Endividamento das famílias brasileiras: fatores por trás do aumento da inadimplência

O termo “endividamento” refere-se ao uso excessivo de crédito, enquanto “endividado” designa o indivíduo que se encontra nessa situação. Mas o que, de fato, leva uma pessoa a gastar mais do que ganha?

Atualmente, o salário mínimo no Brasil é de R$ 1.621. No entanto, dados da Serasa, empresa de análise e informações para decisões de crédito, indicam que uma pessoa solteira precisa ganhar, em média, R$ 3.520 para viver com relativa estabilidade, valor que pode variar conforme a região. 


No Sul, por exemplo, o custo de vida tende a ser mais elevado, enquanto no Nordeste o gasto costuma ser menor. O levantamento observou, ainda, que oito em cada dez brasileiros consideram difícil gerenciar seus pagamentos e despesas diárias.

Mais do que um dado isolado, essa discrepância revela problema estrutural: para grande parte da população, a renda simplesmente não acompanha o custo de vida, o que torna o endividamento, muitas vezes, inevitável.

Poder de compra no Brasil: real perde valor

Em 2024, o UOL avaliou a mudança no poder de compra do real e constatou que, nos últimos 30 anos, o que antes valia R$ 100 (valor do salário mínimo na época) hoje equivale a apenas R$ 13,28. A inflação reduziu o poder de compra dos brasileiros em mais de 87% desde a implementação do Plano Real em 1994.


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Crédito: Shutterstock

Além disso, o portal destacou que a inflação acumulada do período supera 700%. Embora a tendência natural do poder de compra seja diminuir com o tempo, para José Ronaldo Souza, professor de Economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais do Rio de Janeiro (Ibmec-RJ), o Brasil sofreu “uma corrosão maior do que os países desenvolvidos devido a sucessivas crises que resultaram na desvalorização cambial e em anos de inflação elevada”.

Relação entre inflação e dívidas

Mas qual é a relação entre a inflação e as dívidas? O Banco Central do Brasil explicou que, quanto maior a inflação, mais alto se torna o custo de vida dos cidadãos. Além de gerar incertezas econômicas, esse fenômeno prejudica o crescimento do país.

Como consequência, as taxas de juros sobre as dívidas também são elevadas, em uma tentativa de compensar os efeitos da alta inflacionária.

Fatores determinantes para endividamento

Dados do Governo Federal, da consultoria de finanças Plano e do UOL Economia revelam os principais motivos para o endividamento dos brasileiros:

  • Comportamento de consumo compulsivo 

A impulsividade ou a falta de autocontrole está fortemente associada ao acúmulo de dívidas. Muitas pessoas tendem a comprar por impulso como forma de lidar com o estresse e outras emoções negativas.

  • Comparação social

Outro aspecto apontado como potencializador desse cenário é a comparação social, na qual as pessoas podem se sentir pressionadas a manter padrões de consumo e estilos de vida incompatíveis com suas realidades financeiras. A busca por status social está entre os fatores que incentivam o uso de crédito e o acúmulo de dívidas.

  • Falta de organização e planejamento financeiro 

Muitos brasileiros ainda não têm o hábito de se organizar financeiramente ou de monitorar suas despesas ao longo do tempo. Esse comportamento pode estar relacionado à carência de educação financeira nas escolas, seja pela ausência de profissionais capacitados ou pela falta de inserção do tema no currículo escolar. Essa lacuna é ainda mais acentuada em instituições de ensino públicas.

  • Desconhecimento financeiro e desemprego

Os brasileiros, de modo geral, não têm conhecimento ou não entendem realmente as taxas de juros e o custo total da dívida no momento de utilizar o crédito, seja por meio de cartões ou de empréstimos.

Guilherme Casagrande, educador financeiro da Creditas, plataforma digital de crédito, comentou: “As pessoas ainda usam os créditos mais caros que existem no mercado. Existem opções mais atrativas, mas elas ainda seguem o senso comum. Há uma falta de conhecimento; as pessoas não conhecem, por exemplo, o custo efetivo total da operação”.

Além das questões citadas, o desemprego exerce papel crucial. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que 5,5 milhões de brasileiros estão fora do mercado de trabalho atualmente.

Crédito: UOL Economia, 2024

Endividamento e apostas

O posicionamento contrário ao mercado de apostas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em período eleitoral, mesmo após a sanção da Lei nº 14.790, em 2023, somado ao projeto de lei do Partido dos Trabalhadores (PT) que visa proibir a atividade em todo o território nacional, fomentou discussões sobre a relação do setor com o endividamento das famílias.

O impacto direto das apostas nesse endividamento, embora debatido há anos, não foi comprovado por dados até o momento. Pelo contrário, os indicadores atuais apontam que o gasto mensal médio com as apostas online é de R$ 164.

O Ministério da Fazenda observou que a maioria dos apostadores brasileiros desembolsa até R$ 50 por mês, enquanto 20% dos usuários gastam mais de R$ 1.000 com a atividade. O levantamento da pasta reforçou o caráter de entretenimento do setor.

Além disso, em 2017, antes da legalização das apostas no país, a Agência Brasil já noticiava o crescimento do endividamento das famílias brasileiras, que na época superava 58%. 

LCA analisa endividamento no Brasil

Recentemente, um estudo da LCA, consultoria econômica, sobre endividamento e inadimplência avaliou o cenário atual do país.

O material foi elaborado por Eric Brasil, doutor em Economia e diretor de Regulação e Políticas Públicas; Luís Jorge, economista sênior; Lara Coelho, economista; Mariana Haase, economista e doutoranda em Economia; e Tomás Cardoso, graduando em Economia.

A pesquisa destacou que os juros são os principais responsáveis pelo endividamento das famílias. Ao mesmo tempo, dados da Serasa demonstram crescimento contínuo, com pequenas variações, no número de consumidores inadimplentes no Brasil desde maio de 2021. O número saltou de 62,5 milhões para os atuais 81 milhões de brasileiros nessa situação. Fevereiro deste ano tornou-se o mês com o maior número de inadimplentes em toda a série histórica, após 14 meses consecutivos de alta.

“O crescimento dos juros de crédito livre para pessoas físicas tem crescido no Brasil desde 2020 por conta, principalmente, de dois fatores: Spread Bancário [margem de lucro bruta] e Taxa Selic [taxa básica de juros da economia brasileira]”, afirmou a LCA.

O estudo apontou, ainda, que a Taxa Selic tem se descolado do índice de inflação, o que posicionou o país no segundo lugar do ranking global de juros reais. Segundo a consultoria, juros elevados comprimem a renda, sobrecarregam o endividamento e resultam em inadimplência.

Crédito: LCA, 2026

Outro dado relevante do levantamento indica que, em 2017, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), 8,5% da renda das famílias brasileiras era destinada ao lazer. Esse percentual incluía alimentação fora de casa (4,7%), viagens (1,9%) e consumo de mídia, ingressos e clubes (0,6%). Entre 2017 e 2018, os gastos com apostas online representavam 0,3% da renda.

No documento, a LCA destacou que, embora esses dados sejam anteriores à legalização das apostas no Brasil, eles revelam o comprometimento da renda com o setor naquela época. A consultoria ressaltou que, como ainda não houve uma nova edição da POF, não é possível afirmar com precisão se houve alteração nos gastos totais com lazer.

No entanto, dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF) indicam que o setor representa hoje 0,46% do consumo das famílias, o que ainda “caracteriza uma fração modesta do gasto total familiar”. Enquanto o pagamento de juros atinge R$ 696 bilhões, representando 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, as apostas online movimentaram R$ 37 bilhões, o que equivale a menos de 0,5% do consumo das famílias e a 0,3% do PIB.

Apostas como entretenimento 

O real motivo para o ataque constante a um setor de entretenimento que apresenta crescimento contínuo e gera impacto significativo na economia brasileira pode ainda não estar claro. Ainda assim, fatores como o ambiente político, sobretudo em momentos próximos a eleições, e a necessidade de responder a pressões sociais podem ajudar a explicar o posicionamento mais rígido em relação ao segmento.

Profissionais da indústria não negam os efeitos nocivos da prática compulsiva, contudo, conforme mencionado por diversos executivos, a proibição ou a restrição excessiva da atividade apenas direciona os jogadores ao mercado ilegal, no qual não há fiscalização ou proteção aos usuários. 

Os jogos online e as apostas esportivas não são uma atividade nova; apesar da regulamentação ser recente no Brasil, o setor é consolidado em diversos outros países. Ele atua como segmento econômico regular, gerando empregos, elevando a arrecadação federal e beneficiando a economia nacional.

Diante desse cenário, a discussão sobre o papel das apostas no endividamento ganha outra perspectiva. Afinal, seriam as apostas online a verdadeira razão para a inadimplência das famílias brasileiras ou apenas a face mais visível de um problema econômico muito mais complexo?


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O termo “endividamento” refere-se ao uso excessivo de crédito, enquanto “endividado” designa o indivíduo que se encontra nessa situação. Mas o que, de fato, leva uma pessoa a gastar mais 


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