Fellipe Fraga analisa como o debate sobre apostas impulsiona a sinalização de virtude no ambiente digital
O Chief Business Officer (CBO) e responsável por Relações Institucionais da Stellar Gaming, Fellipe Fraga, analisa como o debate sobre o mercado de apostas passou a ocupar espaço nas redes sociais e na opinião pública. No artigo de opinião “A nova oportunidade de sinalizar virtude”.
Fraga reflete sobre o conceito de sinalização de virtude, discute a construção de posicionamentos morais em torno das apostas e aborda os desafios da regulamentação, do jogo responsável e da necessidade de um debate baseado em informação e diálogo. A seguir, o artigo é reproduzido na íntegra.
A nova oportunidade de sinalizar virtude
Há um tempo ouvi pela primeira vez o conceito chamado de sinalização de virtude. Em sentido amplo, trata-se da manifestação pública de uma posição moral que também serve para comunicar algo sobre quem manifesta essa posição: “sou uma pessoa ética”, “estou do lado certo”, “pertenço ao grupo moralmente aceitável”.
Em um mundo onde as interações são cada vez mais digitais, a aceitação nas redes sociais e os aplausos virtuais ganham força. De tempos em tempos surgem novos temas capazes de oferecer essa validação externa e, com eles, pessoas dispostas a falar, muitas vezes sem grande conhecimento sobre o assunto, porque determinadas posições passaram a produzir aprovação social.
Se aprofundarmos a discussão, encontramos conceitos relacionados. O virtue signaling, em sua acepção mais ampla; o moral grandstanding, estudado por Justin Tosi e Brandon Warmke como a utilização do discurso moral também como instrumento de busca por status; e a teoria do costly signaling, que traz uma reflexão especialmente interessante: sinais tendem a ser mais confiáveis quando existe algum custo para quem os emite.
Em outras palavras, é relativamente fácil defender uma posição quando ela traz aplausos, engajamento e reconhecimento. Mais interessante é observar quais posições alguém sustentava quando elas custavam alguma coisa ou, pelo menos, quando ainda não rendiam nada.
Vou citar dois exemplos e, por ética, não mencionarei nomes. Em 2025, durante a final da Champions League em Munique, encontrei um dos maiores influenciadores do Brasil.
Abordei para conversar sobre uma eventual parceria e, com muita simpatia, ele explicou que sempre havia recusado trabalhar com empresas de apostas porque tinha uma experiência traumática com o jogo dentro da própria família. Fim de assunto. Respeitei sua posição e passamos a conversar sobre outras coisas.
Lembro desse caso porque existe algo fundamental em qualquer debate moral: consistência. Ele não descobriu que era contra as apostas quando ser contra as apostas passou a ser socialmente conveniente. Já pensava assim quando havia dinheiro do outro lado da mesa.
O segundo caso é diferente. Trata-se de um influenciador que construiu boa parte de sua audiência falando sobre alimentação e normalizando excessos e hábitos que dificilmente seriam utilizados como exemplos de promoção da saúde.
Recentemente, publicou um vídeo afirmando ter recusado uma proposta de uma empresa de apostas e explicando, em tom bastante indignado, por que jamais aceitaria dinheiro dessa indústria.
Pode ser verdade. Não tenho qualquer razão para afirmar o contrário. O que me chamou atenção foi perceber como, de repente, recusar dinheiro das bets e contar isso publicamente passou a ter valor.
Mais do que uma decisão comercial ou pessoal, tornou-se uma espécie de credencial moral. E não foi um caso isolado.
Trabalho há muitos anos no setor e acompanhei de perto o crescimento dessa indústria no Brasil. Durante boa parte desse período, empresas de apostas foram procuradas por clubes, entidades esportivas, veículos de comunicação, influenciadores, eventos e inúmeros projetos em busca de patrocínio, publicidade ou parceria.
Não há nada de errado nisso. O curioso é perceber como algumas dessas mesmas pessoas e organizações descobriram recentemente profundas preocupações morais com a existência das apostas, justamente quando essa posição passou a produzir recompensa social.
Não estou falando de quem mudou de opinião. Pessoas mudam de opinião, novas informações surgem e experiências transformam nossa percepção. Estou falando da facilidade com que determinados posicionamentos aparecem exatamente quando passam a render aprovação, engajamento e pertencimento.
As apostas se tornaram um tema relevante no debate público brasileiro. Existem questões sérias relacionadas ao jogo problemático, ao endividamento, à publicidade, à proteção de menores e de pessoas vulneráveis, à atuação do mercado ilegal e à própria capacidade do Estado de fiscalizar uma indústria que movimenta bilhões de reais.
São temas que o mercado regulado não ignora. Pelo contrário, enfrenta, discute e sobre os quais evolui diariamente, porque as empresas que decidiram operar dentro das regras são também as principais interessadas no desenvolvimento sustentável do setor e na garantia de uma experiência segura para quem escolhe as apostas como forma de entretenimento.
Eu trabalho nessa indústria há anos e não tenho qualquer dificuldade em reconhecer que enfrentamos desafios e questionamentos importantes. Parte relevante do meu trabalho consiste justamente em discuti-los, participar do debate público e contribuir para a construção de soluções.
Mas a regulamentação também produziu um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que criou instrumentos para enfrentar problemas que antes existiam em um ambiente praticamente sem controle, trouxe o setor para o centro do debate público e, com isso, criou uma nova oportunidade de posicionamento moral.
Ser contra as bets passou a render. E quando uma posição moral passa a produzir capital reputacional, os incentivos do debate mudam.
Tosi e Warmke utilizam o conceito de moral grandstanding para analisar situações em que o discurso moral também se transforma em instrumento de busca por status. Pesquisas empíricas posteriores identificaram duas motivações particularmente interessantes: a busca por prestígio e a busca por dominância.
Na primeira, queremos ser admirados pelas posições que defendemos e demonstrar pertencimento ao lado moralmente correto da discussão. Na segunda, a construção do próprio status depende também de diminuir o status moral dos demais.
Não basta defender que existem problemas relacionados às apostas e que precisamos enfrentá-los. É necessário sugerir que quem trabalha no setor é moralmente suspeito, que quem discorda é cúmplice ou que determinadas pessoas simplesmente não possuem legitimidade para participar do debate.
Essa distinção me parece especialmente importante porque percebi uma mudança curiosa nos últimos tempos: as pessoas pararam de perguntar.
Durante anos fui procurado por jornalistas, estudantes, pesquisadores e pessoas interessadas em entender o funcionamento do mercado. Queriam saber como operava uma empresa de apostas, como funcionavam os mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, quais eram os desafios relacionados ao jogo responsável, qual era o tamanho do mercado ilegal ou quais seriam as consequências da regulamentação.
Muitas dessas pessoas discordavam de mim e algumas continuavam discordando depois da conversa. Normal. O objetivo de uma conversa não precisa ser produzir concordância.
Hoje encontro cada vez mais pessoas que parecem não precisar perguntar nada. Conhecem pouco sobre o funcionamento da indústria, nunca leram a regulamentação, não sabem distinguir uma empresa autorizada de uma operação ilegal e desconhecem boa parte das obrigações impostas ao mercado regulado, mas possuem convicções absolutamente definitivas sobre o tema.
Isso acontece inclusive no meu círculo social. Pessoas que conhecem meu trabalho, sabem da minha abertura ao diálogo e têm acesso direto a alguém que há anos vive nessa indústria, preferem não perguntar, não confrontar ideias e não buscar compreender melhor aquilo que criticam.
Em alguns casos, é difícil não perceber que a manifestação pública da posição parece mais importante do que qualquer disposição para o diálogo.
Talvez seja justamente aí que a discussão sobre sinalização de virtude deixe de ser uma abstração acadêmica para se tornar algo que reconheço no meu cotidiano.
Seria intelectualmente desonesto tratar toda manifestação pública de valores como algo negativo. Neil Levy defende que a sinalização de virtude pode ter efeitos sociais positivos ao fortalecer normas e comunicar quais comportamentos uma sociedade valoriza.
Evan Westra argumenta que até mesmo a busca por reputação moral pode contribuir para mudanças sociais relevantes.
O problema, portanto, não está necessariamente em sinalizar virtude. Começa quando o incentivo para demonstrá-la se torna maior do que o incentivo para compreender o problema.
Quando alguém recebe mais reconhecimento por condenar uma indústria do que receberia por estudar seriamente seus desafios.
Quando uma postagem indignada vale mais do que uma proposta de política pública. Quando pertencer ao lado moralmente correto da discussão se torna mais importante do que reconhecer que problemas complexos raramente possuem soluções moralmente confortáveis.
O Brasil precisa discutir seriamente os impactos sociais das apostas. Precisa seguir aperfeiçoando a regulamentação, aprimorar as políticas e iniciativas de jogo responsável, produzir melhores dados, fiscalizar as empresas autorizadas e combater com eficiência o gigantesco mercado ilegal, que não se submete aos mesmos controles, obrigações e mecanismos de proteção.
Precisa analisar os dados oficiais e perceber como eles contradizem muitos argumentos contrários ao setor que ignora a existência do mercado ilegal.
Para isso, será necessário ouvir pesquisadores, profissionais de saúde, reguladores, apostadores, críticos da indústria e as pessoas que trabalham há anos dentro dela.
Não necessariamente para concordar. Mas, pelo menos, para perguntar. É exatamente esse diálogo que já é promovido em eventos realizados pelo próprio mercado regulado.
Porque talvez uma das consequências mais perigosas da transformação de problemas públicos em oportunidades de posicionamento moral seja justamente esta: quando todos estão ocupados demais demonstrando que estão do suposto lado certo, sobra pouca gente realmente interessada em entender o problema.
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