O avanço do mercado preditivo no Brasil tem atraído novos empreendedores, operadores e provedores de tecnologia em busca de espaço em um segmento ainda sem enquadramento regulatório claro.
Para Carlos Santos, fundador da PreviLabel e ex-CEO da casa de apostas BetAki, esse cenário de indefinição não o impediu de apostar as fichas na expansão do setor. Pelo contrário: foi justamente a leitura de que o mercado estava no início e de que haveria uma corrida por posicionamento que levou Santos a deixar o iGaming e concentrar todos os esforços na PreviLabel.
Segundo Santos, a decisão de vender sua participação na BetAki foi influenciada pelo custo de operação no mercado regulado de apostas e pela instabilidade percebida no ambiente brasileiro. Na avaliação dele, a combinação entre tributação elevada, custos operacionais altos e incertezas sobre o rumo da regulamentação arriscava a operação da BetAki, uma empresa que passou a operar depois do boom inicial das casas de apostas no Brasil.
Ao mesmo tempo, a PreviLabel já vinha sendo desenvolvida em paralelo, o que facilitou a transição para um segmento que já despertou interesse de empresas nacionais e internacionais.
Ele afirma que a entrada antecipada no mercado preditivo foi pensada como uma disputa por timing. Assim como algumas casas de apostas se posicionaram antes da regulamentação e conseguiram ganhar tração, a aposta da PreviLabel foi chegar cedo a um nicho que ainda busca escala.
Nesse contexto, Santos sustenta que não basta oferecer uma plataforma de mercado de previsões, mas sim oferecer liquidez para seus clientes, já que o modelo depende da existência de contraparte e de volume suficiente para sustentar as negociações.
Produto moldado ao perfil do usuário brasileiro
Parte da estratégia da PreviLabel, segundo o executivo, foi adaptar a experiência do mercado preditivo ao comportamento do público brasileiro. Santos diz que a vivência anterior com o setor de apostas ajudou a empresa a identificar mais rapidamente qual formato teria maior aderência local.
Enquanto plataformas internacionais trabalham, em geral, com lógica mais próxima da compra de shares (ações), a PreviLabel optou por apresentar ao usuário uma experiência baseada em odds. A estrutura de back-end, segundo ele, permanece ancorada em share, mas o front-end foi feito para dialogar com um público já acostumado ao ecossistema das apostas online. A leitura da empresa é que, ao ver uma odd, o usuário brasileiro entende com facilidade o potencial retorno da operação.
Esse conhecimento sobre o perfil do consumidor também influenciou a escolha dos produtos ofertados. Santos afirma que o brasileiro tende a buscar eventos de resolução rápida e não contratos com prazo longo de definição. Por isso, a empresa passou a trabalhar com mercados curtos, diários e semanais, além de contratos de prazo maior ligados a temas como política e Copa do Mundo.
Na prática, a lógica é aproximar a experiência de algo mais dinâmico, com ciclos constantes de entrada e saída, em um formato que o executivo compara a um “day trade” popularizado. A intenção, segundo ele, é manter o usuário ativo ao longo do dia com previsões que sejam decididas em minutos, horas ou no máximo dentro de um intervalo curto.
Engajamento, viralização e mercados de entretenimento
A busca por escala rápida também levou a PreviLabel a apostar, nesta fase inicial, em contratos mais voltados ao entretenimento e à viralização. Santos cita como exemplo mercados relacionados a influenciadores, como previsões sobre horários de publicações de nomes populares nas redes sociais, como Virginia e Carlinhos Maia.
Na entrevista, ele reconhece que esse tipo de contrato não parece sustentável no longo prazo e admite inclusive o risco de manipulação caso os próprios influenciadores percebam potencial de ganho relevante sobre esses eventos. Ainda assim, afirma que tais produtos cumprem uma função tática de gerar visibilidade, engajamento e hype para a PreviLabel em um momento de construção de mercado.

A mesma lógica vale, segundo ele, para outros contratos que vêm repercutindo nas redes e em transmissões ao vivo, tal como a previsão de quantos carros vão passar em uma avenida após um tempo pré-determinado.
A avaliação da empresa é que uma estratégia mais institucional, focada desde o início em um discurso de derivativo de investimento, levaria mais tempo para atrair público. Por isso, a operação decidiu priorizar produtos que consigam circular com rapidez no ambiente digital e acelerar o reconhecimento da marca, especialmente de olho na Copa do Mundo em junho e julho e nas eleições em outubro.
Público-alvo e disputa com grandes grupos
Embora reconheça a movimentação de instituições maiores em torno do mercado preditivo, Santos diz que a PreviLabel não mira, neste primeiro momento, o mesmo público de grupos como XP Investimentos e BTG Pactual. Segundo ele, essas instituições tendem a buscar clientes de maior poder aquisitivo, mais próximos de operações sofisticadas de hedge e derivativos.
A PreviLabel, por outro lado, quer falar com classes C e D e com um usuário descrito por ele como mais imediatista, mais acostumado ao consumo digital recorrente e mais propenso a operar tickets menores em produtos de resolução rápida.
E, de fato, nós fomos os primeiros a movimentar aqui no Brasil, trazendo tecnologia pra quem quisesse operar com liquidez, que é algo muito importante, é o ouro desse negócio. Não é só ter uma plataforma, é ter também infraestrutura, capacidade de escalar o negócio e oferecer liquidez para os clientes.
A lógica é ganhar volume e escalar a operação antes de adotar, gradualmente, uma postura mais próxima de uma plataforma de derivativos associada a temas de economia, eleições e assuntos globais.
Na visão do executivo, a entrada de grandes instituições não invalida o espaço para players menores, mas sim ajuda a legitimar o setor. Para Santos, haverá espaço para operadores focados em nichos e em mercados mais populares, que dificilmente seriam explorados por corretoras tradicionais. É nessa camada que a PreviLabel pretende se diferenciar.
A zona cinzenta atual e a defesa de uma regulação própria para o futuro
O mercado de previsões brasileiro ainda opera em uma zona cinzenta, nos mesmos moldes do mercado de apostas anos atrás, já que não há regulação própria em vigência no país
Para Santos, o ideal seria a construção de um marco específico, sem replicar o modelo das apostas ou do mercado financeiro tradicional. O executivo enxerga o mercado preditivo como uma atividade híbrida, que não é exatamente igual a apostas e nem se enquadra como corretagem ou instrumentos financeiros clássicos.
O fundador da PreviLabel também foi crítico ao desenho regulatório do iGaming no Brasil. Na avaliação dele, o modelo encareceu a operação formal, aumentou a pressão sobre quem tenta atuar dentro das regras e não foi acompanhado de fiscalização equivalente sobre o mercado ilegal.
Santos argumentou que esse desequilíbrio prejudica os operadores regulados, que passam a arcar com custos maiores de licença, aquisição e retenção, ao mesmo tempo em que disputam clientes com plataformas irregulares.

Ele também afirma que a falta de repressão mais contundente ao mercado ilegal estimulou a expansão dessas operações, inclusive com a entrada de plataformas estrangeiras. Para Santos, houve uma percepção entre esses operadores de que a penalização não seria suficientemente severa, o que teria favorecido uma pulverização de sites irregulares.
“Eu saí do mercado de iGaming porque eu tinha que seguir à risca tudo o que era imposto pela SPA, além de pagar altas tributações, valores caríssimos de aquisição de clientes e retenção e não poder competir com o mercado black”, disse Santos.
“Lá eles dão absurdo para os clientes ficarem na plataforma, bônus, cassino, saldo real e outros, enquanto a gente estava totalmente limitado, né? E ainda competindo com os grandes operadores que estavam há mais tempo no mercado. Então, a regulamentação do iGaming foi feita de uma forma muito desleal no Brasil”.
Para o mercado preditivo, Santos espera uma discussão mais aprofundada apenas em 2027, depois do ciclo eleitoral e da Copa do Mundo. Na visão dele, ainda não está claro se a eventual regulamentação passará pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF), pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou até por algum novo órgão.
Até lá, Santos disse que o foco da PreviLabel é operar com “seriedade, transparência e respaldo jurídico”, tanto para o operador quanto para os clientes.
Modelo white label e liquidez compartilhada
Além da leitura sobre o mercado de previsões, Santos detalhou o modelo de negócios da PreviLabel, que se posiciona como provedora de infraestrutura para empresários interessados em operar plataformas de previsão no Brasil. Segundo ele, a remuneração da empresa ocorre por revenue share sobre o lucro do cliente, começando em 20% e podendo cair para 15% ao mês em uma escala progressiva.
A operação nasceu estruturada em formato ‘white label’. Após a contratação, a PreviLabel recebe dados como domínio, identidade visual e informações corporativas, realiza onboarding e conformidade e sobe a plataforma em um intervalo de cinco a 10 dias. Depois disso, começa a etapa de treinamento e adaptação do operador ao novo mercado. Santos afirma já ter fechado mais de 15 contratos.

A PreviLabel trabalha com integrações individualizadas, e não com uma estrutura universal compartilhada entre todos os clientes, o que, segundo ele, reduz riscos operacionais. Também afirma que a plataforma deve ganhar novas camadas de personalização para que, no futuro, cada operador tenha mais autonomia sobre o front-end e possa adaptar a experiência à própria marca.
Mas o ponto que ele destaca como principal diferencial é a liquidez compartilhada. Segundo o executivo, a PreviLabel mantém uma pool única que abastece diferentes operadores conectados à sua infraestrutura. Na prática, isso permite que clientes de plataformas distintas acessem a mesma base de liquidez, o que facilitaria a entrada de novos operadores no mercado e reduziria uma das principais barreiras para escalar esse tipo de negócio.
Previmarket como laboratório
A PreviLabel também opera a Previmarket, mas Santos afirma que a função da plataforma não é necessariamente liderar a expansão comercial do grupo. Segundo o executivo, a operação serve como laboratório para entender o comportamento do usuário, medir custos de aquisição e retenção e testar a aderência de diferentes produtos.

Como se trata de um mercado novo, Santos diz que seria difícil apresentar a potenciais parceiros respostas consolidadas sobre métricas como CPA, FTD e comportamento do público sem uma experiência própria em operação. Nesse sentido, a Previmarket funciona como uma espécie de vitrine prática e base de aprendizado para os planos da PreviLabel.
Associação setorial e reação do mercado de apostas
Durante a entrevista, Santos afirmou que já existe articulação entre agentes do setor para a criação de uma associação voltada aos interesses do mercado de previsões. Segundo ele, o grupo reúne pessoas ligadas a casas de apostas e a outros segmentos e tem feito reuniões periódicas com o objetivo de começar, desde já, a aproximação com órgãos que possam futuramente regular a atividade.
Nota do editor: A entrevista com Santos foi realizada antes do anúncio oficial da Associação Brasileira de Mercados Preditivos (ABPred), que se tornou pública em 15 de abril.
Ao comentar a reação de casas de apostas ao avanço de plataformas como Kalshi e Polymarket, duas empresas já estabelecidas fora do Brasil, ele minimizou a possibilidade de tentativas de bloqueio sustentarem-se no longo prazo.
Para o fundador da PreviLabel, parte dessa movimentação decorre da disputa competitiva, mas o setor tradicional de apostas deveria, antes de tudo, concentrar esforços no combate ao mercado ilegal já consolidado no país.
“Eles nem sabem exatamente qual setor exato vai se enquadrar nesse mercado de previsões. Então, acho que é aquele ditado: ‘cuida primeiro da tua mulher dentro de casa e depois cuida da mulher do vizinho’”, brincou.
A mesma visão se estende ao bloqueio da Polymarket na Argentina. Santos entende que restrições podem ser usadas como demonstração de força em um primeiro momento, mas argumenta que, no longo prazo, a tendência mais racional seria a construção de uma regulamentação capaz de gerar arrecadação, empregos e atividade econômica.
Após entrevistar Santos, o SBC Notícias Brasil entrou em contato com a SPA e a CVM e perguntou quanto tempo falta para o mercado preditivo ser regulamentado no Brasil, entre outras coisas. Você pode ler o posicionamento oficial destes dois órgãos abaixo.
Nota oficial da SPA
Em contato com o SBC Notícias Brasil, a SPA reforçou que não há empresas brasileiras “formalmente autorizadas” a atuar no mercado de previsões. Você pode ler o posicionamento completo da pasta abaixo.
“O mercado de previsão integra agenda de análise interna da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, com estudos preliminares em curso. Cabe citar que, no momento, não há empresas brasileiras formalmente autorizadas pela SPA a atuar nesse segmento.
A Secretaria recebeu nota técnica de empresas do setor, na qual são apresentadas avaliações sobre os chamados mercados preditivos e trata do tema com cautela, responsabilidade institucional e foco na prevenção de lacunas regulatórias, buscando assegurar coerência com o arcabouço legal vigente.
Quaisquer outras avaliações regulatórias sobre o assunto dependem da conclusão das análises técnicas em curso e serão conduzidas em articulação com os órgãos competentes, entre eles a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), no intuito de análise acerca de eventuais interfaces regulatórias.”
Nota oficial da CVM
Já a CVM afirmou que está permanentemente modernizando a “regulamentação e a supervisão” para atender demandas do mercado. Confira o posicionamento completo da autarquia abaixo.
“Inicialmente, é importante destacar que a CVM acompanha, no âmbito de suas competências legais, a evolução de iniciativas que possam ter interface com o mercado de capitais, inclusive por meio de interações institucionais com a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF).
Vale ressaltar que a Autarquia está permanentemente modernizando a regulamentação e a supervisão, em função de fatores diversos, como inovação, experiência da supervisão e demandas de agentes de mercado.
No caso de instrumentos que apresentem características semelhantes a valores mobiliários ou a derivativos, a análise da CVM, por meio de sua Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários (SMI), ocorre à luz da regulamentação vigente e das competências legais da Autarquia.
No âmbito dessa atuação, a SMI aprovou novos modelos de contratos derivativos propostos, restritos a investidores profissionais. Entre os instrumentos aprovados estão opções de compra e de venda sobre Índice Bovespa, dólar, Bitcoin, Ethereum, Solana, IPCA e PIB, bem como opções sobre contratos futuros de Bitcoin, Ethereum, Solana, mini dólar e mini Ibovespa.
Cabe esclarecer que a análise da CVM ocorreu sobre contratos derivativos que, na avaliação da área técnica, atendem às regras aplicáveis, ainda que possam ser descritos como instrumentos associados a eventos”.
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O avanço do mercado preditivo no Brasil tem atraído novos empreendedores, operadores e provedores de tecnologia em busca de espaço em um segmento ainda sem enquadramento regulatório claro. Para Carlos 
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