Cristiano Costa, EBAC, defende que debate sobre compulsão vá além das apostas

O debate sobre comportamento compulsivo no Brasil não deve se limitar ao setor de apostas, segundo Cristiano Costa, psicólogo que atua como Diretor de Conhecimento (CKO) na Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC).

Em entrevista exclusiva ao SBC Notícias Brasil, Costa afirmou que a sociedade brasileira está inserida em um modelo econômico marcado por estímulos contínuos ao consumo excessivo, o que, em sua avaliação, torna insuficiente tratar a compulsão em apostas como um fenômeno isolado.


Para ele, há uma lógica cultural que associa o consumo ao sucesso, ao poder e à saúde financeira. Essa dinâmica, segundo Costa, atravessa diferentes setores, como tecnologia, moda, alimentação e crédito.

“A gente vive em uma sociedade e em um modelo econômico altamente movido pela compulsividade. Há um franco incentivo ao consumo desmedido”, afirmou.

Foto tirada de Cristiano Costa, Diretor de Conhecimento da EBAC.
EBAC. Crédito: Cristiano Costa/LinkedIn

Costa citou o crédito como um dos principais mecanismos de estímulo ao consumo, ao lembrar que muitas famílias brasileiras recorrem a formas de endividamento para manter padrões de compra.


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Leia: Endividamento das famílias brasileiras: fatores por trás do aumento da inadimplência

Quadro de compulsividade vai além das apostas

O Diretor de Conhecimento da EBAC avalia que as apostas também podem estar sendo usadas por parte da população como tentativa de obter ganhos financeiros adicionais, especialmente quando outras possibilidades de “alavancagem” já foram esgotadas.

Apesar disso, o especialista ressaltou que o setor de iGaming é um dos poucos que passaram a ser regulados especificamente sob a ótica do risco compulsivo. Para ele, o modelo de gestão de risco adotado nas apostas poderia servir de referência para outros segmentos da economia.

“No nosso entendimento, esse paradigma, esse modelo, essa mentalidade de gestão de risco também precisa ser aplicada em outros setores. Por que o varejo não pergunta ao consumidor se ele realmente precisa daquela blusinha, ou trocar aquela TV, ou trocar o modelo de smartphone?”, questionou Costa.

Costa também criticou a forma como as apostas são, em sua visão, frequentemente tratadas como responsáveis por problemas mais amplos de endividamento e compulsividade.

Segundo ele, as apostas acabam ocupando o papel de “para-raios” em momentos em que a economia mostra sinais de fragilidade. “Isso não é verdade. É um lobby de desinformação que termina comprometendo um modelo de gestão do risco compulsivo que é inédito, que é muito interessante e que começa a apresentar resultados”, disse.

O executivo da EBAC afirmou ainda que as apostas se tornaram um “alvo fácil” por tocarem em elementos do conservadorismo brasileiro, sobretudo na associação histórica entre jogo e vadiagem.

Para Costa, o discurso de que as apostas seriam destruidoras das famílias ignora que outros tipos de compulsão também afetam a dinâmica familiar, como consumo abusivo de álcool, compras compulsivas e outros comportamentos repetitivos.

A área da saúde precisa de mais recursos

Fachada do prédio do Ministério da Saúde do Brasil.
Prédio do Ministério da Saúde. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ao comentar a destinação de recursos públicos arrecadados com o mercado regulado, Costa defendeu maior repasse para a área da saúde. Ele afirmou que há uma percepção crescente de que o percentual destinado ao Ministério da Saúde (MS) é insuficiente diante dos desafios de atendimento em saúde mental no país.

Segundo ele, o lançamento do teleatendimento em saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) é um avanço importante, especialmente porque o atendimento presencial enfrenta limitações estruturais.

“Se o vício é online, o tratamento também tem que ser online”, defendeu Costa.

Para o psicólogo, ampliar o atendimento remoto pode ajudar a reduzir barreiras de acesso à psicoterapia e ao acolhimento especializado, ainda que ele reconheça a atuação dos profissionais nos equipamentos públicos de saúde mental, como Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), em meio à escassez de recursos.

O papel da EBAC e detalhes da regulamentação das apostas

O especialista explicou que a EBAC atua em uma primeira camada de proteção, voltada à psicoeducação. Segundo ele, a proposta não é substituir psicoterapia, mas oferecer orientação sobre compulsividade, suas origens e os mecanismos de jogo responsável.

Segundo Costa, todo comportamento compulsivo tem relação com a história de vida de cada pessoa, o que ajuda a explicar por que diferentes indivíduos desenvolvem compulsões distintas, seja em substâncias psicoativas, compras, apostas, sexo ou tabaco.

Costa afirmou que o transtorno do jogo, embora não envolva diretamente uma substância psicoativa, costuma apresentar comorbidades. Ele citou o consumo de álcool e tabaco como exemplos de comportamentos que podem aparecer associados ao jogo, especialmente em ambientes físicos, como cassinos.

“Existe uma comorbidade muito evidente entre o transtorno do jogo e outras compulsividades, como é o caso do álcool, do tabaco, do próprio sexo, que também possui um perfil compulsivo”, afirmou Costa.

Ao mesmo tempo, ele ponderou que não se trata necessariamente de uma relação simples de gatilho. “Quem gosta do jogo, gosta do jogo. E quando essa pessoa está jogando, ela bebe ou fuma também.”

O trabalho da EBAC divide-se entre apostadores e operadores. Do lado do consumidor, a atuação é baseada em psicoeducação, com orientações sobre compulsividade, limites e ferramentas de jogo responsável. Do lado das empresas, a entidade oferece treinamentos para equipes de atendimento, lideranças e ouvidorias, além de apoio na elaboração de termos e condições.

Logo da EBAC.
A EBAC foi fundada em 2023. Crédito: EBAC

O psicólogo destacou que o ambiente online permite um nível de rastreabilidade que não existe em outros mercados. Operadores conseguem acompanhar tempo de tela, horários de jogo, depósitos e volume movimentado na plataforma. Na visão dele, essa característica foi um dos fatores que permitiram ao governo avançar na regulação do setor.

Costa afirmou que o jogo responsável deve partir da capacidade de cada pessoa absorver perdas. Para ele, o centro da discussão não é apenas o valor apostado, mas o impacto financeiro que uma eventual perda pode causar ao apostador.

“Se você não tem condições de absorver uma perda de, vamos dizer, R$ 50, não aposte. Mas se você tem capacidade de perder, por exemplo, R$ 5 mil, é um direito seu apostar para concorrer à chance de ganhar o prêmio ou simplesmente de se divertir com sua capacidade preditiva”, disse.

Segundo Costa, a regulamentação permite tanto medidas preventivas, como mensagens de alerta e sugestões de limites, quanto providências mais restritivas. Entre elas, estão suspensão temporária, bloqueio de conta e exclusão do usuário da base da operadora.

Na avaliação do especialista, operadores que adotam esse tipo de prática demonstram maturidade regulatória, pois compreendem que apostadores com ludopatia ou perfil de risco não são bons clientes para o setor.

Costa também defendeu que a responsabilidade seja compartilhada entre operadores e apostadores. Segundo ele, a existência de normas cria obrigações para as empresas, mas também exige que os consumidores observem recomendações de jogo responsável. “Os apostadores também precisam fazer a parte deles e entender que estão ali em uma condição vulnerável”, afirmou.

Governo e setor deveriam organizar mais campanhas de conscientização

Ao decorrer da entrevista, Costa apontou para a necessidade de tratar o tema das apostas de forma preventiva, inclusive entre adolescentes. Embora o jogo seja permitido apenas para maiores de 18 anos, ele afirmou que escolas podem abordar o assunto sob a perspectiva da promoção da saúde mental.

Para ele, a regulamentação já prevê que operadores promovam campanhas próprias não apenas para seus clientes, mas também para a sociedade. Costa afirmou que uma das mensagens mais urgentes é ensinar a população a diferenciar casas reguladas de plataformas ilegais. O critério mais básico, segundo ele, é o domínio “.bet.br”, obrigatório para operadores autorizados no mercado brasileiro.

“Precisa ter uma ampla campanha dizendo: ‘Olha, se você vai apostar, só aposte numa casa que termina no domínio .bet.br’”, afirmou.

Costa explicou que muitos apostadores ainda não sabem identificar uma plataforma legalizada, o que aumenta a exposição a operadores clandestinos, que não seguem a cartilha do jogo responsável.


Leia também a entrevista que fizemos com Gabriella Boska, coordenadora de Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde. A reportagem está disponível aqui.


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