ao redor de 400 mil pessoas, as ativações de patrocinadores bateram recordes, a repercussão digital ultrapassou nossas projeções mais otimistas, e o evento gerou um nível de conversa espontânea raramente visto em uma propriedade esportiva.

Existe uma palavra, aliás, que se tornou obsessão entre diretores de marketing e líderes de marketing das maiores empresas do mundo: “talkability”. Em tradução livre, a capacidade de gerar conversa. Não audiência. Não alcance. Conversa.

Durante décadas, as marcas compraram espaço para falar com os consumidores. Hoje, o desafio é muito mais difícil: fazer com que os consumidores falem sobre elas. Porque as pessoas raramente compartilham aquilo que simplesmente veem. Compartilham aquilo que ajuda a explicar quem elas são. Em um ambiente onde todos recebem milhares de estímulos diariamente, a atenção deixou de ser o recurso mais escasso. Escasso passou a ser o interesse genuíno, e é por isso que marketing, relações públicas, influência digital e redes sociais estão cada vez mais integrados. Todos perseguem o mesmo objetivo: construir relevância cultural.

E, além de uma estratégia de conteúdo muito bem coordenada e amplificada por criadores presentes no evento e também em outras cidades, fomos agraciados com acontecimentos que colocaram ainda mais o holofote no nosso esporte.

Em Paris, Pharrell Williams apresentou sua nova coleção para a Louis Vuitton inspirada na cultura do surfe. Não estamos falando de uma marca esportiva tentando parecer moderna; estamos falando de uma das marcas mais valiosas do planeta utilizando o surfe como símbolo de liberdade, autenticidade e desejo. Quando uma modalidade começa a influenciar moda, comportamento, turismo, entretenimento e consumo, ela deixa de ocupar apenas as páginas esportivas e passa a ocupar um espaço muito mais valioso: o espaço da cultura.

Como se isso não bastasse, a própria Copa resolveu colaborar. Milhões de brasileiros assistiam à seleção quando Matheus Cunha marcou e comemorou seus gols imitando um surfista. Em poucos minutos, comentaristas explicavam o gesto, jornalistas publicavam matérias sobre sua origem, e as redes sociais amplificavam a conversa. O surfe não estava disputando atenção com o futebol, estava inserido na maior conversa esportiva do planeta. Ao mesmo tempo, a revista Exame, publicação de negócios mais respeitada do Brasil, publicou uma extensa reportagem mostrando como o surfe brasileiro se transformou em uma potência esportiva, econômica e cultural.

Matheus Cunha “surfa” ao comemorar gol pela seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026 – Reprodução / Instagram (@cunha)

E como em um roteiro perfeitamente escrito para o esporte brasileiro, ainda faltava o desfecho. Na manhã decisiva do Vivo Rio Pro, Saquarema (RJ) amanheceu sob uma garoa fina e um vento frio que certamente não convidavam ninguém para a praia. Mesmo assim, antes mesmo do amanhecer completo, milhares de pessoas já caminhavam em direção à Praia de Itaúna. Famílias, surfistas, fãs e curiosos madrugaram para garantir um lugar na areia. À medida que Yago Dora avançava bateria após bateria, o “Maracanã do Surfe” transformava-se em um estádio a céu aberto, onde cada onda era acompanhada por aplausos, gritos e uma energia difícil de explicar para quem nunca esteve ali.

Quando a vitória foi confirmada, parecia que toda aquela sequência de acontecimentos encontrava sua conclusão perfeita. O gesto de Matheus Cunha nos gramados, a inspiração do surfe nas passarelas de Paris, a consolidação econômica da modalidade nas páginas de negócios, e, agora, um brasileiro vencendo diante da maior multidão do surfe mundial.

Enquanto os brasileiros sonhavam com o hexa nos gramados, os octacampeões mundiais do surfe ajudavam a construir uma das maiores celebrações da história do esporte nacional. E foi justamente essa conexão que transformou uma aposta considerada arriscada em alguns dos maiores recordes da nossa história, com números que serão revelados nas próximas semanas.

No fim, o craque Yago Dora levantou mais uma vez o troféu da etapa e, dessa vez, recebeu a maior premiação da história do esporte no país, que incluiu um carro. Mas a verdadeira conquista da semana foi coletiva: a WSL e o surfe demonstraram que atingiram um novo patamar, no qual performance esportiva, força econômica e relevância cultural passam a caminhar na mesma direção.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Ivan Martinho é presidente da World Surf League (WSL) na América Latina

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Estratégia da WSL com o Vivo Rio Pro foi se tornar complementar ao maior evento esportivo do planeta, não entrar em conflito; Pharrell Williams e Matheus Cunha ainda “ajudaram”, e o resultado foi um dos melhores da história do evento
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