De Juanito a Gauchito: A era das mascotes “humanas” na Copa do Mundo

Depois de introduzir a história e a estratégia por trás da primeira mascote oficial de uma Copa do Mundo, o World Cup Willie, um leão antropomórfico que representou o Mundial de 1966 realizado na Inglaterra, a série de conteúdos especiais da Máquina do Esporte sobre os negócios das mascotes da Fifa segue para um movimento que perdurou por três edições do torneio.

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Do Mundial de 1970, disputado no México, ao de 1978, que aconteceu na Argentina, todos os personagens criados para o evento foram figuras humanas com características típicas dos países anfitriões da competição. Veja a seguir a estratégia e os negócios envolvendo cada uma das mascotes das três Copas do Mundo que aconteceram no período. 

Juanito Maravilla: O início de uma era

Para a Copa do Mundo de 1970, realizada no México, a organização do evento queria uma mascote que representasse a cultura e as principais características do país anfitrião do torneio. Para isso, contratou o designer gráfico e publicitário Juan Gonzalez Martinez para ser o encarregado de criar um personagem que expressasse a diversão e o espírito jovem do futebol, assim como a paixão dos mexicanos pela modalidade. 

Além disso, a Copa do Mundo de 1970 foi a primeira a ser transmitida globalmente em cores pela televisão, o que aumentaria de forma considerável a visibilidade dos símbolos associados ao evento. Foi nesse contexto que surgiu Juanito Maravilla, um menino de 11 anos “gordinho e bochechudo”, que vestia um uniforme verde e branco da seleção mexicana, chuteiras pretas com as tradicionais três listras da Adidas, patrocinadora do Mundial, e um “sombrero”, chapéu típico do país, com a inscrição “México 70”.


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Juanito Maravilla foi a mascote da Copa do Mundo de 1970 – Reprodução

A escolha de uma figura humana para representar a mascote do Mundial de 1970 não foi à toa. Os organizadores da competição acreditavam que humanizar a personagem oficial do evento, ao invés de usar um modelo animal, como na Copa anterior, poderia gerar mais conexão e se relacionar de forma mais eficaz com o público, principalmente com as crianças.

O lançamento de Juanito aconteceu durante uma ação publicitária pré-Copa do Mundo, com grande cobertura da televisão mexicana. A estratégia de promoção incluiu aparições da mascote em programas de TV infantis e integração com a campanha “México 70”, focada em promover o turismo no país em torno do Mundial. O personagem também apareceu em materiais educacionais distribuídos em escolas mexicanas, com o objetivo de aumentar a conexão do torneio com o público infantil. 

O licenciamento de Juanito foi gerenciado diretamente pelo comitê organizador mexicano da Copa do Mundo e os principais tipos de produtos incluíram camisetas com a imagem da mascote, réplicas de “sombreros” e brinquedos de pelúcia. Com uma estratégia comercial mais limitada em relação à adotada pelo Mundial de 1966 com o World Cup Willie, o foco foi priorizar o mercado interno mexicano e, principalmente, produtos para turistas com fabricantes locais produzindo os souvenirs.

Mas a principal inovação em termos de licenciamento da Copa do Mundo de 1970 foi o lançamento do primeiro álbum de figurinhas em escala global do torneio junto à Panini. Isso gerou um consumo internacional maior do evento e dos seus principais símbolos, entre eles os jogadores, as seleções e o próprio Juanito.

Além disso, o impacto midiático da mascote também foi amplificado pela televisão em cores, já que Juanito aparecia nos intervalos das transmissões, estabelecendo associação direta entre o personagem e a experiência de assistir ao Mundial. Com um resultado comercial modesto em relação ao alcançado por Willie em 1966, o principal legado de Juanito foi a conexão gerada com o público a partir da sua figura humanizada, que ainda serviu de referência para a construção das mascotes das Copas do Mundo de 1974 e 1978.

Tip e Tap: Um símbolo de união

Em 1974, a Alemanha sediou a Copa do Mundo em um momento de grandes tensões geopolíticas por conta da Guerra Fria. O próprio país anfitrião do Mundial estava dividido em dois lados, a Alemanha Ocidental, alinhada ao grupo de nações capitalistas lideradas pelos Estados Unidos, e a Alemanha Oriental, que integrava o bloco de países comunistas que tinha a União Soviética como principal expoente.

Cada “metade” alemã ainda competiu com a sua própria seleção no torneio, sendo que a parte ocidental acabou ficando com o título do Mundial de 1974. Sob este contexto, a organização da Copa do Mundo decidiu criar uma dupla de mascotes para o torneio, algo inédito até então, a fim de evitar possíveis problemas diplomáticos entre os lados e ainda simbolizar uma ideia de amizade e união entre os territórios das Alemanhas Ocidental e Oriental. 

Assim, nasceram Tip e Tap, uma criação do designer gestual Horst Schafer, que também ilustrou o pôster oficial do Mundial. Os personagens, representados por um menino loiro e outro moreno, foram apresentados como os “melhores amigos que brincam, estudam e jogam futebol juntos”, reforçando a ideia de união que a Copa do Mundo queria transmitir com as mascotes.

Tip, o personagem moreno, usava uma camisa que apresentava a sigla “WM” (abreviação de Weltmeisterschaft, que significa Copa do Mundo em alemão), enquanto Tap, o menino loiro, vestia outra com o número “74” escrito. As mascotes, que propositalmente apresentavam sempre expressões sorridentes e poses que indicavam movimento e alegria, também usavam shorts e meiões pretos, além de chuteiras na cor cinza com as três listras da Adidas, que caminhava para o seu segundo Mundial como parceira da Fifa.

Tip e Tap tentaram reforçar o sentimento de união de uma Alemanha que, em 1974, estava dividida em dois lados – Reprodução

A estratégia de comunicação em torno de Tip e Tap evitou referências diretas à divisão alemã, preferindo enfatizar valores universais como amizade e jogo limpo (fair play). A campanha de ativação ainda foi discreta devido ao contexto político da época, e uma das saídas encontradas pelos organizadores para promover os personagens foi concentrar as ações em materiais promocionais, cartazes e produtos licenciados com as mascotes sempre abraçadas ou de mãos dadas.

O modelo de licenciamento foi gerenciado pelo próprio comitê organizador alemão da Copa do Mundo, com produtos focados principalmente no mercado doméstico. Os principais itens incluíam brinquedos da dupla, material escolar como cadernos, estojos e lápis, camisetas e produtos de papelaria, entre outros. A Panini incluiu Tip e Tap no álbum de figurinhas oficial do Mundial, garantindo visibilidade internacional para as mascotes. 

Com pouco apelo internacional, mas lembrados nostalgicamente na Alemanha como símbolos de uma época de esperança de reunificação nacional, Tip e Tap mostraram para a Fifa que mascotes também serviam para carregar mensagens geopolíticas complexas, precedente importante para Copas futuras em países com tensões internas.

Gauchito: Uma mascote ambígua

Para a Copa do Mundo de 1978,  Néstor Córdoba, cartunista que trabalhava no ateliê de Manuel García Ferré, foi encarregado de criar uma mascote que representasse a “essência argentina” sem referências políticas. Vale lembrar que o país anfitrião do torneio estava sob o regime militar de Jorge Rafael Videla desde 1976 e convivia com frequentes desaparecimentos de opositores e diversas violações aos direitos humanos.

Nesse contexto, a Copa do Mundo era vista pelos militares argentinos como uma oportunidade de melhorar a imagem internacional do país, e a criação de uma mascote cativante fazia parte desse plano. A partir disso, Néstor Córdoba optou por resgatar a figura do gaúcho dos pampas, símbolo histórico de liberdade e independência na cultura argentina, evitando referências urbanas que pudessem remeter às tensões políticas do momento. 

A apresentação da mascote aconteceu em maio de 1977, com uma campanha promocional integrada à estratégia de comunicação do governo militar para a Copa do Mundo que aconteceria no ano seguinte. Com a narrativa construída em cima de um passado idealizado que evitava qualquer contexto político contemporâneo, Gauchito foi promovido na Argentina por meio da TV estatal e de materiais educacionais. A campanha enfatizava valores tradicionais como hospitalidade, coragem e amor pela terra. 

A mascote apresentava visual típico de um jovem gaúcho dos pampas: chapéu tradicional, lenço amarelo no pescoço (em referência ao Sol de Mayo da bandeira do país), bombacha, calça gaúcha tradicional e camisa da seleção argentina. O elemento mais controverso era uma espécie de facão ou chicote que Gauchito carregava, o que gerou debates sobre a adequação do personagem para o público infantil.

Gauchito foi usado pelos militares argentinos como uma oportunidade de melhorar a imagem internacional do país – Reprodução

Em relação ao licenciamento, o contexto político e econômico da Argentina fez com que o comitê organizador da Copa focasse no mercado nacional e em produtos mais básicos ligados ao Gauchito, como pequenos bonecos, camisetas, material escolar e alguns souvenirs turísticos. A internacionalização da imagem do personagem ficou por conta da Panini e do álbum de figurinhas oficial do torneio.

Fora da Argentina, ainda houve um certo receio de se licenciar artigos do Mundial por conta da associação entre produtos comerciais do evento e a ditadura militar vigente no país. Em termos de conexão com o público, a figura de Gauchito conquistou principalmente as crianças argentinas da época, mesmo com a polêmica do chicote. 

Por outro lado, o legado da mascote de 1978 pode ser definido como ambíguo, já que ela é lembrada com nostalgia pelos argentinos que viram seu país conquistar a Copa naquele ano, ao mesmo tempo em que é questionada pelo contexto e interesse político por trás da sua figura.

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Segunda reportagem da série de conteúdos especiais da Máquina do Esporte sobre os negócios envolvendo os personagens da Fifa aborda os Mundiais de 1970, 1974 e 1978
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